salve salve
para ajudar na reflexão, vejam que interessante este trecho da entrevista
com o Nei Lopes feita pela Rede Brasil...
ajuda a entender também o pensamento do mestre
"o samba nào está no formol"

abs

 <http://www.redebrasil.tv.br/salto/entrevistas/nei_lopes.htm>

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*Salto – O senhor acredita que o samba ainda é visto de maneira
preconceituosa?*

Nei Lopes – Absolutamente, completamente preconceituosa. O samba é sempre
associado, primeiro por suas origens negras, o samba é sempre associado à
escravidão, associado à pobreza, é associado à favelização, associado à
criminalidade, e essa é a grande estratégia que é usada pela indústria
cultural globalizante, no sentido de colocar o samba numa condição
subalterna sempre. E é também uma estratégia que compõe todo esse complexo
de dominação e de colonização cultural. Uma das estratégias também é taxar o
samba como uma coisa imóvel, como uma coisa velha, como uma coisa que não se
renova. Eu escrevi um livro, há uns dois anos, chamado Samba b – a – ba, o
samba que não se aprende na escola. Esse livro mereceu oito páginas de uma
revista elegante, uma revista finíssima que é editada em São Paulo, editada,
inclusive com muito patrocínio do Governo. Então, é uma revista muito
bonita, de altíssimo nível, ela tem papel couchê, custa caríssimo nas
bancas... Essa revista se ocupou do meu livro, num artigo altamente
tendencioso, usou 8 páginas para falar do meu livro, acusando o livro de
coisas: que o livro era passadista, era reacionário. O título da chamada de
capa dessa crítica, veja bem, dizia assim: "Nei Lopes – O samba em formol".
Eu absolutamente não advogo que o samba tenha que ficar "museificado", tenha
que ficou imóvel, nada disso, eu sou uma das pessoas que mais propugnam pela
visibilidade, pela diversidade, pela multiplicidade do samba. Agora mesmo,
estamos aqui no estúdio, estou concluindo mais uma produção, mais um disco
meu, um disco em que eu procuro evidenciar essa diversidade, por exemplo. É
um disco de samba com algumas informações afro-cubanas, porque eu acho que
os universos do samba são irmãos. São muito semelhantes, são duas coisas que
se cruzam a todo momento, o que não acontece, por exemplo, com a música afro
norte-americana, em relação à brasileira. Os negros americanos não usaram
tambor, foram historicamente despossuídos do tambor pela colonização, pela
evangelização dos protestantes. Enquanto que os negros da América-hispânica,
da América portuguesa, como, nós, usaram sempre o tambor. Então, você pega a
música de Cuba, a música de Porto Rico, a música da República Dominicana, a
música do Haiti, até o próprio Prata, do Uruguai até a Argentina, há uma
similitude entre essas músicas, porque elas têm origens comuns, a origem na
grande civilização Banto, lá do Congo, Angola e adjacências, o que não
ocorre com a música dos Estados Unidos. Então, você pega um samba e o
associa com a música afro-hispânico, a música centro-americana, é
absolutamente coerente, não é colonização, nem coisa nenhuma. Você está
promovendo o encontro entre parentes que foram, de uma certa forma,
dispersos pela escravidão e etc. e tal. Então, eu procuro no meu trabalho,
sempre que posso, chamar o samba para essas associações e exatamente por
isso. Para mostrar que o samba é plurifacetado, o samba é um gênero musical
altamente rico, não é velho, porque ele se renova a cada momento, desde o
primeiro samba, registrado como samba, que foi "Pelo telefone", a gente
observa que, a cada década, há uma renovação da expressão dessa pluralidade
do samba, que também está vivo até hoje por causa disso. E, às vezes, até é
meio difícil perceber essa diversidade, inclusive em sub-gêneros, que às
vezes são mostrados como gênero, como por exemplo, a Bossa Nova, é um samba,
é uma forma de fazer samba. O choro como forma instrumental de se tocar o
samba, o chamado sambop, o samba jazz surgido aqui no Rio de Janeiro no
contexto da Bossa Nova, o samba de piano, baixo e bateria. Aí está um dos
poucos momentos em que a tradição norte-americana e a tradição brasileira se
encontram. Mas se encontram por via do jazz primeiro, mas o jazz tocado com
um acento de samba e por aí vai. Então, o samba é essa diversidade,
inclusive essas formas mais modernas, supostamente mais modernas, que emanam
da Bahia com muita sensualidade, com muita, o chamado samba-axé, ou samba de
quebradeira, são tradições também bastante arcaicas do Recôncavo Bahiano,
das quais indústria cultural se apropriou. Então, o que eu procuro fazer
sempre, é mostrar essa diversidade, essa pluralidade e mostrar que o samba
está vivo aí, não está velho e não está no formol.

