Oi Diego.

Parab�ns pela sua resposta! Que senso de humor! Escreva mais para a lista!
Se todos explicassem os termos matem�ticos da maneira como voc� explicou,
essa seria a mat�ria mais adorada pelos estudantes. Genial!

Abra��o!
Duda.

From: "Diego Navarro" <[EMAIL PROTECTED]>
> >   Estou com um problema:
> >   Sei que a derivada de y=f(x) no ponto de abcissa xo � o coeficiente
> > angular da reata tangente � fun��o y=f(x) no ponto P(Xo,yo).
> >   Gostaria de saber o que significaria a derivada segunda de xo, a
derivada
> > terceira de xo, a derivada n de xo, em rela��o a fun��o original.
>
> Se eu estiver falando besteiras algu�m vai me corrigir r�pido, ent�o eu
arrisco. Outro dia
> eu soltei uma de confundir dist�ncia em espa�o m�trico com norma em espa�o
vetorial que me
> deu uma vergonha depois...
>
> Mas, bem, tentar � preciso. A gente s� aprende assim. E em todo caso, o
Nicolau tem mais o
> que fazer do que ficar ensinando c�lculo zero. � o seguinte: pense em
f�sica.
>
> A avenida das Am�ricas � uma longa estrada em linha reta que vai do in�cio
da Barra at� o
> Grumari, ou mais longe. A cada 5 quil�metros, tem um cartaz marcando "Km
10", "Km 15".
> Voc� tem uma fun��o s(t) - escalar, por enquanto - que te diz em que ponto
da Avenida das
> Am�ricas est� o seu carro em um determinado instante do tempo. A menos que
voc� d� voltas
> e pegue retornos, a sua fun��o s(t) ser� estritamente crescente.
>
> Como � que voc� calcula a velocidade m�dia que o seu carro desenvolveu,
digamos, do 10o.
> ao 15o. minuto? Voc� v� quanto o seu carro andou e divide pelo tempo
percorrido.
>
> Vme(10,15) =  [s(15)-s(10)]/(15-10).
>
> Em geral,
>
> Vme (a,b) = [s(b) - s(a)]/(b-a).
>
> Onde a e b s�o "pontos no tempo"; voc� inicia um cron�metro no come�o da
brincadeira, e
> olha para ele em dois momentos a e b. Mas rola o seguinte: a velocidade
m�xima permitida
> na Av. das Am�ricas � de 80 km/h. Mas no espa�o de tempo [a,b] que voc�
mediu, voc� foi
> metade do trajeto a 20 km/h, e metade a 120 km/h, dando uma velocidade
m�dia menor que
> oitenta quil�metros por hora. Quando o policial te parar, voc� pode sacar
a sua HP 49-G,
> fazer umas duas integrais para calcular precisamente sua velocidade m�dia,
e explicar para
> ele que na m�dia, voc� estava dentro da lei. Pode?
>
> O chato � que dif�cilmente os nossos policiais sabem c�lculo. Eles s�
sabem o que �
> velocidade instant�nea. E velocidade instant�nea �, grosseiramente, a Vme
em um espa�o
> curtinho de tempo. Mas o nosso policial s� � policial enquanto espera a
gradua��o e o
> mestrado por not�rio saber sa�rem da burocracia, ent�o ele saca o
bloquinho de papel e faz
> um limite.
>
> lim Vme(a,b)  = V(a)
> b-->a
>
> Se voc� for fazer a conta, vai achar a f�rmula da derivada que tem no
livro.
>
> V(a) = s'(a)
>
> E ele te mostra que, dado o momento b em que ele te parou, existe um
epsilon, mesmo que
> pequeno, tal que Vme(b-epsilon, b) > 80. E l� se vai a sua permiss�o de
motorista. Tudo
> culpa do Cauchy, que inventou essa hist�ria de limites.
>
> *Derivada � isso: uma velocidade*. A hist�ria de inclina��o da tangente
ajuda a ver se
> tiver o gr�fico - mas eu n�o vou ficar desenhando um gr�fico pra voc�
quando tenho prova
> de microeconomia na ter�a.
>
> Agora imagine que a nossa fun��o inicial n�o � a posi��o na Av. das
Am�ricas, mas a sua
> velocidade. O vento levou os cartazes que marcavam os quil�metros, e voc�
s� tem o seu
> veloc�metro e a sua namorada anotando as velocidades a cada 60 segundos. O
que vai ser a
> derivada da fun��o velocidade? A "velocidade" com que a velocidade muda -
ou seja, a
> acelera��o. Aquela hist�ria de "vai de 0 a 100 em 40 segundos". Qualquer
fan�tico por
> autom�veis vai te dizer que o que voc� sente n�o � a velocidade, � a
acelera��o.
>
> Se o carro vai de 0 a 360 m/s em 60 segundos, a "acelera��o m�dia" �
>
> Ame(0,60) = V(60) - V(0) / (60-0) = 360 / 60 = 6 m/s^2
>
> Mas ser� que ele come�a a desenvolver 6 m/s^2 desde o momento que voc�
vira a chave?
> Provavelmente ele come�a aos pouquinhos e vai "acelerando cada vez mais
r�pido". Se voc�
> puxar um limite na velocidade, vai achar a acelera��o instant�nea.
>
