Não assisti ao documentário, Mbraz.

Mas, sem dúvida, o pensamento de Rousseau apresenta uma visão que podemos
denominar "democrata radical", isto é, que vai além da visão do liberalismo,
mas que não ultrapassa o universo burguês de pensamento. Assim, se em sua
concepção se pode perceber uma defesa da "democracia participante" ou uma
busca de "liberdade igualitária", mas que ainda não é autogestão social e
possui bases burguesas, a propriedade privada individual. A liberdade e
igualdade que Rousseau defende é a civil – jurídica-política, ou seja,
mantendo a esfera da propriedade individual, das classes sociais. Assim, o
individualismo abstrato de Rousseau, e sua incapacidade de negar totalmente
a propriedade ou a figura da pequena propriedade, acaba criando uma
auto-limitação em seu pensamento, que não pode ser considerado
autogestionário.

No entanto, o fato de Rousseau não ser autogestionário não deve servir de
pretexto para desconhecer sua contribuição, pois a conjuntura política atual
é muito interessante para pensarmos os limites da democracia representativa.
Com efeito, há quem considere que o direito de voto é em si a comprovação da
democracia, se as pessoas reagissem rousseanamente, acredito que seria bem
diferente.

Rousseau afirmava que o povo inglês se considerava livre por eleger o
parlamento, mas não o era ( "O povo inglês crê ser livre, mas se equivoca
redondamente; só o é durante a eleição dos membros do parlamento; tão logo
são esses eleitos, ele volta a ser escravo, não é mais nada.") Já os Estados
Unidos se apresentam como modelo democrático a ser exportado. O modelo
americano de representação foi copiado pelo Brasil e inúmeros países.

Herdamos a cultura política que concebe o público para uso privado, que
aposta na tutela do Estado ou mesmo aceita seu caráter autoritário, desde
que ele atenda interesses almejados. Nesta lógica, os recursos públicos
mantidos pelo esforço da sociedade viram patrimônio dos que detém o poder de
distribuí-los. Os eleitores, por exemplo, esperam que os políticos atendam
interesses privados, numa relação assistencialista. Os políticos distribuem
benesses e constroem a imagem de amigos do povo. Direitos sociais são
transformados em favores. O que deveria ser obrigação do poder público é
tido como coisa de político bonzinho. Os valores se invertem. A sociedade
gasta milhões para manter o sistema político. Mas os políticos, em geral,
não se vêem como servidores, empregados da nação, mas sim como
privilegiados. Consomem os recursos públicos, distribuem migalhas e ainda se
passam por protetores dos pobres. À relação desvirtuada entre representante
e representado, caracteristicamente assistencialista e tutelar, soma-se o
nepotismo e o empreguismo. O dinheiro e os recursos públicos são
"socializados" entre poucos. Abocanham o patrimônio público de forma
privada. Muitos condenam tais práticas, mas consideram normal comportamentos
semelhantes no nível micro e cotidiano. São pequenos "pecados". A cultura é
a mesma. Na medida em que uso o bem público como se fosse meu, aproprio-me
privadamente. Nesta relação não me responsabilizo pelo que é público, apenas
uso. É a velha história de exigir ética na política, mas não agir eticamente
no dia-a-dia. No fundo, trata-se de uma relação verticalizada com o Estado,
de uma concepção estatista que produziu fenômenos bem conhecidos no século
XX; muitos dos que se auto-proclamavam "comunistas" se apropriaram do
Estado. Público e estatal são diferentes, embora sejam tomados como
semelhantes.

É possível a representação "igual" numa sociedade "desigual"? Os interesses
de todos os grupos presentes na sociedade estarão "igualmente" representados
na assembléia? Os homens são desiguais em relação à propriedade, ao
nascimento e, relacionado a isso, ao que Bourdieu denomina de capital social
e capital cultural. Alguns têm maior capital social e cultural, pelo simples
motivo de possuírem mais capital econômico.

Ainda que desconsideremos tais circunstâncias, será que o povo sabe escolher
seus representantes? Mas, quem é o povo? O "povo" é o conjunto dos
habitantes da nação? Se sim, e considerando-se as grandes extensões
territoriais, como reuni-lo, ou mesmo a seus representantes, a depender da
quantidade? E mesmo num território menor, por exemplo o município, as
condições permitem que o povo influencie diretamente sobre os seus
representantes?

"O mundo da realidade tem seus limites. O mundo da imaginação não tem
fronteiras." - Jean-Jacques Rosseau

Em 21/08/07, mbraz <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:

