Caros,

É mesmo deprimente que departamentos tão importantes ajam com essa
​ *​*
*mauvaise foi*. Como fiquei curiosa com a colocação de Giselle Reis, fiz
​ ​
uma pequena busca entre as universidades alemãs, para saber como elas
​ ​
se divulgam. Em geral, as universidades por aqui não criam muitas
​ ​
expectativas ao graduado em Filosofia além de ser professor escolar ou
​ ​
professor/pesquisador acadêmico. Vi também que algumas universidades,
​ ​
como a Universidade de Frankfurt, tem orgulho por sua tradição, e
outras, como a LMU, chamam atenção para a vocação acadêmica que o
​ ​
estudante de filosofia deve ter e cita um par de possibilidades
​ ​
profissionais (p.e. parecerista de uma agência de fomento, editor),
mas também fornece algumas “amostras” de textos filosóficos para
​ ​
motivar (ou desmotivar de vez) os aspirantes — entre estes textos está
​ ​
o  "Über Sinn und Bedeutung
<http://www.philosophie.uni-muenchen.de/studium/das_fach/warum_phil_ueberhaupt/frege_sinn_und_bedeutung.pdf>”,
de Frege. Acho que essa frase aqui
​ ​
resume a (des)pretensão: “
*Das Philosophiestudium ist im Idealfall (wie​ ​übrigens auch jedes andere
geisteswissenschaftliche Studium) immer ein​ ​Selbstzweck*” (O estudo de
filosofia —bem como de qualquer outro estudo
​ ​
de ciências humanas — é idealmente sempre um fim em si mesmo).
(fonte:
http://www.philosophie.uni-muenchen.de/studium/das_fach/und_dann/index.html)
​. ​
É bom acrescentar que as universidades são gratuitas na Alemanha.

Achei, no entanto, uma lista interessante na Universidade de
​ ​
Innsbruck, na Áustria. Entre o ensino de história e sistemas
​ ​
filosóficos, a universidade também se propõe desenvolver as
competências de seus alunos em:
- pensar analiticamente e ser capaz de compreender os textos
- ser capaz de analisar criticamente estrutura argumentativas
- ser capaz de desenvolver criativamente seus próprios argumentos
- ser capaz de desenvolver novos campos de estudos de forma independente
- ser capaz de apresentar questões complexas
- aprender a questionar e não se contentar facilmente com as soluções
​ ​
apresentadas
(fonte:
https://www.uibk.ac.at/philtheol/information/warum-philosophie-studieren.html
)
A lista é geral, mas não promete um futuro de dinheiro e fama aos egressos…
​ ​
t​
ambém nada garante que a faculdade tem sido bem sucedida em cumprir o
​ ​
que está listado.

Voltando para o Brasil, e mais especificamente ao ensino de lógica,
​ ​
acho que o mais grave de nossa situação atual foi colocado por Gisele
​ ​
Secco. O desprezo pela lógica como parte da filosofia é visível e a má
​ ​
formação de professores de filosofia alimenta esse desprezo gerando um
​ ​
ciclo. Creio que um grupo de trabalho apoiado pela SBL pode ser efetivo na
mudança dessa situação tanto no ensino médio como nas
​ ​
graduações. Me parece ser uma condição necessária, mas não suficiente,
​ ​
​
desenvolver bons materiais didáticos para o ensino de Lógica (e existem!).
Mas, uma das alternativas
para a melhoria do ensino, acredito, seria buscar o melhor relacionamento
do ensino de
lógica com as outras disciplinas
​ ​
--
​ ​
disciplinas
​ ​
de filosofia,
​ ​
no caso das graduações,
​ ​
e
​ ​
disciplinas
​ ​
do currículo nacional,
​ ​
no caso do EM).
​ ​
Existiriam
​ ​
já alguma(s) proposta(s) em relação a isso? O desafio
​ ​
seria
​ ​
suficientemente grande se ainda não fosse o fato de que poucos estão
​ ​
motivados a serem professores
​
de ensino médio
​ ​
n
​a​
​
 situação atual do
​ ​
país.

