Obrigado pela explicação, vale a pena estudar os detalhes.

Só quero dizer que gostei do trabalho desses professores porque primeiro tem 
foco num assunto e segundo traz demonstrações elegantes e enxutas. Acho essa 
segunda qualidade a mais importante. (Não se pode viver num mundo em que cada 
simples proposição receba uma demonstração de mais de 400 páginas!) São 
contribuições assim claras, concisas e objetivas que realmente alargam o 
conhecimento!

Dize à sabedoria: Tu és minha irmã...
Provérbios 7:4

> On 17 Sep 2017, at 22:51, 'Samuel Gomes' via LOGICA-L 
> <[email protected]> wrote:
> 
> ... Vamos começar de situações simples (e óbvias de responder) para chegar 
> numa intuição do que seja o cardinal p.
> 
> 1) Existem famílias infinitas de subconjuntos infinitos do conjunto N dos 
> naturais que sejam tais que:
> 
> --> qualquer intersecção de uma subfamília finita da família resulta num 
> conjunto infinito;
> 
> --> porém a família tem intersecção vazia ?
> 
> ... Isso é fácil de exibir:
> 
> A_1 = {1,2,3,...}
> 
> A_2 = {2,3,4....}
> 
> A_3 = {3,4,5,...}
> 
> ... A_n = {k: k maior ou igual a n}
> 
> A família {A_n: n maior ou igual a 1} satisfaz as duas condições acima.
> 
> Porém, se C é um subconjunto infinito e *qualquer* dos naturais, C funciona 
> como uma "pseudo-intersecção" da família,
> no sentido de estar "quase contido" em todos os elementos da família; essa 
> coisa do quase contido é, exatamente,
> dizer que C menos A_n é um conjunto finito (para todo n) - i.e., "alll but 
> finitely many" dos elementos de C serão, também, elementos de qualquer
> um dos A_n.
> 
> Uma situação um pouco menos abstrata aparece, por exemplo, na reta. Qualquer 
> ponto x é ponto de acumulação de racionais (no sentido de que qualquer
> intervalinho centrado nesse ponto x contém infinitos racionais). Se fixamos 
> uma enumeração dos racionais (lembrar que é enumerável), digamos,
> 
> Q = {r_n: n em N}
> 
> e fixamos os intervalos abertos ]x - 1/k, x + 1/k[ para k maior ou igual a 1, 
> podemos criar uma família de subconjuntos dos naturais como acima
> da seguinte forma:
> 
> A_k = {n em N: r_n pertence a   ]x - 1/k, x + 1/k[   }
> 
> Como a intersecção dos intervalinhos se reduz ao ponto, se o número x for 
> irracional teremos que essa família {A_k: k maior ou igual a um} é de 
> intersecção vazia
> porém com certeza tem pseudo-intersecção infinita: basta pegar qualquer 
> sequência de racionais que convirja para o ponto x e, voilá, o conjunto dos 
> índices A
> dessa sequência é uma pseudo-intersecção infinita da família !!! "All but 
> finitely many", todos a menos de no máximo finitos elementos de A, vão cair 
> dentro de qualquer A_k que você fixar.
> 
> Então, a pergunta seguinte seria:
> 
> 2) Existem famílias infinitas de subconjuntos infinitos do conjunto N dos 
> naturais que sejam tais que:
> 
> --> qualquer intersecção de uma subfamília finita da família resulta num 
> conjunto infinito;
> 
> --> porém a família tem NÃO TEM pseudo-intersecção infinita ?
> 
> Uma das primeiras coisas que se pode checar é que, se a família de 
> subconjuntos infinitos for ENUMERÁVEL, se constrói facilmente
> uma pseudo-intersecção infinita para essa família.
> 
> Supondo que {A_n: n maior ou igual a 0} seja tal que todas as intersecções 
> finitas resultem em conjuntos infinitos, fazemos assim:
> 
> a_o = min(A_0)
> 
> a_1 = min( (A_0 intersectado com A_1) - {a_0})
> 
> a_2 = min( (A_0 intersectado com A_1 intersectado com A_2) - {a_0,a_1} )
> 
> ...
> 
> a_k = min( (A_0 intersectado com A_1 intersectado com... intersectado com 
> A_k) - {a_0,a_1,...,a_{k-1}} )
> 
> ...
> 
> O conjunto A = {a_k: k maior ou igual a zero} é uma pseudo-intersecção 
> infinita da família. (Quem já fez um curso de espaços
> métricos e achou parecido com a construção de uma subsequência convergente a 
> um ponto de acumulação de uma sequência, é porque é isso
> mesmo, sempre podemos encarar, de certa forma, a pseudo-intersecção infinita 
> como uma subsequência convergente).
> 
> Bom, enumeráveis não podem ser então... E não-enumeráveis ?
> 
> Com um pouco de Axioma da Escolha, tomamos um ultrafiltro livre sobre os 
> naturais e ele tem essas duas propriedades: trata-se
> de uma família infinita de subconjuntos infinitos dos naturais que é tal que 
> toda subfamília finita tem intersecção infinita e não possui
> pseudointersecção infinita.
> 
> (Pra ver que não tem pseudo-intersecção infinita, tome qualquer A contido nos 
> naturais que seja infinito: se o complementar de A estiver no ultrafiltro,
> ele já não é pseudo-intersecção infinita do ultrafiltro porque A menos 
> complementar de A vai dar A que é infinito. E, se A estiver no ultrafiltro 
> (lembrando que ou A ou o complementar de A com certeza estão), usamos que os 
> ultrafiltros são filtros primos: escrevendo A = A_1 unido com A_2, com ambos 
> A_1, A_2 infinitos, sabemos que exatamente UM entre A_1 e A_2 vai estar no 
> ultrafiltro livre. Se for A_1, A menos A_1 = A_2, que é infinito, se for A_2, 
