Rogerio:

São coisas tais como esta que me enlouquecem! Questões deste tipo me fazem
ter a certeza de que estudar Filosofia é muito mais compensador (e de muito
menor truculência!) do que estudar Matemática. De fato, não consigo conceber
que dois filósofos discutam por causa de uma diferença menor do que 4% entre
as respectivas doutrinas que defendem!

Mas nós, não! Nós somos matemáticos! Na verdade, eu sou um enxadrista, que
prefere jogar tênis, mas que ganha a vida como um consultor de Engenharia e
tenta ser um matemático (diletante)...

Repare que as nossas duas soluções são EXATAS, não há aproximações de
espécie alguma! Então, por quais desígnios metamatemáticos, eu encontro  7/6
- 9pi/32 = .2830937331  e você  3pi/32 = .2945243113 ? Uma diferença de
3.9% !

3pi/32 - (7/6 - 9pi/32) = 3pi/8 - 7/6 = .011430578

Bem, vou lhe pedir um favor:

Reescrevi a minha solução na forma mais didática e esmiuçada que me foi
possível - veja abaixo. Explicitei, inclusive, todas as contas.

Tenho a certeza de que você não terá qualquer dificuldade para entender e
verificá-la.

E o favor: tente encontrar um erro ou imprecisão.

De minha parte, vou estudar a sua solução e também tentar achar alguma
imperfeição. Mas observe que a solução que apresentei é bem menos
"complicada" do que a sua. Isto não é uma crítica à sua solução! Quero dizer
apenas que será mais fácil você achar um vício na minha solução, do que eu
achar alguma coisa duvidosa na sua...

Bem, se nada conseguirmos, vamos combinar dizer o seguinte:

1) As engrenagens que permitem o tal movimento da porta têm folgas e, por
isto, este movimento admite uma imprecisão de 5%!
2) Eu considerei a curvatura do espaço-tempo como sendo côncava, e você a
considerou convexa!
3) Quanto ao deslizamento da fatídica porta, as perdas por atrito não foram
corretamente equacionadas!
E por aí vai...

Em último caso, é um bom problema para o Nicolau...

Sds.,
AB


Problema da varredura da sala

Enunciado: 

Considere uma sala quadrada de lado “L”. Em um dos seus lados existe uma
porta do tamanho da própria parede da sala, i.e., “L”. Portanto, uma das
paredes é composta apenas pela porta. Chame este quadrado (esta sala) de
ABCD, e seja o lado AB o lado correspondente a tal porta. Esta porta se abre
de um jeito particular: o ponto “A” da mesma desliza em linha reta pelo
segmento AB, enquanto que o ponto “B” desliza, também em linha reta, pelo
segmento BC. Portanto, quando a porta se abre totalmente, ela varre certa
área de dentro da sala. Qual é o valor desta área?

Solução:

Consideração inicial: todas as distâncias são proporcionais a “L”, enquanto
que todas as áreas são proporcionais a L^2 . Destarte, pode-se assumir para
“L” um valor unitário:  L=1 unidade de comprimento.

Definição do quadrado (i.e., da sala) em coordenadas cartesianas:
D = O = ( 0, 0 )   ;   A = ( 1, 0 )   ;   B = ( 1, 1 )   ;   C = ( 0, 1 )

A extremidade “E” da porta sai de “A” e desliza para “B”, percorrendo o lado
AB (i.e., percorrendo a reta  x=1) ;
A extremidade “F” da porta sai de “B” e desliza para “C”, percorrendo o lado
BC (i.e., percorrendo a reta  y=1) .

Evidentemente,  EF=1  (EF = tamanho da porta).

A área que a porta varre é delimitada pelas retas  x=1  e  y=1  e pela
seguinte curva:

Seja uma reta perpendicular à reta EF e que passe pela origem “O”. Esta reta
intercepta a reta EF no ponto “P” (ângulo OPE=pi/2). O lugar geométrico de
“P”, enquanto a porta vai se abrindo, é a curva que delimita a varredura da
porta.

O problema se resume, então, em achar a equação desta curva...

T = ângulo AOP

Pontos singulares:
Para  T=pi/4 , OP é mín.  =>  OP (T=pi/4) = sqrt(2) - 1/2 = 0.9142 . Caso
OP(mín.) fosse igual a 1 , a curva supracitada seria um círculo...
OP (T=0) = OP (T=pi/2) = 1

É fácil ver que:  ângulo BEF = ângulo AOP = T , porque as retas que formam o
primeiro ângulo são perpendiculares às retas que formam o segundo.

Seja  “a”  a distância percorrida pela extremidade “A” da porta ao longo do
lado AB (i.e., ao longo da reta  x=1).
a = AE   ;   BE = 1 - a   ;   BF = sqrt(2a - a^2)
Triângulo BEF:   cos(T) = 1 - a   ;   sin(T) = sqrt(2a - a^2)

Equação da reta EF:
E = ( 1, a )   ;   F = ( 1 - sqrt(2a - a^2), 1 )   =>   E  = ( 1, 1 - cos(T)
)   ;   F = ( 1 - sin(T), 1 )

(y - y1)/(x - x1) = (y2 - y1)/(x2 - x1)
(y - 1+cos(T))/(x - 1) = cos(T)/(-sin(T))

Logo:  cos(T)x  +  sin(T)y  -  sin(T) + sin(T)cos(T) - cos(T) = 0
Esta é uma equação do tipo   Ax + By + C = 0

A = cos(T)   ;   B = sin(T)   ;   C = -sin(T) + sin(T)cos(T) - cos(T)   =>
A^2 + B^2 = 1

OP é a distância da origem “O” à reta EF.

