Olá Desidério,

















Parece-me que tem uma perspectiva muito redutora da filosofia. Pior:
historicamente falsa e enganadora. A maior parte das obras dos filósofos nada
têm a ver com a salvação, seja qual for o sentido rebuscado que se dê a este
termo. A ética nem sempre tem a ver com a salvação. A procura da vida boa não é
necessariamente uma procura de salvação e a muitos filósofos não escreveram
sobre a ética. 

Estou usando o termo salvação justamente nesse sentido de vida boa ou vida 
autêntica ou sentido para a vida (estou usando um sentido amplo e vago). A 
religião tem uma solução para os porblemas relacionados a finitude humana e 
nossa consciência disso, nosso medo. Em todas as religiões há uma solução para 
o problema da morte e o meio de se chegar a salvação é pela fé. Na filosofia há 
também uma busca de solução para o mesmo problema, mas não pela fé e sim pela 
razão. A filosofia está historicamente relacionada com essa questão, isso eu 
defendo.Mas não se trata de colocar o problema: qual o sentido da vida? E 
procurar respondê-lo diretamente, há muita coisa a se fazer antes disso. 
Conselhos de vida e máximas soltas é coisa de auto-ajuda. Os direcionamentos 
dos filósofos estão alicerçados em suas teorias sobre a realidade, em suas 
idéias sobre o homem, sobre o que pensam poder conhecer com segurança. São 
coerentes com sua visão de mundo. Emanam dessa visão.
A tua hipótese histórica parece-me insustentável por ser
arbitrária. Com igual arbitrariedade eu posso ler toda a história da filosofia 
dizendo
que, de algum modo, os problemas da metafísica da modalidade, que por acaso é a
área em que eu trabalho, estão sempre presentes nas preocupações dos filósofos,
mesmo daqueles que nunca escreveram uma linha explicitamente sobre tal coisa. 
Já te citei algumas indicações, considero que elas ao menos deviam nos fazer 
pensar sobre o assunto. Sua rejeição é que me parece arbitrária já que você não 
dá nenhuma interpretação alternativa para meus exemplos. Montaigne diz: 
filosofar é aprender a morrer. Sócrates diz que a filosofia nos ensina a 
morrer. Kant diz que umas das questões centrais é: o que podemos esperar? (ou 
ainda O que devo fazer?) Espinosa diz: o sábio morre menos que o tolo. Como 
você interpreta isso? Esses autores não me parecem ser do tipo que escrevem 
coisas de passagem, não importantes, que poderiam ser ignoradas em uma 
interpretação, ainda mais quando definem a coisa à qual dedicaram suas 
vidas.Será possível reinterpretar toda a história da filosofia dessa
perspectiva? Sim. É possível também interpretar toda a história da filosofia 
como
uma tentativa de oprimir os pobres. É possível interpretar as coisas como
quisermos. A possibilidade não basta. É preciso a plausibilidade e é preciso
procurar activamente contra-exemplos, caso contrário cometemos a falácia da
supressão de provas. Se ignorares todos os textos de todos os filósofos que não
tratam da questão da salvação e deres proeminência aos outros, claro que parece
que provas algo, mas isso é só porque suprimiste provas.Não tenho interesse o 
bastante nessa idéia para me lançar a essa pesquisa exaustiva. Vejo essa idéia 
presente em grandes filósofos e correntes de pensamento na história da 
filosofia, isso me basta: Epicurismo, Cinismo, Estoicismo, Pirronismo, 
Humanismo e Existencialismo mostram bem essa idéia. 
Se a questão da
salvação fosse assim tão central na filosofia, por que razão não escreveriam os
filósofos sobre tal coisa mais vezes e mais explicitamente? 

Porque não é a única tarefa da filosofia, porque há todo um trabalho a ser 
feito antes, porque ela coroa os sistemas ou as filosofias e porque alguns não 
a consideram uma tarefa da filosofia ou não acreditavam haver meios rigorosos o 
bastante para falar disso. Wittgenstein não escreveu nada sobre o assunto e 
essa idéia está presente de modo forte em seu pensamento. 


Além de historicamente insustentável, a tua posição é filosoficamente
implausível. Não há qualquer razão para pensar que o problema da salvação é um
problema filosófico, para começar. É um problema psicológico e pessoal. Mas 
mesmo
formulando o problema de uma maneira qualquer de modo a dar-lhe interesse
filosófico, por que razão havemos de pensar que é um problema central da 
filosofia?
Mesmo que psicologicamente muitas pessoas se preocupem muito com isso, daí não 
se
segue que o problema tenha centralidade filosófica. Todos os filósofos se
preocuparam com ter comida para comer, mas nem por isso a comida tem 
centralidade
filosófica.  