> lim Ame(a,b) = A(b) = V'(b)
> b-->a
>
> E como v(b) = s(b), v'(b) = s''(b). Que � a segunda derivada. Segunda
derivada de qualquer
> coisa � a "taxa de acelera��o".
>
> Pense num exemplo diferente agora. Uma fun��o demanda diz quanto os
consumidores est�o
> dispostos a comprar dado um pre�o. Suponha, para facilitar, que voc� � um
monopolista - o
> �nico cara que tem um show do Malevolent Creation no Rio este ano - e por
isso define o
> pre�o que quiser. A quantidade de ingressos que voc� vai vender � igual a
>
> Q = D(p)
>
> E o dinheiro que voc� vai ganhar com isso (a sua Receita) �
>
> R = p*q = p*d(p).
>
> Qual � o pre�o que maximiza a sua receita? Supondo que voc� � um padeiro
tijucano que n�o
> estudou c�lculo, a sua melhor estrat�gia vai ser experimentar aumentar o
pre�o aos
> pouquinhos. Eu sei que a fun��o demanda �  D(p) = 500 - p,  mas para usar
um truque
> hitchockiano, vou deixar voc� sem saber isso. Ent�o voc� vai e experimenta
o pre�o p =
> 100. E verifica, at�nito, que
>
> R (100) = 100*d(100) = 100*(500-100) = 40.000.
>
> Agora aumenta o pre�o para p=200
>
> R(200) = 200*d(200) = 200*(500-200) = 60.000.
>
> Esse neg�cio de promover shows de rock � _muito_ lucrativo. Aumente logo
para 300, diz o
> diabinho no seu ombro. E voc� verifica que
>
> R(300) = 300*d(300)=300*(500-300) = 60.000.
>
> Quer dizer, a sua receita parou de crescer. E se voc� aumentar o pre�o
para 400, R(400) =
> 40.000 de novo. Portanto, o seu pre�o �timo deve estar em algum ponto
entre 200 e 300.
> Ent�o voc� volta para 200, e come�a a dar passinhos menores. Ou, se voc�
descobrir a sua
> fun��o demanda, usa c�lculo. Eu te disse que a demanda � D(p) = 500 - p,
certo? Ent�o a
> receita �
>
> R(p) = p* (500-p) = p^2 - 500p.
>
> C� entre n�s, essa fun��o quadr�tica � conhecida, e a gente sabe que fica
uma par�bola,
> com um �nico ponto de m�ximo. Ent�o voc� quer saber em que ponto ela p�ra
de crescer para
> come�ar a diminuir, e faz a conta direto: em que ponto a sua *receita
marginal* � zero?
>
> R'(p) = 0 ==> 2p-500=0 ==> p=250
>
> Que � o seu pre�o �timo. Mas se a gente n�o conhecesse a natureza dessa
fun��o receita? Se
> ela tiver v�rios pontos de inflex�o (pontos onde ela muda de dire��o) e s�
um deles for o
> m�ximo? Se ela n�o tiver m�ximo, mas m�nimo? Pra saber isso melhor, a
gente vai estudar o
> comportamento da derivada - pelo menos para saber se tem mais de um ponto
onde ela p�ra de
> crescer e passa a diminuir. E para isso, a gente vai derivar a derivada da
derivada.
>
> R''(p) = 2
>
> E s� da� voc� tira que a derivada n�o prega pe�as na gente. Como a
derivada � a taxa de
> varia��o da receita, a receita cai onde ela � menor que zero, e sobe onde
ela � maior que
> zero. Como a derivada da derivada � uma constante, voc� sabe que a
derivada primeira � uma
> fun��o linear, e s� passa pelo zero uma vez.
>
> E a gente j� viu que quando a derivada passa pelo zero (e _cruza_ o zero,
o que n�o vai
> acontecer num polin�mio de grau 3, por exemplo), a fun��o muda de
comportamento. No nosso
> caso, p�ra de crescer e come�a a decrescer. E n�s, como capitalistas
fominhas que somos,
> queremos o m�ximo poss�vel.
>
> S� um caveat: nem todo ponto onde a derivada � igual a zero � um ponto de
_inflex�o_  (de
> mudan�a de comportamento). D� uma olhada na seguinte f:
>
> f(x) = x^3.
>
> Logo, f'(x) = 3*x^2. A derivada vai ser zero em 3x^2 = 0 ==> x=0.
>
> Mas d� uma olhada na segunda derivada:
>
> f''(x) = 6x.
>
> Acho que j� deu pra ver que a derivada primeira n�o � linear. E pior, �
medida que x
> aumenta, a _derivada segunda_ sempre aumenta, o que quer dizer que a
_derivada primeira_
> aumenta a taxas cada vez maiores. Se voc� olhar o gr�fico da derivada
primeira, vai ver
> uma par�bola. Tem um ponto onde ela amea�a cruzar o zero e ficar negativa,
mas encosta e
> volta. E se voc� for ver o gr�fico de x^3, a fun��o amea�a dar a volta e
come�ar a cair,
> mas d� uma paradinha e continua.
>
> Puxa, como escrevi. Acho que gosto de fazer isso. Ah, se a matem�tica me
amasse como eu a
> amo...
>
>
> >
> >   Agrade�o a ajuda,
> >                              Thiago
> >
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