> A menos A_2 = A_1 que é infinito.)
> 
> 
> ... Ou seja, do exercício mental acima temos que:
> 
> --> Existem famílias de subconjuntos infinitos dos naturais que são tais que 
> toda subfamília finita tem intersecção resultando num conjunto infinito, porém
> não possuem pseudo-intersecção infinita (os ultrafiltros livres são exemplos 
> disso);
> 
> --> porém, uma família desse tipo não pode ser enumerável.
> 
> Aí a pergunta que um teorista de conjuntos faz é:
> 
> QUAL É O TAMANHO MÍNIMO DE UMA FAMÍLIA COM ESSAS PROPRIEDADES ?
> 
> Pois é, esse é o cardinal p ("pseudointersection number"). É não-enumerável 
> porque pra famílias enumeráveis existe a pseudo-intersecção, e limitado 
> superiormente pelo contínuo porque é o tamanho de subfamílias de Partes de N 
> (logo, em modelos onde vale a Hipótese do Contínuo, ele vale aleph_1 = c, mas 
> em muitos modelos podemos ter o p não enumerável e maior do que aleph_1, por 
> exemplo em todos os modelos onde vale o Axioma de Martin tem-se aleph_1 < p = 
> c). 
> 
> Brincando com uma construção topológica, podemos mostrar que
> 
> p = menor tamanho das base locais de abertos de um espaço topológico qualquer 
> que não seja subsequencial
> 
> (subsequencial = pontos de acumulação de uma sequência são limites de uma 
> subsequência)
> 
> Prova: abaixo de p sempre vai existir a pseudo-intersecção infinita, que 
> corresponde à subsequência convergente.
> Logo, se as bases locais tem tamanho menor do que p, se consegue sempre a 
> subsequência convergente.
> 
> Já no p, tome uma família de tamanho mínimo com as tais propriedades 
> (intersecções finitas dando infinito, sem pseudo-intersecção 
> infinita) e transforme essa família num ponto no infinito com relação aos 
> naturais; pra quem conhece os ordinais, imagine que estamos trabalhando
> com omega + 1. Considere o espaço Naturais unido com {essa família}, declare 
> os pontos naturais como isolados e que as vizinhanças básicas
> da família são exatamente os conjuntos da forma {Família} unido A, onde A 
> pertence a família. Pronto, esse é um espaço no qual a família
> é ponto de acumulação dos naturais mas não tem nenhuma sequência dos naturais 
> convergindo pra ela (porque se tivesse, a subsequência
> seria pseudo-intersecção infinita, mas no caso aí isso não existe). 
> 
> Já o t é o menor tamanho possível para uma torre. Uma torre é uma família que 
> tem as mesmas propriedades que as que definem p
> (por isso com certeza já se sabia que p menor ou igual a t), porém a torre é 
> bem-ordenada pela quase-inclusão estrita reversa, i.e., a cara
> básica de uma torre é {T_alpha: alpha < t} onde
> 
> T_0 quase contém propriamente T_1 quase contém propriamente T_2 ... quase 
> contém propriamente T_alpha ....
> 
> (Aí o quase contém propriamente é definido como: X quase contém propriamente 
> Y se X menos Y é infinito enquanto que Y menos X é finito).
> 
> Quase todo mundo na área (eu inclusive) esperávamos que algum dia alguém 
> mostrasse que a desigualdade estrita "p < t" fosse consistente
> (isso é uma coisa que o artigo de divulgação não explica bem: uma prova de "p 
> < t" não seria nunca uma prova absoluta, com certeza seria uma
> prova de consistência porque, por exemplo, sob a Hipótese do Contínuo eles 
> necessariamente são iguais).
> 
> t é uma espécie de versão muito bem comportada de p (por estar bem ordenado 
> pela quase inclusão estrita reversa e tal). Então a diferença entre
> eles acaba sendo uma diferença de complexidade, digamos. Foi por aí a prova 
> de p = t por Shelah/Malliaris: eles estavam investigando qjuestões
> sobre comparação de complexidade entre teorias e... Pimba, acabaram chegando 
> no p = t. Como disseram no artigo, "eles provaram p = t numa 
> situação em que estavam olhando para outra coisa"...
> 
> É um resultado realmente tão divisor de águas que só de ter feito o review 
> para o Zentralblatt Math eu fiquei super-emocionado, hehe:
> 
> https://zbmath.org/?q=an:06321199
> 
> ... É isso, atés,  Saludos desde Natal (minicurso sobre ultrafiltros na UFRN 
> nesta semana) !!! Escrevi este email com vista ao Morro do Careca...
> 
> []s  Samuel
> 
> 
> 
> 
> 
>> On Sunday, September 17, 2017 at 9:38:39 AM UTC-3, Samuel Gomes wrote:
>> Olás, 
>> 
>> Depois eu conto um pouco sobre p e t, no momento estou no celular e não 
>> posso escrever muito. 
>> 
>> Só como informação a Malliaris (coautora de Shelah no trabalho) vai estar no 
>> Rio ano que vem, como palestrante no Painel de Lógica do Encontro Mundial de 
>> Matemáticos. 
>> 
>> Atés 
>> 
>> []s Samuel
> 
> -- 
> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos 
> Grupos do Google.
> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
> e-mail para [email protected].
> Para postar nesse grupo, envie um e-mail para [email protected].
> Acesse esse grupo em 
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> Para ver essa discussão na Web, acesse 
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