Sim. É como você disse numa mensagem anterior: os conjuntos são colocados
depois na teoria de conjuntos, ou seja, buscam-se os significados.

Em 28 de janeiro de 2013 03:35, Décio Krause <[email protected]>escreveu:

> Tony
> Nada do que disse vai contra o que foi aqui discutido. Yuri Manin, que tem
> um dos melhores livros de lógica, disse que durante o século XX aprendemos
> muito com os formalismos, mas agora seria hora de buscar significados
> novamente, que é o que importa. Repeti de memória, mas dá para achar onde
> está a frase certa.
> Abraço
> D
>
> *
> *
> *
> *
> *------------------------------------------------------*
> *Décio Krause*
> *Departamento de Filosofia*
> *Universidade Federal de Santa Catarina*
> *88040-900 Florianópolis - SC - Brasil*
> *http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause*
> *------------------------------------------------------*
>
> Em 28/01/2013, às 02:16, Tony Marmo <[email protected]> escreveu:
>
> Caro Professor,
>
> A mim a primeira leitura e estudo da teoria de conjuntos axiomática pela
> visão dos matemáticos é que se trata muito mais de uma teoria metafísica
> que também pode tratar de questões matemáticas. Eu estava muito mais
> acostumado com a visão da filosofia analítica até então.
>
> Não tenho problemas com essa interpretação, mas os matemáticos não gostam
> que se lhes diga que do modo que estão lidando com fundamentos metafísicos.
> Aliás, não raramente encontro gente que recusa qualquer interpretação para
> os conceitos matemáticos, repetindo: "não, não é isso", mas eles fazem uma
> certa metafísica ainda que não queiram admitir isso.
>
> Aqui cabe duas colocações acerca de linguagem que a maioria dos
> matemáticos desconhecem e explico porque é balda a tentativa de recusar
> interpretações ou querer supercontrolá-las:
>
> [1] Primeiramente, linguagens formais diferem de línguas naturais
> (conceito da linguística gerativa e outras) num aspecto crucial: fórmulas
> não têm intenção comunicativa, expressões de línguas naturais sim. Eu já
> ouvi gente falar na "intenção por detrás da fórmula", mas isso é de certo
> modo um unicórnio: simplesmente não está lá, salvo pela nossa imaginação.
>
> [2] Quanto mais abstrato for o significado de uma expressão, maior a
> possibilidade e diversidade de interpretações que essa expressão recebe. É
> como aquele quadro abstrato em que cada um enxerga o que quiser, conforme
> sente ou percebe as formas.
>
> Ou seja, se você tiver alguma intenção a comunicar, ela não estará nas
> suas fórmulas: você terá de as escrever em parágrafos em Português, Francês
> ou outra língua natural. Pensou que colocou na fórmula, você a perdeu.
>
> Mas, se você quiser, ao contrário disso, fazer um trabalho com noções
> altamente abstratas, quanto mais abstrato for o seu pensamento, mais os
> seus leitores estarão livres para o entender como quiserem ou sentirem. Não
> adianta dizer-lhes depois: não é nada disso, porque você mesmo já abriu
> espaço para tudo isso quando escolheu níveis muito altos de abstração.
>
> Agora, nada disso é grande novidade, por exemplo, para engenheiros: eles
> sempre arrumam interpretações concretas para os conceitos matemáticos, para
> eles a matemática significa o que as suas aplicações em engenharia permitem
> produzir. E eles não estão errados: do prisma deles, esse modo de
> interpretar as coisas é que racional. Afinal de contas, a razão não busca o
> saber inútil.
>
> Em 27 de janeiro de 2013 09:16, Décio Krause <[email protected]>escreveu:
>
>> Caros
>> Lembrem que podemos desenvolver ZF sem usar a palavra "conjunto", como um
>> teoria formal. Na verdade, os "conjuntos" não estão lá, nós é que os
>> colocamos depois...
>>
>> Alguém aí quis me dar uma aula...agradeço, mas continuo com a mesma
>> opinião.
>>
>> Julio, seu link cai no MDPI. Baixei o app, mas como acesso seu artigo?
