Oi Valeria,

Então, na verdade é mais fácil pensar que ambos os diagramas "se amalgamam" 
nos grandes diagramas com muitos invariantes cardinais que você encontra,
por exemplo, no paper do Blass sobre invariantes cardinais do continuum - 
veja, por exemplo, o diagrama na página 93 de

http://www.math.lsa.umich.edu/~ablass/hbk.pdf

Tem muito mais cardinais que o diagrama de van Douwen. Mas tem poucos 
cardinais do diagrama de Cichon.

Veja os vários diagramas que tem neste survey aqui: infelizmente ele faz 
pequeninhos toda vez...

https://repository.kulib.kyoto-u.ac.jp/dspace/bitstream/2433/40955/1/1202_02.pdf

Já na página 8 do seguinte paper tem um diagrama bem mais completo, com os 
do van Douwen e com os do Cichon

http://www.uncg.edu/~vaughanj/Publications/smallcd.pdf

Então são duas instâncias de algo que se amalgama. São os caminhos que se 
abrem nos modelos onde a Hipótese do Contínuo não vale...

O que a gente gosta do diagrama de Cichon é que nele todos os cardinais 
podem ser escritos como normas de objetos de Dial^Op, um desafio é procurar
encontrar esses padrões em outros cardinais, por exemplo (o que é uma das 
continuações pra fazer do nosso paper no Proceedings EBL). 

Também tem o efeito "a pessoa é para o que nasce": o objetivo do van Douwen 
quando fez o diagrama dele era destacar os cardinais que aparecem muito em 
Topologia,
já o diagrama do Cichon tem mais cara de Análise Real.

