Olás,

Só comentando que o paper de 6 páginas, conforme eu chamei a atenção no meu 
Review no ZbMath:

https://zbmath.org/?q=an:06321199

não tinha mesmo *todos* os detalhes das demonstrações: foi publicado já 
deixando claro que os detalhes
todos estavam num artigo que, naquela época, ainda estava no Arxiv. Esse 
trabalho completo foi posteriormente publicado,
tendo ficado com 61 páginas:

http://www.ams.org/journals/jams/2016-29-01/S0894-0347-2015-00830-X/S0894-0347-2015-00830-X.pdf

Então havia um motivo para tanta concisão no artigo de 6 páginas - os 
detalhes todos estavam em outro lugar !

Atés,

[]s  Samuel



On Monday, September 18, 2017 at 11:45:30 PM UTC-3, marmo.tony wrote:
>
> Obrigado pela explicação, vale a pena estudar os detalhes.
>
> Só quero dizer que gostei do trabalho desses professores porque primeiro 
> tem foco num assunto e segundo traz demonstrações elegantes e enxutas. Acho 
> essa segunda qualidade a mais importante. (Não se pode viver num mundo em 
> que cada simples proposição receba uma demonstração de mais de 400 
> páginas!) São contribuições assim claras, concisas e objetivas que 
> realmente alargam o conhecimento!
>
> *Dize à sabedoria: Tu és minha irmã...*
>
> Provérbios 7:4 <https://www.bibliaonline.com.br/acf/pv/7/4>
>
> On 17 Sep 2017, at 22:51, 'Samuel Gomes' via LOGICA-L <
> [email protected] <javascript:>> wrote:
>
> ... Vamos começar de situações simples (e óbvias de responder) para chegar 
> numa intuição do que seja o cardinal p.
>
> 1) Existem famílias infinitas de subconjuntos infinitos do conjunto N dos 
> naturais que sejam tais que:
>
> --> qualquer intersecção de uma subfamília finita da família resulta num 
> conjunto infinito;
>
> --> porém a família tem intersecção vazia ?
>
> ... Isso é fácil de exibir:
>
> A_1 = {1,2,3,...}
>
> A_2 = {2,3,4....}
>
> A_3 = {3,4,5,...}
>
> ... A_n = {k: k maior ou igual a n}
>
> A família {A_n: n maior ou igual a 1} satisfaz as duas condições acima.
>
> Porém, se C é um subconjunto infinito e *qualquer* dos naturais, C 
> funciona como uma "pseudo-intersecção" da família,
> no sentido de estar "quase contido" em todos os elementos da família; essa 
> coisa do quase contido é, exatamente,
> dizer que C menos A_n é um conjunto finito (para todo n) - i.e., "alll but 
> finitely many" dos elementos de C serão, também, elementos de qualquer
> um dos A_n.
>
> Uma situação um pouco menos abstrata aparece, por exemplo, na reta. 
> Qualquer ponto x é ponto de acumulação de racionais (no sentido de que 
> qualquer
> intervalinho centrado nesse ponto x contém infinitos racionais). Se 
> fixamos uma enumeração dos racionais (lembrar que é enumerável), digamos,
>
> Q = {r_n: n em N}
>
> e fixamos os intervalos abertos ]x - 1/k, x + 1/k[ para k maior ou igual a 
> 1, podemos criar uma família de subconjuntos dos naturais como acima
> da seguinte forma:
>
> A_k = {n em N: r_n pertence a   ]x - 1/k, x + 1/k[   }
>
> Como a intersecção dos intervalinhos se reduz ao ponto, se o número x for 
> irracional teremos que essa família {A_k: k maior ou igual a um} é de 
> intersecção vazia
> porém com certeza tem pseudo-intersecção infinita: basta pegar qualquer 
> sequência de racionais que convirja para o ponto x e, voilá, o conjunto dos 
> índices A
> dessa sequência é uma pseudo-intersecção infinita da família !!! "All but 
> finitely many", todos a menos de no máximo finitos elementos de A, vão cair 
> dentro de qualquer A_k que você fixar.