>> Cada vez que clico no link ele cai na mesma coisa, pedindo para baixar o
>> app de novo...
>> D
>>
>> *
>> *
>> *
>> *
>> *------------------------------------------------------*
>> *Décio Krause*
>> *Departamento de Filosofia*
>> *Universidade Federal de Santa Catarina*
>> *88040-900 Florianópolis - SC - Brasil*
>> *http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause*
>> *------------------------------------------------------*
>>
>> Em 27/01/2013, às 08:56, Julio Stern <[email protected]> escreveu:
>>
>> Caros Redistas:
>>
>> Varios dos pontos em discussao referem-se aa construcao de
>> uma Ontologia Mateematica adequada aos nossos propositos.
>> Discuto varios destes ponto na
>> Secco 3,  Mathematical Ontology,  do artigo:
>>
>> Constructive Verification, Empirical Induction,
>> and Falibilist Deduction: A Threefold Contrast.
>>
>> disponivel no link
>>
>> http://www.mdpi.com/2078-2489/2/4/635
>>
>>
>> Varios pontos a discutir:
>>
>> 1) A nocao de Objeto Concreto
>> presupoe uma epistemologia fortemente realista
>> ou um processo ingenuo de reificacao, isto eh,
>> ou os tais Objetos Concretos nos sao dados a priori
>> nO Mundo Real, ou eu ingenuamente acho que sei muito bem
>> quais sao os ditos cujos Objetos Concretos.
>>
>> 2) O Sentido Cotidiano de conjunto pode ate nao ser o
>> mesmo que (um dado) Sentido Matemático, mas isto nao quer
>> dizer que seja possivel fazer (uma) matematica (util) que
>> nao reflita os conceitos de alguma ontologia cientifica.
>>
>> Imre Lakatos discute o assunto en detalhe em um livrinho
>> de leitura deliciosa: Proofs and Refutations: The Logic of
>> Mathematical Discovery (que eu aho que foi traduzido no Brasil).
>>
>> Na verdade, Lakatos esta apenas buscando respostas a uma
>> pergunta fundamental formulada por seu professor, Arpad Szabo:
>>
>> Como (diabos) foi que Matematica se tornou uma ciencia dedutiva?!
>>
>> Abraco a todos,
>> ---Julio Stern
>>
>>
>>
>> ----------------------------------------
>>
>> Date: Sun, 27 Jan 2013 01:15:48 -0200
>>
>> From: [email protected]
>>
>> To: [email protected]; [email protected]
>>
>> Subject: Re: [Logica-l] a resposta do Zerrmelo Fraenkel
>>
>>
>> Muito obrigado, Rodrigo. Permita-me citá-lo, na sua reflexão genial que
>>
>> chega ao ponto que eu queria:
>>
>>
>> "Com relação aos "conjuntos de objetos concretos", acredito que o
>>
>> entendimento standard na filosofia analítica é que conjuntos podem conter
>>
>> objetos concretos. Talvez o exemplo mais marcante seja o das proposições
>>
>> russellianas: para Russell objetos concretos e propriedades sobre esses
>>
>> objetos são constituintes de proposições. Outro exemplo: para David Lewis,
>>
>> mundos possíveis são objetos concretos. Conjuntos de mundos possíveis
>>
>> seriam então, segundo David Lewis, outro exemplo de conjunto de objetos
>>
>> concretos. (Uma concepção standard de proposições na filosofia analítica,
>>
>> diferente da teoria de Russel, é a que diz que proposições são conjuntos
>> de
>>
>> mundos possíveis.) Ainda outro exemplo: Godel no artigo What is Cantor's
>>
>> continuum problem? Logo na primeira página, sobre a definição de número
>>
>> cardinal: "...we certainly want it to have the property that the number of
>>
>> objects belonging to some class does not change if, leaving the objects
>> the
>>
>> same, one changes in any way their properties or mutual relations (e.g.,
>>
>> their colors or their distribution in space)." Claro que apenas objetos
>>
>> concretos podem ter cor ou distribuição espacial."