Até,

[]s  Samuel





On Tuesday, September 19, 2017 at 12:01:48 PM UTC-3, valeria.depaiva wrote:
>
> mas Samuel, mais interessante pra mim 'e tentar entender o paralelismo 
> entre o diagram de Cichon e o  de Van Douwen.
> o que voce pode me explicar facilmente, sem precisar de textao? obrigada!
>
> 2017-09-19 7:38 GMT-07:00 'Samuel Gomes' via LOGICA-L <
> [email protected] <javascript:>>:
>
>> Olás,
>>
>> Só comentando que o paper de 6 páginas, conforme eu chamei a atenção no 
>> meu Review no ZbMath:
>>
>> https://zbmath.org/?q=an:06321199
>>
>> não tinha mesmo *todos* os detalhes das demonstrações: foi publicado já 
>> deixando claro que os detalhes
>> todos estavam num artigo que, naquela época, ainda estava no Arxiv. Esse 
>> trabalho completo foi posteriormente publicado,
>> tendo ficado com 61 páginas:
>>
>>
>> http://www.ams.org/journals/jams/2016-29-01/S0894-0347-2015-00830-X/S0894-0347-2015-00830-X.pdf
>>
>> Então havia um motivo para tanta concisão no artigo de 6 páginas - os 
>> detalhes todos estavam em outro lugar !
>>
>> Atés,
>>
>> []s  Samuel
>>
>>
>>
>> On Monday, September 18, 2017 at 11:45:30 PM UTC-3, marmo.tony wrote:
>>>
>>> Obrigado pela explicação, vale a pena estudar os detalhes.
>>>
>>> Só quero dizer que gostei do trabalho desses professores porque primeiro 
>>> tem foco num assunto e segundo traz demonstrações elegantes e enxutas. Acho 
>>> essa segunda qualidade a mais importante. (Não se pode viver num mundo em 
>>> que cada simples proposição receba uma demonstração de mais de 400 
>>> páginas!) São contribuições assim claras, concisas e objetivas que 
>>> realmente alargam o conhecimento!
>>>
>>> *Dize à sabedoria: Tu és minha irmã...*
>>>
>>> Provérbios 7:4 <https://www.bibliaonline.com.br/acf/pv/7/4>
>>>
>>> On 17 Sep 2017, at 22:51, 'Samuel Gomes' via LOGICA-L <
>>> [email protected]> wrote:
>>>
>>> ... Vamos começar de situações simples (e óbvias de responder) para 
>>> chegar numa intuição do que seja o cardinal p.
>>>
>>> 1) Existem famílias infinitas de subconjuntos infinitos do conjunto N 
>>> dos naturais que sejam tais que:
>>>
>>> --> qualquer intersecção de uma subfamília finita da família resulta num 
>>> conjunto infinito;
>>>
>>> --> porém a família tem intersecção vazia ?
>>>
>>> ... Isso é fácil de exibir:
>>>
>>> A_1 = {1,2,3,...}
>>>
>>> A_2 = {2,3,4....}
>>>
>>> A_3 = {3,4,5,...}
>>>
>>> ... A_n = {k: k maior ou igual a n}
>>>
>>> A família {A_n: n maior ou igual a 1} satisfaz as duas condições acima.
>>>
>>> Porém, se C é um subconjunto infinito e *qualquer* dos naturais, C 
>>> funciona como uma "pseudo-intersecção" da família,
>>> no sentido de estar "quase contido" em todos os elementos da família; 
>>> essa coisa do quase contido é, exatamente,
>>> dizer que C menos A_n é um conjunto finito (para todo n) - i.e., "alll 
>>> but finitely many" dos elementos de C serão, também, elementos de qualquer
>>> um dos A_n.
>>>
>>> Uma situação um pouco menos abstrata aparece, por exemplo, na reta. 
>>> Qualquer ponto x é ponto de acumulação de racionais (no sentido de que 
>>> qualquer
>>> intervalinho centrado nesse ponto x contém infinitos racionais). Se 
>>> fixamos uma enumeração dos racionais (lembrar que é enumerável), digamos,
>>>
>>> Q = {r_n: n em N}
>>>
>>> e fixamos os intervalos abertos ]x - 1/k, x + 1/k[ para k maior ou igual 
>>> a 1, podemos criar uma família de subconjuntos dos naturais como acima
>>> da seguinte forma:
>>>
>>> A_k = {n em N: r_n pertence a   ]x - 1/k, x + 1/k[   }
>>>
>>> Como a intersecção dos intervalinhos se reduz ao ponto, se o número x 
>>> for irracional teremos que essa família {A_k: k maior ou igual a um} é de 
>>> intersecção vazia
>>> porém com certeza tem pseudo-intersecção infinita: basta pegar qualquer 
>>> sequência de racionais que convirja para o ponto x e, voilá, o conjunto dos 
>>> índices A
>>> dessa sequência é uma pseudo-intersecção infinita da família !!! "All 
>>> but finitely many", todos a menos de no máximo finitos elementos de A, vão 
>>> cair dentro de qualquer A_k que você fixar.
>>>
>>> Então, a pergunta seguinte seria:
>>>
>>> 2) Existem famílias infinitas de subconjuntos infinitos do conjunto N 
>>> dos naturais que sejam tais que:
>>>
>>> --> qualquer intersecção de uma subfamília finita da família resulta num 
>>> conjunto infinito;
>>>
>>> --> porém a família tem NÃO TEM pseudo-intersecção infinita ?
>>>
>>> Uma das primeiras coisas que se pode checar é que, se a família de 
>>> subconjuntos infinitos for ENUMERÁVEL, se constrói facilmente
>>> uma pseudo-intersecção infinita para essa família.
>>>
>>> Supondo que {A_n: n maior ou igual a 0} seja tal que todas as 
>>> intersecções finitas resultem em conjuntos infinitos, fazemos assim:
>>>
>>> a_o = min(A_0)
>>>
>>> a_1 = min( (A_0 intersectado com A_1) - {a_0})
>>>
>>> a_2 = min( (A_0 intersectado com A_1 intersectado com A_2) - {a_0,a_1} )
>>>
>>> ...
>>>
>>> a_k = min( (A_0 intersectado com A_1 intersectado com... intersectado 
>>> com A_k) - {a_0,a_1,...,a_{k-1}} )
>>>
>>> ...
>>>
>>> O conjunto A = {a_k: k maior ou igual a zero} é uma pseudo-intersecção 
>>> infinita da família. (Quem já fez um curso de espaços
>>> métricos e achou parecido com a construção de uma subsequência 
>>> convergente a um ponto de acumulação de uma sequência, é porque é isso
>>> mesmo, sempre podemos encarar, de certa forma, a pseudo-intersecção 
>>> infinita como uma subsequência convergente).
>>>
>>> Bom, enumeráveis não podem ser então... E não-enumeráveis ?
>>>
>>> Com um pouco de Axioma da Escolha, tomamos um ultrafiltro livre sobre os 
>>> naturais e ele tem essas duas propriedades: trata-se
