Ol�, Raul. Hoje � tarde, ap�s assistir ao Matrix Reloaded, li com aten��o a
solu��o do problema que lhe causou d�vidas, e cujo enunciado �:

"Qual � o d�gito das unidades de 7^7^7^7^...^7, onde aparecem 2002 setes?"

Seguem-se os meus esclarecimentos. (Espero que realmente esclare�am!)

Sua d�vida inicial foi: como interpretar uma tal torre de pot�ncias? Em
minha resposta nesta lista, eu disse que, pela conven��o mais aceita, a
associa��o se faz pela DIREITA (ou, em termos da nota��o tradicional, "de
cima" para baixo). Na mensagem seguinte, surgiu uma nova d�vida: voc�
afirmou que essa interpreta��o n�o lhe parecia compat�vel com a resolu��o
apresentada.

Ap�s examinar, hoje, a solu��o, verifiquei que foi utilizada a conven��o
mais aceita. Eles realmente trataram a opera��o ^ como associativa �
DIREITA. Creio ser interessante lhe mostrar onde ocorreu o seu engano ao ler
a solu��o, e para este fim farei uma descri��o do racioc�nio ali apresentado
numa linguagem diferente (e com uma pequena modifica��o).

<observa��o 1>
Torres de pot�ncias levam a n�meros ENORMES, para os quais Donald Knuth
imaginou algumas  nota��es convenientes. Assim, a torre de pot�ncias

m^m^...^m, com m repetido n vezes

� denota por m||n, onde aqui escrevo "|" em vez da seta para cima (tal como
proposto por Knuth). Como eu disse, a potencia��o � associativa � direita, e
com essa conven��o � f�cil ver que n>=2 ==> m||n = m^(m||(n-1)). Com essa
nota��o, o nosso problema fica: Qual � o d�gito das unidades de 7||2002?
Alternativamente: Qual � o resto de 7||2002 por 10? Observe como esse n�mero
� grande: 7||2=7^7^7, por exemplo, possui 1+floor(7^7log_10(7))=695.975
algarismos decimais!
<fim da observa��o 1>

A solu��o que voc� leu come�a mostrando, a partir de casos particulares,
como a seq��ncia dos restos das pot�ncias de 7 por 100 � peri�dica, com
per�odo

1,7,43,49

<observa��o 2>
Esse fen�meno � bem estudado nos textos cl�ssicos sobre congru�ncias, nos
quais se mostra que, mais geralmente, se a � primo com m, ent�o a seq��ncia
das pot�ncias a^k (k>0) � peri�dica m�dulo m. O comprimento do per�odo � uma
fun��o aritm�tica bem conhecida. No software Mathematica, por exemplo, essa
fun��o � indicada por MultiplicativeOrder[a,m] ou, em nota��o tradicional,
por ord_m(a). Essa fun��o comparece, por exemplo, no c�lculo do per�odo de
d�zimas.
<fim da observa��o 2>

Indubitavelmente, foi nesse come�o que voc� se enganou e se concentrou na
seq��ncia 7^7, (7^7)^7, ..., cujos restos TAMB�M s�o peri�dicos! Mas
deixemos este caminho de lado.

O passo seguinte (da solu��o) se ap�ia em dois fatos que PODERIAM ter sido
destacados assim:

(1) 7^7 = 43 mod 100
(2) x=43 mod 100 =>7^x=43 mod 100

Fica ent�o f�cil provar, por indu��o a partir de 7||n = 7^(7||(n-1)) (veja
observa��o 1) que

n>=2 ==> 7||n = 43 mod 100 ==> 7||n = 3 mod 10

That's all!

Considera��es Finais (reflex�es pedag�gicas)

Bem, Raul, talvez voc� ache que esta apresenta��o seja elaborada demais. Que
chances teria um estudante de matem�tica, ainda que talentoso, de ATINAR com
certas id�ias e caminhos, os quais se apresentam com mais naturalidade
somente para aqueles que possuem alguma sofistica��o matem�tica? No caso
acima, por exemplo, o que dizer de um estudante que nada sabe sobre
congru�ncias? Meu ponto de vista �  que muitos desses problemas s� deveriam
ser realmente atacados com as ferramentas que foram JUSTAMENTE CRIADAS para
tornar suas solu��es mais mec�nicas, formaliz�veis e compreens�veis. Claro,
voc� n�o precisa dominar congru�ncias para resolver certos problemas de
Teoria dos N�meros, da mesma forma que n�o precisa estudar L�gica Matem�tica
para entender demonstra��es. Mas considero algo "trapaceiro" utilizar uma
teoria avan�ada T para descobrir um problema P e depois reenunciar P numa
linguagem "inferior" e apresent�-lo como desafio para algu�m que desconhece
T, com o suposto objetivo de atestar o "talento matem�tico". Lembre-se: a
matem�tica � volumosa demais para a curta vida de um ser humano. Portanto,
estudemos e n�o percamos tempo reinventando a roda.