>>
>>
>> Isto vai ao ponto que disse eu em mais de uma mensagem: [1] a construção
>> da
>>
>> matemática admite mais de uma interpretação e [2] lógica e matemática não
>>
>> são a mesma coisa, ainda que tenham muito a ver uma com a outra. Talvez
>> nem
>>
>> toda interpretação da construção da matemática coincida com a
>> interpretação
>>
>> de um matemático, ou nem toda tenha interesse como diz o João Marcos. Mas,
>>
>> as várias interpretações estão aí. E certamente os lógicos não enxergam as
>>
>> noções matemáticas exatamente como os matemáticos, não só porque as
>>
>> interpretam de modo diferente, mas porque têm interesses diferentes. E
>> você
>>
>> primorosamente traz à tona a observação de que a filosofia analítica tem
>>
>> uma visão diferente do que sejam conjuntos, que é a visão que interessa
>>
>> mais aos lógicos. Ora, quando eu digo que a lógica tem e pressupõe um
>>
>> ambiente cultural-filosófico próprio, que remonta a uma tradição pelo
>> menos
>>
>> desde Aristóteles, a filosofia analítica faz parte justamente disso.
>>
>>
>> Fico uma vez mais agradecido pelas suas contribuições e considero-me mais
>>
>> que contemplado pela última.
>>
>>
>> Em 26 de janeiro de 2013 23:39, Rodrigo Freire <[email protected]
>> >escreveu:
>>
>>
>> O João Marcos está correto aqui:
>>
>>
>> O "sentido cotidiano" de *conjunto* não é o "sentido matemático", e o
>>
>> primeiro tem tanta relevância para o segundo quanto o sentido
>>
>> cotidiano de *continuidade* tem relevância para o sentido matemático
>>
>> da mesma noção. Não saber separar os dois é ser incapaz de fazer
>>
>> qualquer tipo de Análise Matemática minimamente interessante.
>>
>>
>>
>>
>> Conjuntos (permitindo objetos concretos na relação ancestral de
>>
>> pertencimento ou não) são objetos organizados em uma hierarquia de um modo
>>
>> específico que *não* é compatível com o uso na linguagem corrente da
>>
>> expressão "coleção". Conjuntos não são coleções. Vou reproduzir aqui dois
>>
>> argumentos que acredito são suficientes para ver isso:
>>
>>
>> A1- Considere a coleção de bibliotecas da universidade federal fictícia do
>>
>> mato grosso do norte (UFFMGN). Uma biblioteca é uma coleção de livros, uma
>>
>> coleção de bibliotecas é uma coleção de coleções de livros. Suponha que o
>>
>> professor de lógica da UFFMGN pergunta para o bibliotecário da mesma
>>
>> universidade se a coleção de bibliotecas contém o livro de lógica de
>>
>> Hilbert-Ackermann. É coerente com o uso cotidiano da palavra coleção ouvir
>>
>> a seguinte resposta: "Sim, as duas edições do Hilbert-Ackermann estão na
>>
>> coleção de bibliotecas da UFFMGN."
>>
>> O problema é que o Hilbert-Ackermann "está na coleção", segundo o uso
>>
>> cotidiano de coleção, mas não pertence à coleção porque o
>> Hilbert-Ackermann
>>
>> não é uma biblioteca.
>>
>> O argumento não tem nada a ver com bibliotecas e pode trivialmente ser
>>
>> reformulado em termos de outras coleções de coleções. O uso cotidiano de
>>
>> "coleção" não respeita a organização hierárquica dos conjuntos.
>>
>>
>>
>> A2- Se conjuntos são coleções no sentido cotidiano, então o conjunto vazio
>>
>> é uma coleção. Isso faz de mim um colecionador de armas de fogo. Contudo,
>>
>> como não tenho nenhuma arma de fogo eu não sou um colecionador de armas de
>>
>> fogo segundo o uso cotidiano do termo: eu não preciso fazer nenhum
>> registro
>>
>> na polícia federal ou nas forças armadas, não faz sentido ir ao encontro
>>
>> brasileiro de colecionadores de armas, se tal coisa existir, etc.
>>
>>
>>
>> Olhei rapidamente o arquivo de materiais online que o Mario colocou aqui.