>>> de uma família infinita de subconjuntos infinitos dos naturais que é tal 
>>> que toda subfamília finita tem intersecção infinita e não possui
>>> pseudointersecção infinita.
>>>
>>> (Pra ver que não tem pseudo-intersecção infinita, tome qualquer A 
>>> contido nos naturais que seja infinito: se o complementar de A estiver no 
>>> ultrafiltro,
>>> ele já não é pseudo-intersecção infinita do ultrafiltro porque A menos 
>>> complementar de A vai dar A que é infinito. E, se A estiver no ultrafiltro 
>>> (lembrando que ou A ou o complementar de A com certeza estão), usamos que 
>>> os ultrafiltros são filtros primos: escrevendo A = A_1 unido com A_2, com 
>>> ambos A_1, A_2 infinitos, sabemos que exatamente UM entre A_1 e A_2 vai 
>>> estar no ultrafiltro livre. Se for A_1, A menos A_1 = A_2, que é infinito, 
>>> se for A_2, A menos A_2 = A_1 que é infinito.)
>>>
>>>
>>> ... Ou seja, do exercício mental acima temos que:
>>>
>>> --> Existem famílias de subconjuntos infinitos dos naturais que são tais 
>>> que toda subfamília finita tem intersecção resultando num conjunto 
>>> infinito, porém
>>> não possuem pseudo-intersecção infinita (os ultrafiltros livres são 
>>> exemplos disso);
>>>
>>> --> porém, uma família desse tipo não pode ser enumerável.
>>>
>>> Aí a pergunta que um teorista de conjuntos faz é:
>>>
>>> QUAL É O TAMANHO MÍNIMO DE UMA FAMÍLIA COM ESSAS PROPRIEDADES ?
>>>
>>> Pois é, esse é o cardinal p ("pseudointersection number"). É 
>>> não-enumerável porque pra famílias enumeráveis existe a pseudo-intersecção, 
>>> e limitado superiormente pelo contínuo porque é o tamanho de subfamílias de 
>>> Partes de N (logo, em modelos onde vale a Hipótese do Contínuo, ele vale 
>>> aleph_1 = c, mas em muitos modelos podemos ter o p não enumerável e maior 
>>> do que aleph_1, por exemplo em todos os modelos onde vale o Axioma de 
>>> Martin tem-se aleph_1 < p = c). 
>>>
>>> Brincando com uma construção topológica, podemos mostrar que
>>>
>>> p = menor tamanho das base locais de abertos de um espaço topológico 
>>> qualquer que não seja subsequencial
>>>
>>> (subsequencial = pontos de acumulação de uma sequência são limites de 
>>> uma subsequência)
>>>
>>> Prova: abaixo de p sempre vai existir a pseudo-intersecção infinita, que 
>>> corresponde à subsequência convergente.
>>> Logo, se as bases locais tem tamanho menor do que p, se consegue sempre 
>>> a subsequência convergente.
>>>
>>> Já no p, tome uma família de tamanho mínimo com as tais propriedades 
>>> (intersecções finitas dando infinito, sem pseudo-intersecção 
>>> infinita) e transforme essa família num ponto no infinito com relação 
>>> aos naturais; pra quem conhece os ordinais, imagine que estamos trabalhando
>>> com omega + 1. Considere o espaço Naturais unido com {essa família}, 
>>> declare os pontos naturais como isolados e que as vizinhanças básicas
>>> da família são exatamente os conjuntos da forma {Família} unido A, onde 
>>> A pertence a família. Pronto, esse é um espaço no qual a família
>>> é ponto de acumulação dos naturais mas não tem nenhuma sequência dos 
>>> naturais convergindo pra ela (porque se tivesse, a subsequência
>>> seria pseudo-intersecção infinita, mas no caso aí isso não existe). 
>>>
>>> Já o t é o menor tamanho possível para uma torre. Uma torre é uma 
>>> família que tem as mesmas propriedades que as que definem p
>>> (por isso com certeza já se sabia que p menor ou igual a t), porém a 
>>> torre é bem-ordenada pela quase-inclusão estrita reversa, i.e., a cara
>>> básica de uma torre é {T_alpha: alpha < t} onde
>>>
>>> T_0 quase contém propriamente T_1 quase contém propriamente T_2 ... 
>>> quase contém propriamente T_alpha ....
>>>
>>> (Aí o quase contém propriamente é definido como: X quase contém 
>>> propriamente Y se X menos Y é infinito enquanto que Y menos X é finito).
>>>
>>> Quase todo mundo na área (eu inclusive) esperávamos que algum dia alguém 
>>> mostrasse que a desigualdade estrita "p < t" fosse consistente
>>> (isso é uma coisa que o artigo de divulgação não explica bem: uma prova 
>>> de "p < t" não seria nunca uma prova absoluta, com certeza seria uma
>>> prova de consistência porque, por exemplo, sob a Hipótese do Contínuo 
>>> eles necessariamente são iguais).
>>>
>>> t é uma espécie de versão muito bem comportada de p (por estar bem 
>>> ordenado pela quase inclusão estrita reversa e tal). Então a diferença entre
>>> eles acaba sendo uma diferença de complexidade, digamos. Foi por aí a 
>>> prova de p = t por Shelah/Malliaris: eles estavam investigando qjuestões
>>> sobre comparação de complexidade entre teorias e... Pimba, acabaram 
>>> chegando no p = t. Como disseram no artigo, "eles provaram p = t numa 
>>> situação em que estavam olhando para outra coisa"...
>>>
>>> É um resultado realmente tão divisor de águas que só de ter feito o 
>>> review para o Zentralblatt Math eu fiquei super-emocionado, hehe:
>>>
>>> https://zbmath.org/?q=an:06321199
>>>
>>> ... É isso, atés,  Saludos desde Natal (minicurso sobre ultrafiltros na 
>>> UFRN nesta semana) !!! Escrevi este email com vista ao Morro do Careca...
>>>
>>> []s  Samuel
>>>
>>>
>>>
>>>
>>>
>>> On Sunday, September 17, 2017 at 9:38:39 AM UTC-3, Samuel Gomes wrote:
>>>>
>>>> Olás, 
>>>>
>>>> Depois eu conto um pouco sobre p e t, no momento estou no celular e não 
>>>> posso escrever muito. 
>>>>
>>>> Só como informação a Malliaris (coautora de Shelah no trabalho) vai 
>>>> estar no Rio ano que vem, como palestrante no Painel de Lógica do Encontro 
>>>> Mundial de Matemáticos. 
>>>>
>>>> Atés 
>>>>
>>>> []s Samuel
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