Abraços
​,
Carol Blasio
​

Em 6 de julho de 2017 03:04, Marcelo Finger <[email protected]> escreveu:

> Caro JM, Gisele e demais
>
> > na citada universidade não foi feito nenhum esforço de *comparar* o
> resultado
> > obtido através do PBL com o resultado obtido em outras formas
> tradicionais de
> > ensino.
>
> Gostaria de apontar vocês para o trabalho do Paulo Blikstein, de
> Stanford, no ensino de tecnologia, que MEDE e mostra que apresentar um
> problema concreto ANTES de ensinar a teoria traz maior grau de fixação
> dos conceitos apresentados.  Ou seja, os alunos comprovadamente
> "aprendem mais" se forem desafiados com a pensar no assunto antes de
> receberem uma exposição teórica.
>
> Isso, com a vantagem da retrovisão, é tão óbvio que me deixa perplexo
> por que quase nenhum curso expositivo que eu dei (dava) ou assisti não
> usa esse método.
>
> []s
>
> Marcelo
>
>
> 2017-07-05 11:56 GMT-03:00 Joao Marcos <[email protected]>:
> > Prezada Gisele (S):
> >
> > Fico contente em vê-la participando das discussões da LOGICA-L, e
> > aproveito para parabenizá-la pela organização do *IV Workshop de
> > Filosofia e Ensino*, semana passada:
> > https://wfeufrgs.wordpress.com/
> >
> >> O texto em questão, embora seu contexto seja estadunidense, merece
> alguma
> >> atenção no Brasil pelo simples fato de que a filosofia corre,
> atualmente, o
> >> risco de não mais ser componente curricular obrigatório nas escolas de
> >> Ensino Médio (assim como muitas outras, vale dizer). No nosso contexto,
> >> quando então se intensifica a produção de argumentos em favor da
> presença da
> >> filosofia na fase média de ensino básico, não é rara uma modalidade de
> >> defesa calcada em pesquisas como as mencionadas no texto, louvando-se as
> >> capacidades de pensamento crítico supostamente desenvolvidas nas aulas
> de
> >> filosofia. Daí que o texto nos seja relevante, para compararmos com o
> que se
> >> diz por aqui.
> >>
> >> (Digo "supostamente" porque nunca fica muito claro, nos eventos e
> textos em
> >> que o tema é discutido, o que se entende por pensamento crítico, nem se
> >> explicitam seus vínculos com a lógica stricto sensu - tampouco se
> oferecem
> >> exemplos de experiências didáticas de sucesso nesse sentido. Os livros
> >> didáticos selecionados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) até
> o
> >> último edital possuem capítulos de lógica muito fracos, desconectados
> dos
> >> demais, e é bem sabido que a maioria dos professores de filosofia do
> Ensino
> >> Médio não tiveram boas aulas de lógica durante a graduação (o que gera
> >> insegurança para trabalha-la quando se tornam professores, um nefasto
> >> círculo de expectativas antimatemáticas entre postulantes a estudantes e
> >> futuros professores de filosofia) nem tampouco uma preparação para o
> >> trabalho didático com lógica em contextos de escola média e fundamental.
> >> Isso tudo sem contar boa parcela dos envolvidos com ensino de filosofia
> que
> >> simplesmente desprezam a lógica como instrumento de pensamento e
> filosofia.)
> >
> > O conteúdo do seu relato é realmente preocupante!
> >
> > Com relação aos pontos de contato entre o conteúdo do texto que
> > circulei antes e a realidade brasileira, choca-me em particular
> > perceber a forma como a educação no Brasil é muitas vezes tratada de
> > uma forma puramente ideologizada --- mesmo por cientistas da área, e
> > pelos especialistas nacionais em teoria pedagógica.  Recordo-me por
> > exemplo de uma reunião da qual participei há dois anos em um instituto
> > da minha universidade, na qual um colega de outra universidade