>>
>> Comparando a oferta de materiais de Lógica com a de outra área em que
>>
>> também atuo (Geometria), fica claro que a situação da Lógica é bem
>>
>> precária. Contudo, tenho dúvidas se vale a pena investir em construir uma
>>
>> literatura em português para o assunto.
>>
>>
>> Com relação aos "conjuntos de objetos concretos", acredito que o
>>
>> entendimento standard na filosofia analítica é que conjuntos podem conter
>>
>> objetos concretos. Talvez o exemplo mais marcante seja o das proposições
>>
>> russellianas: para Russell objetos concretos e propriedades sobre esses
>>
>> objetos são constituintes de proposições. Outro exemplo: para David Lewis,
>>
>> mundos possíveis são objetos concretos. Conjuntos de mundos possíveis
>>
>> seriam então, segundo David Lewis, outro exemplo de conjunto de objetos
>>
>> concretos. (Uma concepção standard de proposições na filosofia analítica,
>>
>> diferente da teoria de Russel, é a que diz que proposições são conjuntos
>> de
>>
>> mundos possíveis.) Ainda outro exemplo: Godel no artigo What is Cantor's
>>
>> continuum problem? Logo na primeira página, sobre a definição de número
>>
>> cardinal: "...we certainly want it to have the property that the number of
>>
>> objects belonging to some class does not change if, leaving the objects
>> the
>>
>> same, one changes in any way their properties or mutual relations (e.g.,
>>
>> their colors or their distribution in space)." Claro que apenas objetos
>>
>> concretos podem ter cor ou distribuição espacial.
>>
>>
>>
>> É verdade que mesmo o básico em Lógica (e em todas as outras áreas) não é
>>
>> tema sem controvérsia. Livros adoram começar com alguma afirmação
>>
>> categórica sobre o que é a lógica: ciência do raciocínio, estudo das leis
>>
>> do pensamento, estudo de relações formais entre portadores de valor de
>>
>> verdade, estudo da argumentação válida, etc. Seria muito melhor começar
>>
>> discutindo essas e outras possibilidades, bem como as várias traduções
>>
>> possíveis da palavra logos. Mas para isso precisa ter competência em
>>
>> análise conceitual. Os estudantes também parecem apreciar essas afirmações
>>
>> categóricas, mesmo que delas não entendam nada. Eles parecem precisar
>> dessa
>>
>> "paz de espírito" para seguir em frente, já que essas discussões iniciais
>>
>> "não vão render resultados".Esse espírito nada investigativo parece ser
>>
>> dominante em todas as áreas. Ninguém começa um livro de matemática
>>
>> arriscando dizer o que é a matemática. Não sei quando foi a última vez que
>>
>> vi algum livro de geometria tentando começar com algo do tipo: "geometria
>> é
>>
>> o estudo de formas espaciais". Não é que essas coisas tenham sido
>>
>> resolvidas, ao contrário. As pessoas passaram a ignorá-las, talvez por
>>
>> acreditarem que isso não renda papers que vão valorizar seus currículos...
>>
>>
>> Podemos nos perguntar pelos motivos dessa postura anti-investigativa. Vejo
>>
>> que, atualmente, os cursos de pós-graduação em matemática são feitos em um
>>
>> ritmo muito acelerado, porque tanto o professor quanto os alunos querem
>>
>> chegar rápido em algum resultado lá na frente. Não importa se ninguém
>>
>> entendeu nada desde o básico, incluindo o professor. Acredito que a idéia
>>
>> que esses cursos transmitem é que pesquisa em matemática é sempre sobre
>>
>> alguma coisa longe e estranha. Quando alguém é perguntado sobre o "básico"
>>
>> a resposta pronta é "isso está feito", mesmo quando ninguém sabe onde ou
>>
>> como, ou até mesmo quando não está feito... Talvez seja por isso que os
>>
>> matemáticos tem pouco apreço pelos fundamentos: eles acreditam que "está
>>
>> feito", mesmo sem saber o que significaria "estar feito" nesse caso.
>>
>>
>> Abraço
>>
>> Rodrigo
>>
>>
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