Caro Manuel.

Discordo de você em alguns pontos, mas concordo em um: no embuste que 
cerca o fenômeno da religião.
O primeiro ponto de discordância, "a ciência" não pode nos dizer 
(cientificamente/empiricamente) muita coisa acerca do que há (se 
considerarmos que sua natureza é hipotética). Contudo admito que cada 
uma desenvolve uma ontologia própria. Essa é a parte metafísica daquilo 
que costumamos chamar de "ciência". Segundo, não vejo porque deveria 
concordar com a distinção acerca da mentalidade autônoma, mesmo porque 
faz perfeito sentido considerar seres humanos nessa categoria e isso 
nunca impediu a alguns de considerar que os humanos (e sua mente) não 
são realmente autônomos (determinismo radical). Terceiro, embora 
possamos desmascarar o embuste religioso de modo empírico (e isso de 
fato tem sido o caso constante), não vejo proque "a ciência" poderia nos 
informar sobre a melhor ontologia do mundo, a não ser que você esteja 
chamando a filosofia/metafísica de ciência (o que já foi o caso no 
passado, mas dificilmente o é hoje em dia).
Finalmente, pena que eu não fiz parte do experimento da Templeton, podia 
ter ganhado alguns cobres e feito uma previsão quase cientifica: a de 
que não faria diferença nenhuma rezar ou deixar de rezar.  Mesmo assim, 
acreditar na possibilidade de achar causas e explicações para os 
fenômenos depende de assumir uma tese que é na melhor das hipótese de 
natureza metodológica. Ela é do tipo: se eu procurar vou encontrar. Mas 
que o quem nos garante isso?

WS


Manuel Doria escreveu:
> Para prosseguir a discussão de forma "non-question begging", é 
> necessário definir alguns termos, como no que consiste uma "causa 
> natural".
>
> Na acepção de "Natureza" que favoreço - modificada da definição do 
> historiador Richard Carrier - agência, intencionalidade, processos 
> teleológicos, consciência, cognição e qualquer outro aspecto da 
> mentalidade é ontologicamente dependente de propriedades não-mentais. 
> Entes e processos sobrenaturais seriam aqueles que exibissem 
> mentalidade de forma genuinamente autônoma, constitutiva do mobiliário 
> ontológico fundamental do mundo. Dentre os exemplos populares que 
> satisfariam esses critérios, há deuses, fantasmas, talismãs mágicos, 
> feitiços, etc.
>
> Não existe em princípio o menor impedimento em se testar empiricamente 
> hipóteses de fenômenos sobrenaturais. Se a melhor ontologia do mundo 
> for sobrenatural, a Ciência irá nos informar disso. Naturalismo 
> metodológico, a tese de que apenas fenômenos naturais estão no escopo 
> de investigações científicas, é falso.
>
> Se vocês tiverem a oportunidade de conferir edições antigas da 
> Scientific American da segunda metade do Século XIX, poderão estranhar 
> a quantidade de matérias sobre casas mal-assombradas, poltergeists e 
> séances espíritas. Eram alegações sobrenaturais levadas a sério pelo 
> mainstream científico anglo-americano da época (e assim o foram até a 
> década de 1920).
>
> Como exemplo de um teste crucial contemporâneo de uma hipótese 
> sobrenatural, a John Templeton Foundation gastou US$ 2,5 milhões de 
> dólares durante anos para investigar se existia algum link causal 
> entre prece intercessória anônima e recuperação de doenças 
> cardiovasculares. Nenhum efeito estatístico significativo foi 
> observado (na verdade, o grupo de controle que não recebeu prece 
> intercessória se deu um pouquinho melhor).
>
> Religiões rotineiramente realizam alegações sobrenaturais sobre a 
> história, o mundo e a psicologia humana que estão perfeitamente dentro 
> do escopo do escrutínio científico e que são sistematicamente falsas. 
> Não há "magistérios não-interferentes" ( 
> http://en.wikipedia.org/wiki/Non-Overlapping_Magisteria ), este 
> conceito é uma ficção socialmente conveniente e politicamente correta.
>
> [ ]'s
>
> 2009/7/27 Francisco Antonio Doria <[email protected] 
> <mailto:[email protected]>>
>
>     Outra coisa: Carnap tinha horror a uma frase de Heidegger: das
>     Nichts nichtet. Que é um pouco feito aquele verso de Gertrude
>     Stein (aliás, para Alice B. Toklas), A rose is a rose is a rose.
>
>     Sem sentido, cheios de significados...
>
>     2009/7/27 Wagner de Campos Sanz <[email protected]
>     <mailto:[email protected]>>
>
>         Caros Frank e Dória,
>
>
>         Um pouco atrasado, volto a discussão sobre Deus e os milagres.
>         Mesmo sendo ateu, acho que o Frank defendeu de modo
>         equilibrado sua
>         posição.
>         Parece-me haver um problema básico nos argumentos do Dória.
>         Ele disse
>         acreditar que tudo que ocorre ocorre por causas naturais ou
>         que admite
>         explicações naturais, mais precisamente: "tudo que acontece
>         dentro do
>         mundo é natural, ordinário". Porém, obviamente, essa não é uma
>         asserção
>         verificável; na melhor das hipóteses é uma tese metodológica.
>         Mas, nesse
>         caso, o problema resta no pé em que está.
>         Se não for metodológica, deveria ser metafísica e retornamos
>         ao problema
>         do seu fundamento. Deus seria o fundamento último para a tese?
>
>         PS: Em alguns outros mails já havia me deparado com outro
>         problema. Eu
>         particularmente não vejo significado algum dizer que Deus
>         existe e Deus
>         não existe. Se serviu pra fazer silenciar ao Carneiro Leão,
>         então deve
>         ter algum significado (da importância nem falo, pois isso
>         deduz-se pelo
>         efeito!). Qual seria?
>
>         WS
>
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