>
> Então, a pergunta seguinte seria:
>
> 2) Existem famílias infinitas de subconjuntos infinitos do conjunto N dos 
> naturais que sejam tais que:
>
> --> qualquer intersecção de uma subfamília finita da família resulta num 
> conjunto infinito;
>
> --> porém a família tem NÃO TEM pseudo-intersecção infinita ?
>
> Uma das primeiras coisas que se pode checar é que, se a família de 
> subconjuntos infinitos for ENUMERÁVEL, se constrói facilmente
> uma pseudo-intersecção infinita para essa família.
>
> Supondo que {A_n: n maior ou igual a 0} seja tal que todas as intersecções 
> finitas resultem em conjuntos infinitos, fazemos assim:
>
> a_o = min(A_0)
>
> a_1 = min( (A_0 intersectado com A_1) - {a_0})
>
> a_2 = min( (A_0 intersectado com A_1 intersectado com A_2) - {a_0,a_1} )
>
> ...
>
> a_k = min( (A_0 intersectado com A_1 intersectado com... intersectado com 
> A_k) - {a_0,a_1,...,a_{k-1}} )
>
> ...
>
> O conjunto A = {a_k: k maior ou igual a zero} é uma pseudo-intersecção 
> infinita da família. (Quem já fez um curso de espaços
> métricos e achou parecido com a construção de uma subsequência convergente 
> a um ponto de acumulação de uma sequência, é porque é isso
> mesmo, sempre podemos encarar, de certa forma, a pseudo-intersecção 
> infinita como uma subsequência convergente).
>
> Bom, enumeráveis não podem ser então... E não-enumeráveis ?
>
> Com um pouco de Axioma da Escolha, tomamos um ultrafiltro livre sobre os 
> naturais e ele tem essas duas propriedades: trata-se
> de uma família infinita de subconjuntos infinitos dos naturais que é tal 
> que toda subfamília finita tem intersecção infinita e não possui
> pseudointersecção infinita.
>
> (Pra ver que não tem pseudo-intersecção infinita, tome qualquer A contido 
> nos naturais que seja infinito: se o complementar de A estiver no 
> ultrafiltro,
> ele já não é pseudo-intersecção infinita do ultrafiltro porque A menos 
> complementar de A vai dar A que é infinito. E, se A estiver no ultrafiltro 
> (lembrando que ou A ou o complementar de A com certeza estão), usamos que 
> os ultrafiltros são filtros primos: escrevendo A = A_1 unido com A_2, com 
> ambos A_1, A_2 infinitos, sabemos que exatamente UM entre A_1 e A_2 vai 
> estar no ultrafiltro livre. Se for A_1, A menos A_1 = A_2, que é infinito, 
> se for A_2, A menos A_2 = A_1 que é infinito.)
>
>
> ... Ou seja, do exercício mental acima temos que:
>
> --> Existem famílias de subconjuntos infinitos dos naturais que são tais 
> que toda subfamília finita tem intersecção resultando num conjunto 
> infinito, porém
> não possuem pseudo-intersecção infinita (os ultrafiltros livres são 
> exemplos disso);
>
> --> porém, uma família desse tipo não pode ser enumerável.
>
> Aí a pergunta que um teorista de conjuntos faz é:
>
> QUAL É O TAMANHO MÍNIMO DE UMA FAMÍLIA COM ESSAS PROPRIEDADES ?
>
> Pois é, esse é o cardinal p ("pseudointersection number"). É 
> não-enumerável porque pra famílias enumeráveis existe a pseudo-intersecção, 
> e limitado superiormente pelo contínuo porque é o tamanho de subfamílias de 
> Partes de N (logo, em modelos onde vale a Hipótese do Contínuo, ele vale 
> aleph_1 = c, mas em muitos modelos podemos ter o p não enumerável e maior 
> do que aleph_1, por exemplo em todos os modelos onde vale o Axioma de 
> Martin tem-se aleph_1 < p = c). 
>
> Brincando com uma construção topológica, podemos mostrar que
>
> p = menor tamanho das base locais de abertos de um espaço topológico 