Carlos C�sar de Ara�jo
Matem�tica para Gregos & Troianos
www.gregosetroianos.mat.br
Belo Horizonte, MG

----- Original Message -----
From: "Raul" <[EMAIL PROTECTED]>
To: <[EMAIL PROTECTED]>
Sent: Saturday, May 31, 2003 12:57 AM
Subject: [obm-l] Re: [obm-l] Quest�o do cartaz


>     Ol� Carlos,
>     na quest�o original n�o tem par�teses e nem pede para adotar outra
> conven��o. � a quest�o 20 da prova OBM 2002 do n�vel 3. Pode-se verificar
o
> enunciado e a resolu��o no site www.obm.org.br, no link provas.
>     Queria saber se na resolu��o devemos adotar outra conven��o ou eu n�o
> entendi direito.
>     Obrigado pela aten��o,
>         Raul
>
> ----- Original Message -----
> From: Carlos C�sar de Ara�jo <[EMAIL PROTECTED]>
> To: <[EMAIL PROTECTED]>
> Sent: Friday, May 30, 2003 1:21 AM
> Subject: [obm-l] Re: [obm-l] Re: [obm-l] Quest�o do cartaz
>
>
> > Ol�, Raul. Infelizmente, com o enorme volume de trabalho por aqui, ainda
> n�o
> > pude examinar o enunciado original do seu problema. Poderia me fornecer
> > algum link? No enunciado original, a torre de pot�ncias � escrita sem
> > par�nteses? O texto menciona alguma conven��o a ser usada? At� que eu
> saiba
> > mais, prefiro me omitir. Entretanto, a julgar pela sua descri��o da
> > resolu��o, foi mesmo utilizada a associa��o pela esquerda (com base num
> fato
> > simples sobre congru�ncias).
> >
> > Eu gostaria de sugerir alguns artigos para consulta (enquanto vasculho
> parte
> > da minha biblioteca antes de sair). Torres de pot�ncias aparecem em
> > discuss�es matem�tica e l�gicas (teoria da recurs�o, fun��o de
Ackermann,
> > funcionais de Hilbert, etc.) H� alguns anos, coletei v�rios artigos
> > interessantes no American Mathematical Monthly. Eis alguns:
> >
> > [1] J. Riordan - A note on Catalan numbers, AMM, 1973, pp. 904-906;
> > [2] R.K.Guy and J. L. Selfridge - The nesting and roosting habits of the
> > laddred parenthesis, AMM, 1973, pp.868-876.
> > [3] J. Spencer - Large numbers and unprovable theorems, AMM, 1983, pp.
> > 669-675.
> >
> > Veja tamb�m sobre a nota��o de setas de Knuth em
> >
> > http://mathworld.wolfram.com/ArrowNotation.html
> >
> > e siga as refer�ncias ali mostradas. Quando tiver tempo, e se houver
> > interesse, enviarei mais refer�ncias bibliogr�ficas que j� estudei.
> >
> > Carlos C�sar de Ara�jo
> > Matem�tica para Gregos & Troianos
> > www.gregosetroianos.mat.br
> > Belo Horizonte, MG
> >
> > ----- Original Message -----
> > From: "Raul" <[EMAIL PROTECTED]>
> > To: <[EMAIL PROTECTED]>
> > Sent: Thursday, May 29, 2003 7:29 PM
> > Subject: [obm-l] Re: [obm-l] Quest�o do cartaz
> >
> >
> > >     Obrigado Carlos pela resposta bem elaborada. Mas agora ent�o me
> parece
> > > errada a resolu��o da quest�o do cartaz que pergunta o �ltimo d�gito
de
> > > 7^7^7^7...(onde aparecem 2002 setes). Na resolu��o que acompanha o
> > gabarito
> > > � feita a an�lise que 7^7 termina em 3, ao elevar a 7 novamente
termina
> em
> > > 7. Assim � feita a conclus�o que ficar� alternando 3 e7 ao continuar
> > > elevando. Como tem 2002 n�meros 7, conclui-se que terminar� em 3. N�o
> est�
> > > indo contra a conven��o mais aceita � que ^ � associativa � direita?
> > >     Agrade�o aos que quiserem realmente ajudar.
> > >         Raul
> > >
> > > ----- Original Message -----
> > > From: Carlos C�sar de Ara�jo <[EMAIL PROTECTED]>
> > > To: <[EMAIL PROTECTED]>
> > > Sent: Thursday, May 29, 2003 2:05 PM
> > > Subject: [obm-l] Re: [obm-l] Re: [obm-l] Re: [obm-l] Quest�o do cartaz
> > >
> > >
> > > > Raul,
> > > >
> > > > Voc� pergunta:
> > > >
> > > > >  Uma d�vida ent�o: est� errado ensinar que 2^3^2=2^9 por n�o haver
> > > > > par�ntesis?
> > > >
> > > > Repetindo o que eu disse, a conven��o mais aceita � que ^ �
> associativa
> > �
> > > > direita, de modo que 2^3^2=2^(3^2)=2^9=512. Portanto, ensinar que
> > > > "2^3^2=2^9" � simplesmente uma forma de aderir a essa conven��o. A
> > maioria
> > > > dos softwares com os quais trabalho no meu site seguem essa regra.
Uma
> > > > exce��o � o Excel: se voc� digitar