Seu julgamento é apressado. Parece agir mais ideologicamente do que comentar 
meu texto. Não estou certo de que tenha entendido o que estou a dizer. Não 
estou dizendo que a filosofia é religião, não estou dizendo que se trata de 
salvar nossa alma ou espírito pra uma vida futura e nem nada assim. As idéias 
filosóficas sobre a salvação não são únicas também, para um pirrônico o 
ceticismo é que levaria a uma suspensão do juízo e essa suspensão do juízo a 
ataraxia, a impertubabilidade da alma. Epicuro diz que é o desapego e seus 
remédios contra os medos e etc. Você disse que minha visão é redutora, hora 
nenhuma eu quis reduzir a filosofia a isso. Eu é que te acusei de reducionismo 
porque você parece ignorar essas correntes (estou achando que você é um 
analítico militante ou coisa assim).

Isso entre outras coisas como, por exemplo, o fato de muitas pessoas terem essa 
idéia sobre a filosofia (esse pré-conceito surgiu de algum  modo, não caiu de 
para-quedas na história) me faz crer que a filosofia está sim vinculada a busca 
de uma salvação, a responder a algo como: estou aí jogado no mundo, que vou 
fazer da minha vida? Sem jamais reduzi-la a isso.






Um abraçoRodrigo


 





From: Rodrigo Oliveira
[mailto:[EMAIL PROTECTED] 

Sent: sexta-feira, 19 de Setembro de 2008 18:09

To: Desidério Murcho

Subject: RE: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia"
acadêmica ocidental





 



Caro Desidério,



"O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários
exemplos favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não trata
do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros inteiros
sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade do
conhecimento, a natureza das propriedades."



Sua observação é pertinente. Sem dúvida é um dos pontos que devem ser melhor
desenvolvidos. Estou tentando esclarecer melhor um ponto de vista sobre a
filosofia, amplamente difundido, que muitos filósofos contestam ou odeiam. Eu
mesmo odeio muito do que se escreve nesse sentido. Mas defendo sim que esse
projeto de salvação está presente senão como tema central ao menos como pano de
fundo no trajeto da história da filosofia.



Entrei na discussão porque mesmo sendo contra as teses apresentadas pelo
Arthur, ao apresentarem o que ele acredita, muitos, inclusive você, resumiram o
pensamento dele a uma caricatura simples e ingênua, alias coisa que muitos ao
comentarem alguém ou um filósofo ou um sistema fazem. Tal como apresentaram o
pensamento dele nem mesmo uma pessoa ingênua acreditaria. Um conselho
popperiano: melhorar as teses e os argumentos adversários para só então
criticá-los. No fundo quis apenas moderar.



A palavra salvação pode causar revolta mesmo. O que quero dizer com salvação é
o lado de construção pessoal que a filosofia sempre teve associado ao seu nome.
Abordado sobretudo na parte da ética. Filosofia não é religião, concordo. Mas
ela surgiu tomando como objeto para reflexão temas pertencentes a religião.
Tudo bem que podemos ser objetivos e entender a ética como uma reflexão sobre
os conceitos éticos e trabalhar problemas como a universalização da moral e a
justificação de enunciados éticos ou ainda a possibilidade dos mesmos. Mas
Desidério, você recomendaria o que acabei de dizer como uma chave de leitura
para um estudante de filosofia? Diria para ele ler a ética de Platão assim? Ler
os estóicos assim? Sem dúvida essas questões estão presentes e podemos analisar
esses filósofos assim, mas ao menos na filosofia antiga é inegável que não se
tratava apenas de uma discussão conceitual. Não era esse o interesse principal
desses filósofos. Seria analisá-los de uma perspectiva puramente analítica e
creio que perder o cerne de suas filosofias morais. Contemporaneamente isso é
possível em muitos casos.



Que mostrei exemplos favoráveis a tese que apresentei, não a que defendo, sem
dúvida eu o fiz. Não vejo outro modo de argumentar a favor dessa idéia de forma
sucinta. Um modo mais adequado talvez fosse desenvolver a idéia central de que
a filosofia surge da constatação da finitude do homem e de sua consciência
disso e então olhar para a história da filosofia nessa perspectiva. Sem dúvida
significa entortá-la. Assim como a visão analítica também a entorta. Mas acho
que agindo analiticamente e tendo como pano de fundo essa questão da salvação,
esse lado existencial, temos uma chave de leitura melhor, mais abrangente. A
história da filosofia pura obviamente não temos acesso.



"Hume nunca escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem
pequenas passagens apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais
sobre a natureza da representação e da realidade do que sobre o sentido da
vida." 