> assistiu ao documentario The Corporation? As corporacaoes fazem este
> papel ... o status de individuo agindo por paixao, interesse e defesa
> propria.
>
> e fazem do Estado o seu orgao executivo, nao e' mesmo?
>
> o interessante e' que as pessoas reagem a tudo isto bovinamente,
> naturalmente, ou seria ... Rousseaunamente, hehe?
>
> abs
> mbraz
>
>
>
> Em 21/08/07, eiabel lelex<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> >
> >
> > "O Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O
> > indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O
> > Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional."
> >
> > Norberto Bobbio
> >
> > em "A Era dos Direitos"o detalhe é que o Estado Brasileiro é privado,
> > hehehe. isso vem desde Rui Brabosa e sua politica economica do
> encilhamento.
> >
> >
> > Em 21/08/07, mbraz <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> > >
> > > penso que esta lei e' um exemplo, de como a lelex comentou, de que
> muitas
> > leis estao polarizadas por uma classe elitista, ou pelos que nela
> conseguem
> > escriturar suas ambicoes mesquinhas e interesses privados. Eu fico um
> pe'
> > atras ainda com o conceito de classe, pois imagino que existira' tantas
> > classes quantos individuos existirem neste planeta.
> > >
> > > Mas a lei e' uma crenca que todos devem seguir, sob pena de
> sacrificios e
> > punicoes. Mitos greco_romanos ainda nos atormentarao por muito tempo,
> nao
> > e'?
> > >
> > > Mas vamos la' ao que eu destaco de paradoxal nesta lei:
> > >
> > > - foi proposta por um vereador do partido verde, agora "sem partido"
> (!?)
> > >
> > > - privilegia a cultura de uso do automovel, pois nao reconhece o
> > transporte com o uso de animais como valido. Tem a ver com a voracidade
> de
> > tamanho da metropole (dita, moderna), pois em cidades menores a pratica
> > ainda e' comum para quem nao possui automovel e precisa tanto do meio de
> > transporte pessoal, como do meio de producao e sobrevivencia. A
> proporcao
> > tambem entre numeros de automoveis e de animais de transporte e'
> absurda,
> > desigual e injusta. Sem mencionar a fonte geradora de poluicao ...
> > >
> > > - reconhece que animais montados em outros animais para a manutencao
> da
> > 'ordem' sao permitidos. Caso da policia e do exercito e, vejam so' a
> > expressao: em qualquer situacao. Penso que dentre estas, pisotear
> animais
> > humanos.
> > >
> > > - privatiza a 'destinacao' dos animais para : associações civis,
> empresas
> > de iniciativa privada, universidades e outras instituições. Ou em alguns
> > casos, que como sabemos sao muitos, opta pela eutanasia. A lei que visa
> > preservar e' a mesma que preve a extincao (!?)
> > >
> > > - incrementa a receita financeira da prefeitura (que poderia ser usada
> em
> > auxilio ao carroceiro), pois o valores de resgate sao exorbitantes e
> > determinados unilateralmente
> > >
> > > - faz lembrar que fascismo deriva de fasces - machado que metaforiza o
> > poder do Estado e a unidade do povo (!?) - simbolo do poder do chefe e
> dos
> > magistados no imperio romano.
> > >
> > > bs
> > >
> > > mbraz
> > >
> > >
> > >
> > >
> > >
> > >
> > > Em 21/08/07, Mateus Daitx <[EMAIL PROTECTED] > escreveu:
> > > >
> > > > Olha, eu não sou contra o uso de animais em trabalho, mas tudo com
> > limites. Tão mais maltratados são aqueles criados em cativeiro e que
> depois
> > nos servem de alimento, e ninguém fala nada disso. Agora, atrapalhou o
> > trânsito e emporcalhou a via dos ricaços, cria lei que impeça eles de
> > aparecerem. Tem carroceiro que abusa dos cavalos? Tem sim. Mas também
> tem um
> > monte que trata os bichos muito bem, e não é só por eles serem sua forma
> de
> > sustento.
> > > > Quanto ao sustento dos carroceiros, não sei bem como seria, mas
> lembro
> > que no ano passado, quando eu fui pra um congresso em Buenos Aires,
> notei
> > que a movimentação dos catadores era peculiar à cidade: como as
> > vilas/favelas em que eles moram são bem distantes do centro, eles
> começavam
> > a aparecer com seus carrinhos lá pela sexta de noite, dormiam embaixo de
> > marquises até domingo, e ali um caminhão (bem sucatão mesmo) passava ali
> pra
> > recolher as pessoas e o material coletado. Não sei se isso é uma coisa
> da
> > prefeitura ou eles que se juntaram, mas é lá uma alternativa que eles
> > encontraram.
> > > > Sds,
> > > > Mateus
> > > >
> > > >
> > > >
> > > > On 8/17/07, Natália Souza < [EMAIL PROTECTED] > wrote:
> > > > >
> > > > > eita..
> > > > > não sou a favor de explorar os bichos, mesmo pq se alguém que se
> julga
> > melhor que eu me pusesse pra dirigir bicicleta pra ele, sem nem ganhar
> nada,
> > eu ia ficar bem brava.
> > > > > também não sou a favor de o cara perder o sustento dele..(claro
> que
> > ele pode achar outros jeitos de se manter também, mas é complicado, eu
> sei).
> >
> > > > > Mas sou muito menos a favor de uma lei determinar se pode ou
> não..Não
> > sou a favor de nada, hehehe...
> > > > > notícia bizarra essa.
> > > > > abraços
> > > > > natália.
> > > > >
> > > > > Em 16/08/07, Fernando <[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
> > > > >
> > > > > > On 8/16/07, paulo bailux < [EMAIL PROTECTED]> wrote:
> > > > > > > Caramba...fiquei em cima do muro agora, pois os animais além
> de
> > serem
> > > > > > > maltratados...acabam sujando a cidade pra caramba, então por
> outro
> > lado os
> > > > > > > pobres dos catadores perderam um considerável rendimento sem o
> uso
> > dos
> > > > > > > animais...não sei como opinar...rsrsrsrsrs
> > > > > > >
> > > > > >
> > > > > > Eu fico dos dois lados do muro...  Não sou contra a exploração
> da
> > > > > > força animal se isso significar melhora na qualidade de vida pra
> > quem
> > > > > > precisa dessa tração. Por outro lado, com todo avanço economico
> e
> > > > > > tecnológico é muito bizarro que ainda existam pessoas que
> dependam
> > > > > > dessa relação.
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