A distância de um ponto com coordenadas  ( x1, y1 )  a uma reta definida por
uma equação do tipo   Ax + By + C = 0   é dada por:   (Ax1 + By1 +
C)/(+/-sqrt(A^2 + B^2)) ,  sendo que o sinal da raiz quadrada deve ser
escolhido de forma tal que a distância seja, é claro, positiva.

Logo:  OP = -C = sin(T) - sin(T)cos(T) + cos(T)

Obs.:  Neste caso,  sqrt(A^2 + B^2) = -1  ,  para que a distância OP seja
sempre positiva para  0 <= T <= pi/2  , que é o intervalo de interesse do
problema.

E esta é, em coordenadas polares, a tão procurada equação da curva que
delimita a área varrida pela porta!

E, de fato, verifica-se que:   OP (T=pi/4) = sqrt(2) - 1/2   ;   OP (T=0) =
OP (T=pi/2) = 1

Uma área infinitesimal (dS) da área NÃO varrida pela porta, i.e., da área
compreendida pela curva OP, é definida pela área de um triângulo retângulo
infinitesimal, cujos catetos são:  OP  e  OPdT  ( OPdT  é o comprimento de
um arco infinitesimal da curva OP ).

Logo:  dS = (OP^2)/2 dT

Logo:  S = integral [ (OP^2)/2 dT , T=0 ... pi/2 ]   =>   S = 9pi/32 - 1/6 =
0.7169

Finalmente, a área varrida pela porta é o complemento de “S” em relação à
área do quadrado: 

1 - (9pi/32 - 1/6) = 7/6 - 9pi/32 = 0.2831 = 28.31% da área do quadrado,
i.e., 28.31% de L^2 .
 

>-----Mensagem original-----
>De: [EMAIL PROTECTED] 
>[mailto:[EMAIL PROTECTED] Em nome de Rogerio Ponce
>Enviada em: quinta-feira, 18 de setembro de 2008 17:33
>Para: [email protected]
>Assunto: Re: [obm-l] RES: [obm-l] Varredura da sala - Solução 
>definitiva
>
>Faltou "escalar" de volta o comprimento da porta...
>Como na verdade a porta tem comprimento "L", a solucao real vale
>
>AREA VARRIDA = 3*Pi/32 * L**2
>
>[]'s
>Rogerio Ponce
>
>2008/9/18 Rogerio Ponce <[EMAIL PROTECTED]>:
>> Olá Bouskela e colegas da lista,
>> eu esperava uma solucao um pouco mais "geometrica" que "analitica", 
>> mas como ninguem se manifestou, vamos la'...
>>
>> Vamos imaginar que a porta, com comprimento 1, "deslize" sobre os 
>> eixos X e Y, de modo que ela comeca na posicao vertical 
>(alinhada com 
>> Y), ate' atingir a posicao horizontal, alinhada com o eixo X. Assim, 
>> uma das suas extremidades "PY", apoiada em Y, comeca em y=1 
>e desliza 
>> ate' y=0, enquanto a outra extremidade "PX", apoiada em X, comeca em 
>> x=0 e desliza ate' x=1.
>>
>> Suponhamos entao que, num determinado momento, PY esteja no ponto 
>> A=(0,y), e que PX esteja no ponto B=(x,0).
>> Um instante depois, ela estara' com PY no ponto C=(0,y+dy) 
>enquanto PX 
>> estara' em D=(x+dx,0) Chamemos de P a intersecao entre os dois 
>> segmentos, e seja "h" a sua coordenada em Y (altura do 
>triangulo PBD).
>>
>> Assim, a area total sera' o somatorio das areas formadas pelos 
>> sucessivos triangulos PBD, 'a medida em que x varia de 0 ate' 1.
>>
>> Este me parece justamente o ponto interessante dessa abordagem, pois 
>> se afasta da associacao quase automatica que fazemos entre "area 
>> total" e "fatias verticais" sob uma curva. Aqui neste caso, 
>as nossas 
>> "fatias" sao triangulos, com base "dx" e altura "h".
>>
>> Partindo para as contas...
>>
>> A qualquer instante, as coordenadas variaveis de P_X e P_Y obedecem a
>>  x**2 + y**2 = 1
>> Diferenciando-se, obtemos
>>  -dy / dx = x / y
>>
>> Aplicando lei dos senos aos triangulos APC e PBD, obtemos:
>> CP / sinA = -dy / sinP
>> PD / sinB =  dx / sinP
>>
>> Dividindo-se uma equacao pela outra, e observando que 
>sinB/sinC = y/x, vem:
>> CP/PD * y/x = -dy/dx = x/y
>> ou seja,
>> CP/PD = x**2 / y**2
>> Assim,
>> (CP + PD) / PD = (x**2 + y**2) / y**2
>> ou
>> PD = y**2
>>
>> Mas , por semelhanca de triangulos, h/PD = y/1 Assim, h = y**3 = 
>> (1-x**2) ** (3/2)
>>
>> Dessa forma, a area total equivale 'a integral de (h*dx/2) 
>em x=[0,1], 
>> ou seja, integral de [ 1/2 * (1-x**2) ** (3/2) ] * dx , em x=[0,1].
>>
>> Resolvendo-se a integral, obtemos
>> AREA VARRIDA =  3*Pi / 32 = 0.294524
>>
>> []'s
>> Rogerio Ponce


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Instruções para entrar na lista, sair da lista e usar a lista em
http://www.mat.puc-rio.br/~obmlistas/obm-l.html
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