Tómas de Aquino defende o cristianismo como a salvação do mesmo modo que
indiretamente Descartes e Kant. Onde culminam as teses de Schopenhauer? Numa
ética do santo. Eu consigo extrair de Hume muitas diretrizes do que seria uma
vida boa.
Em Schopenhauer essa idéia é bem presente, em Hume e Kant menos, mas ainda a
vejo presente.



Os livros de filosofia dedicam mais capítulos a outras questões do que ao
sentido da vida. Verdade. Mas após desenvolverem suas ontologias e
epistemologias para onde se dirigem os filósofos? Ética. Ao ler os filósofos
tenho sempre a impressão de que a ética coroa seus sistemas.

Note que quem assume essa questão da salvação ou de uma construção interior não
precisa excluir as outras áreas da filosofia, nem considerá-las menos
importantes.



A salvação está presente de um modo muito forte em Wittgenstein. Ler sua obra
apenas de uma perspectiva analítica seria eliminar o que o motivava a fazer
filosofia. Nesse sentido não acha que a questão de um projeto de construção
pessoal ou de formação acompanha a filosofia? Sem resumi-la a isso.



Gostaria muito de ouvir seus comentários. É um prazer pra mim dialogar com
você.



Abraço



Rodrigo













From: [EMAIL PROTECTED]

To: [email protected]

Date: Fri, 19 Sep 2008 11:14:04 -0300

Subject: Re: [Logica-l] RES: falhas graves da "filosofia" acadêmica
ocidental



Caro Rodrigo

 

Há certas afirmações factualmente falsas que são de evitar. Eis
algumas:

 

“Grosso
modo a questão central da filosofia é: qual o sentido da vida? Ou ainda: Como
atingir a vida feliz? Não se trata de aderir a um credo e pronto, trata-se de
alcançar a vida boa, exige esforço e empenho e a razão é o principal
instrumento. Esse projeto perpassa a história da filosofia. Sócrates mesmo vai
dizer que a filosofia nos prepara para a morte. A filosofia de Epicuro e dos
estóicos retratam bem isso. Montaigne diz "filosofar é aprender a
morrer". Uma das perguntas centrais da filosofia para Kant é "O que
nos é permitido esperar?"”

 

O que estás a fazer é supressão de provas. Apontas vários
exemplos favoráveis à tua generalização, mas escondes tudo o que refuta a
generalização. A maior parte das obras da maior parte dos filósofos não trata
do problema do sentido da vida. Há muitíssimos mais capítulos e livros inteiros
sobre outras temas, como a natureza da verdade ou a possibilidade do
conhecimento, a natureza das propriedades. 

 

Por que razão chamo a atenção para isto? Porque nenhuma
discussão séria sobre estes temas pode ter lugar se partirmos logo de
falsidades históricas. Podemos e devemos ter opiniões divergentes sobre se o
sentido da vida devia ou não ser a questão central da filosofia, grosso modo.
Mas não devemos basear as nossas divergências em puras falsidades históricas.
Hume nunca escreveu sobre o sentido da vida, Tomás de Aquino tem pequenas
passagens apenas em que fala disso, Schopenhauer escreveu muito mais sobre a 
natureza
da representação e da realidade do que sobre o sentido da vida. 



Na verdade, a grande ironia quanto a pessoas como o Arthur, que
dizem ter muito interesse em temas como o sentido da vida, é o puro
desconhecimento da bibliografia recente sobre o tema. Isto acontece porque essa
bibliografia não dá ao Arthur o tipo de música das palavras que ele busca, uma
música que lhe dê conforto espiritual. Tudo o que se encontra nessa
bibliografia (Wiggins, Nozick, Nagel, Levy, Baier, Metz, Taylor e tantos outros,
incluindo eu próprio) é a discussão de ideias, e não paliativos infantis para
as dores de alma. A filosofia não é religião e por isso não tem qualquer tipo
de interesse para quem procura conforto espiritual.

 

Espero ter desestabilizado mais uma vez os amigos e colegas da
lista. É o meu jeito idiota de ser. Mas não gosto de opiniões baseadas em
desconhecimento das coisas, nem de hipocrisia: pessoas que querem realmente uma
coisa mas são incapazes de declarar abertamente o que realmente querem. Eu não
vejo problema algum em querer conforto espiritual, querer uma coisa qualquer
mística, para-religiosa, etc. Mas chamar-lhe filosofia é uma falsidade
histórica, pura e simplesmente. 

 

Abraços,

Desidério 



 







Instale
a Barra de Ferramentas com Desktop Search e ganhe EMOTICONS para o Messenger! É 
GRÁTIS!







_________________________________________________________________
Confira vídeos com notícias do NY Times, gols direto do Lance, videocassetadas 
e muito mais no MSN Video!
http://video.msn.com/?mkt=pt-br
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a