> > apresentou as inúmeras vantagens do problem-based learning (PBL), tal
> > como aplicado em um curso da área de TI de sua universidade, e todos
> > saíram da palestra maravilhados com tudo aquilo...  Uma postura
> > minimamente crítica e científica permitiria contudo identificar ali
> > dois problemas.  O primeiro era que na citada universidade não foi
> > feito nenhum esforço de *comparar* o resultado obtido através do PBL
> > com o resultado obtido em outras formas tradicionais de ensino.  De
> > fato, *todas* as turmas daquele curso, lá, são submetidas ao PBL desde
> > o início!  O segundo estava no fato de que no blog da Communications
> > of the ACM acabava de ser publicado um post que comentava que *não há
> > evidências* de que PBL, por mais bonito que pareça, realmente funciona
> > tão bem quanto desejaríamos:
> > http://cacm.acm.org/magazines/2015/2/182637-whats-the-best-
> way-to-teach-computer-science-to-beginners/fulltext
> > Noto que este post cita um artigo extremamente influente [1], cujos
> > autores comentam:
> >   "Why do outstanding scientists who demand rigorous proof for
> >   scientific assertions in their research continue to use and indeed
> >   defend on the bias of intuition alone, teaching methods that are
> >   not the most effective?"
> > Creio que isto vai ao encontro de algumas das preocupações do Sesardic.
> >
> > A propósito, há um outro paper do Sesardic (com Rafael De Clercq) [2]
> > que comenta sobre a *disparidade de gênero* na área de Filosofia e
> > coloca em questão as alegadas evidências da hipótese segundo a qual
> > haveria algum tipo de *discriminação* contra as mulheres na área de
> > Filosofia.
> >
> > [1] Why Minimal Guidance During Instruction Does Not Work: An Analysis
> > of the Failure of Constructivist, Discovery, Problem-Based,
> > Experiential, and Inquiry-Based Teaching
> > http://www.cogtech.usc.edu/publications/kirschner_Sweller_Clark.pdf
> >
> > [2] Women in Philosophy: Problems with the Discrimination Hypothesis
> > https://www.nas.org/articles/women_in_philosophy_problems_
> with_the_discrimination_hypothesis
> >
> >> Há muito ainda por ser pesquisado em termos de didática da lógica entre
> nós,
> >> por isso me alegrou muito a notícia de que a nova diretoria da SBL está
> >> sensível ao tópico.
> >
> > Sem dúvida é saudável (é de se saudar) esta iniciativa da nova
> > Diretoria da SBL!  Suponho que teremos mais notícias em breve sobre
> > estas coisas, de Cassiano e outros.  A propósito, há dois anos
> > participei da organização do *Fourth International Congress on Tools
> > for Teaching Logic* (http://ttl2015.irisa.fr/), em Rennes.  Há uma boa
> > chance de que o próximo evento da série ocorra no Brasil, em conjunto
> > com o próximo EBL.
> >
> > Ah, vale notar que há nesta lista outros pesquisadores com bastante
> > envolvimento na área de Ensino (incluindo o uso de MOOCs).  Seria
> > muito bom vê-los participando desta discussão, e das iniciativas
> > correlatas!
> >
> > Abraços,
> > Joao Marcos
> >
> > --
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> > --
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> 3Dr7UqzJ0kNX46ZGROaeM_4xzycA%40mail.gmail.com.
>
>
>
> --
>  Marcelo Finger
>  Departament of Computer Science, IME
>  University of Sao Paulo
>  http://www.ime.usp.br/~mfinger
>
> --
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> tQpUX72c3M6Ctg%40mail.gmail.com.
>



-- 
*Carolina Blasio*
PhD student in Philosophy
State University of Campinas (Unicamp)
*"Most if not all choices in life are not binary"*
M. Dunn, 2010. Too much of a good thing.

-- 
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