> qualquer que não seja subsequencial
>
> (subsequencial = pontos de acumulação de uma sequência são limites de uma 
> subsequência)
>
> Prova: abaixo de p sempre vai existir a pseudo-intersecção infinita, que 
> corresponde à subsequência convergente.
> Logo, se as bases locais tem tamanho menor do que p, se consegue sempre a 
> subsequência convergente.
>
> Já no p, tome uma família de tamanho mínimo com as tais propriedades 
> (intersecções finitas dando infinito, sem pseudo-intersecção 
> infinita) e transforme essa família num ponto no infinito com relação aos 
> naturais; pra quem conhece os ordinais, imagine que estamos trabalhando
> com omega + 1. Considere o espaço Naturais unido com {essa família}, 
> declare os pontos naturais como isolados e que as vizinhanças básicas
> da família são exatamente os conjuntos da forma {Família} unido A, onde A 
> pertence a família. Pronto, esse é um espaço no qual a família
> é ponto de acumulação dos naturais mas não tem nenhuma sequência dos 
> naturais convergindo pra ela (porque se tivesse, a subsequência
> seria pseudo-intersecção infinita, mas no caso aí isso não existe). 
>
> Já o t é o menor tamanho possível para uma torre. Uma torre é uma família 
> que tem as mesmas propriedades que as que definem p
> (por isso com certeza já se sabia que p menor ou igual a t), porém a torre 
> é bem-ordenada pela quase-inclusão estrita reversa, i.e., a cara
> básica de uma torre é {T_alpha: alpha < t} onde
>
> T_0 quase contém propriamente T_1 quase contém propriamente T_2 ... quase 
> contém propriamente T_alpha ....
>
> (Aí o quase contém propriamente é definido como: X quase contém 
> propriamente Y se X menos Y é infinito enquanto que Y menos X é finito).
>
> Quase todo mundo na área (eu inclusive) esperávamos que algum dia alguém 
> mostrasse que a desigualdade estrita "p < t" fosse consistente
> (isso é uma coisa que o artigo de divulgação não explica bem: uma prova de 
> "p < t" não seria nunca uma prova absoluta, com certeza seria uma
> prova de consistência porque, por exemplo, sob a Hipótese do Contínuo eles 
> necessariamente são iguais).
>
> t é uma espécie de versão muito bem comportada de p (por estar bem 
> ordenado pela quase inclusão estrita reversa e tal). Então a diferença entre
> eles acaba sendo uma diferença de complexidade, digamos. Foi por aí a 
> prova de p = t por Shelah/Malliaris: eles estavam investigando qjuestões
> sobre comparação de complexidade entre teorias e... Pimba, acabaram 
> chegando no p = t. Como disseram no artigo, "eles provaram p = t numa 
> situação em que estavam olhando para outra coisa"...
>
> É um resultado realmente tão divisor de águas que só de ter feito o review 
> para o Zentralblatt Math eu fiquei super-emocionado, hehe:
>
> https://zbmath.org/?q=an:06321199
>
> ... É isso, atés,  Saludos desde Natal (minicurso sobre ultrafiltros na 
> UFRN nesta semana) !!! Escrevi este email com vista ao Morro do Careca...
>
> []s  Samuel
>
>
>
>
>
> On Sunday, September 17, 2017 at 9:38:39 AM UTC-3, Samuel Gomes wrote:
>>
>> Olás, 
>>
>> Depois eu conto um pouco sobre p e t, no momento estou no celular e não 
>> posso escrever muito. 
>>
>> Só como informação a Malliaris (coautora de Shelah no trabalho) vai estar 
>> no Rio ano que vem, como palestrante no Painel de Lógica do Encontro 
>> Mundial de Matemáticos. 
>>
>> Atés 
>>
>> []s Samuel
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