> > > >
> > > > =2^3^2
> > > >
> > > > numa c�lula e pressionar <Enter>, ver� 64 como resultado. Isto
mostra
> > que
> > > o
> > > > Excel decodifica a express�o associando pela ESQUERDA.
> > > >
> > > > >Algumas apostilas de cursinho e alguns livros que consultei
> > > > > trazem exerc�cios que diferenciam (2^3)^2=2^6 do exemplo anterior.
> > > >
> > > > Sim, a express�o (2^3)^2 tem que ser diferenciada de 2^3^2=2^(3^2)
> > porque,
> > > > como eu ressaltei, a opera��o ^ n�o � associativa. Onde est� a
d�vida?
> > Era
> > > > isso mesmo que voc� queria dizer?
> > > >
> > > > Infelizmente, quest�es SINT�TICAS e METODOL�GICAS como essas n�o s�o
> > > > discutidas SISTEMATICAMENTE nos cursos "tradicionais" de matem�tica.
> > (Isto
> > > > n�o acontece em cursos de L�gica Matem�tica ou de Programa��o de
> > > > Computadores.) Conseq�entemente, os alunos aprendem a fazer c�lculos
e
> > > > resolver problemas padronizados, mas n�o aprendem a pensar e
CRITICAR
> > > fatos
> > > > estabelecidos. T�o importante quanto a arte de resolver problemas �
a
> > > > capacidade de organizar o conhecimento em um corpo coeso de fatos e
> > > > CONVEN��ES baseadas em julgamentos inteligentes. Matem�ticos n�o s�o
> > > apenas
> > > > resolvedores de problemas; s�o, tamb�m, construtores de teorias.
Aqui
> > vai
> > > um
> > > > exerc�cio para voc� treinar a sua observa��o e senso cr�tico: por
que
> se
> > > > convenciona que a multiplica��o tem preced�ncia sobre a adi��o? Isto
> �,
> > > por
> > > > que se convenciona que "a + b*c = a+(b*c)" e n�o que "a + b*c =
> > (a+b)*c"?
> > > > PENSE sobre isto e poder� chegar � resposta por si mesmo (como eu
> > pr�prio
> > > > cheguei).
> > > >
> > > > Carlos C�sar de Ara�jo
> > > > Matem�tica para Gregos & Troianos
> > > > www.gregosetroianos.mat.br
> > > > Belo Horizonte, MG
> > > >
> > > > > ----- Original Message -----
> > > > > > Raul,
> > > > > >
> > > > > > A opera��o bin�ria (a,b)--> a^b n�o � associativa, de modo que,
em
> > > > > > princ�pio, a express�o
> > > > > >
> > > > > > a^b^c
> > > > > >
> > > > > > � amb�gua: significaria (a^b)^c OU a^(b^c)? Contudo, repare que
> uma
> > > > dessas
> > > > > > alternativas leva a um resultado bem definido: (a^b)^c=a^(bc).
> Como
> > > > > > conseq��ncia (e abreviando um pouco o que poderia ser uma longa
> > > > discuss�o
> > > > > > metodol�gica), convencionou-se que a opera��o (a,b)--> a^b �
> > > ASSOCIATIVA
> > > > �
> > > > > > DIREITA. Ou seja, por defini��o,
> > > > > >
> > > > > > a^b^c = a^(b^c).
> > > > > >
> > > > > > Em particular,
> > > > > >
> > > > > > 7^7^7 = 7^(7^7) = 7^49.
> > > > > >
> > > > > > PS: Quest�es como essas s�o discutidas detalhadamente num dos
> > > cap�tulos
> > > > do
> > > > > > meu CD-ROM "N�meros" (cujas vendas, no momento, est�o
paralisadas
> �
> > > > espera
> > > > > > de acordos vi�veis com distribuidoras em territ�rio nacional.)
> > > > > >
> > > > > > Carlos C�sar de Ara�jo
> > > > > > Matem�tica para Gregos & Troianos
> > > > > > www.gregosetroianos.mat.br
> > > > > > Belo Horizonte, MG
> > > > > >
> > > > > > ----- Original Message -----
> > > > > >
> > > > > >     Ol� a todos.
> > > > > >     No cartaz da OBM 2003 h� uma quest�o para ensino m�dio que
> > > pergunta
> > > > > qual
> > > > > > o �ltimo algarismo de sete elevado a sete elevado a sete...(com
> 2002
> > > > > setes).
> > > > > > Acontece que n�o h� par�ntesis entre os expoentes. Na resolu��o
da
> > > > quest�o
> > > > > > eu achei que tudo foi feito como se houvesse par�ntesis. Em
resumo
> > > sete
> > > > > > elevado a sete elevado a sete foi tratado como sete elevado a 49
e
> > n�o
> > > > > como
> > > > > > sete elevado a 823543. Quero saber onde eu estou errado.
> > > > > >     Agrade�o desde j�.
> > > > > >         Raul
> > > > > >
> > > > > >
> > > > > >
> > > > > >
> > > >
> >
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> > > > > > http://www.mat.puc-rio.br/~nicolau/olimp/obm-l.html
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