*Salto – Por que o senhor acredita que o conceito de pluralidade cultural
ganha tanta importância no mundo hoje?*

Nei Lopes – Eu acho que há uma dualidade de pensamento aí, eu acho que os
intelectuais, os intelectuais "do bem" (risos), procuram enfatizar a questão
da pluralidade e procuram valorizar essa questão. Ao passo que outras
expressões intelectuais que não são tão "do bem" assim, que estão visando
muito mais o capital, são expressão de um capitalismo bastante perverso,
bastante massacrante, já não valorizam a pluralidade do jeito que a
intelectualidade do bem valoriza. Porque não interessa... o mundo hoje é
comandado por corporações, cada vez menos corporações. Digamos que hoje você
tem conglomerados, uns 4 ou 5 conglomerados comandando a cultura no mundo
inteiro. Então, evidente, que quanto mais se concentra o poder nas mãos
desses conglomerados, menos a pluralidade interessa. Você tem, para dominar
o mercado, você tem que ter um mercado homogêneo. Então, essa homogeneidade
é contra todo tipo de pluralidade. Eu acho que quem valoriza a pluralidade
somos nós, eu, você (apontando para a equipe do Salto), os espectadores aí
que estão assistindo ao nosso programa, mas o grande, o Big Brother que
manda nessa história toda, eu acho que ele não gosta de pluralidade não.

*Salto – O senhor acredita que a música popular brasileira retrata a
pluralidade cultural do país?*

Nei Lopes – Olha, existem duas músicas populares brasileiras, dois
escaninhos de música popular brasileira. Existe a música popular brasileira
que é espontânea, de criação popular mesmo e essa você vai encontrar onde?
Nas produções independentes, nos centros mais afastados. E existe outra
música imposta por essa indústria de que nós estamos falando, cujos
porta-vozes são os meios de comunicação atrelados a essa indústria. A gente
teve, dias atrás, a entrega de um prêmio, que é supostamente o prêmio mais
importante da música popular brasileira, em que não houve nenhuma premiação
para o gênero samba, houve para o hip hop, para o universo pop, mas no
entanto, numa estratégia, aquela coisa do álibi, numa espécie de álibi, o
que os organizadores do prêmio fizeram? Pegaram o Jamelão, o nosso grande
José Bispo Clementino dos Santos, nosso grande mangueirense, botaram lá e
fizeram um grande final da premiação com Jamelão, mais a Escola de Samba da
mangueira. É sempre assim! Efetivamente o samba não tem nada a ver, não
participa do mercado, isso na visão deles, mas aí como álibi, para não dizer
que são anti-samba, ou antinacionais, o que que fazem? Pegam alguém que
representa alguma coisa do samba e bota num "gran finale", num oba-oba e etc
e tal. Quer dizer, então o que a gente vê é isso. Apesar disso tudo, existe
hoje uma produção musical independente muito forte, no Brasil inteiro.
Existe uma rede natural e espontânea de troca de informações, a internet
inclusive veio facilitar muito isso. Os artistas do samba estão trabalhando
e muito bem, eu inclusive, em todo país, sempre sendo prestigiado, sempre
sendo chamados, independente de qualquer coisa, Evidentemente que ninguém do
samba, pelo menos o que eu conheça, à exceção de uns dois ou três, que
merecidamente está lá no pódio, à exceção de um ou dois que a indústria
cultural admitiu. Nenhum sambista está andando de BMW, tendo jatinhos, etc e
tal... Mas, pelo menos, os que estão trabalhando estão conseguindo, como
trabalhadores, ter uma remuneração condizente dentro dos padrões nacionais.
Isso é importante, nós somos trabalhadores da música, não somos? Ninguém
nasceu para ser "superstar", ser "popstar". Então, a gente tendo a
remuneração condigna, tendo a possibilidade de cuidar direitinho da saúde,
tendo a possibilidade de aos 62 anos ter essa aparência bonita, modéstia à
parte, então tudo bem, está tudo certo, está tudo legal.


na íntegra: http://www.redebrasil.tv.br/salto/entrevistas/nei_lopes.htm





2008/5/20 Eugenio Raggi <[EMAIL PROTECTED]>:

> Vini,
>
> Na prática, parafraseando o exemplo do purismo arquitetônico, é como
> se tivéssemos de manter locações sem instalações elétricas, um espaço
> tombado onde não se possa sequer estalar uma rede lógica, por que
> danificaria o aspecto original.
>
> Proibir releituras, misturas e outras utilizações daquilo que é um
> patrimônio do povo (e a ele legalmente pertence!!) é um ato insano,
> pretensioso e covarde.
>
> Perdoai-os, Nei Lopes, eles não entendem nada daquilo que você diz....
>
> Abs,
>
> Eugenio
>
>
>
>
>
> Em 20/05/08, vini correia<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
>  > meus caros, este tema mais uma vez me chamou a atençao...
> >
> >  qual o problema fazer uma releitura de uma obra de dominio publico?
> >  qual o problema um artista mostrar sua impressao, sua interpretacao
> sobre
> >  uma obra original?
> >  qual o problema fazer um noel versão drum n bass eletronico??
> >  ou noel versão reggae-dub-cubano-trip-hop-sei-lá-o-que??
> >
> >  Isso não é desmerecer o seu trabalho, talento e importancia, muito pelo
> >  contrário!
> >
> >  sinto muito, mas vou ter que por lenha nesta conversa de botequim...
> >
> >  faz um tempo que conheci um trabalho de uns musicos brasileiros chamado
> >  beatles n choro . Trata-se de releituras instrumentais de algumas
> musicas
> >  dos beatles numa linguagem e estrutra de choro. Cara, ficou muito
> curioso
> >  e criativo este antropofagismo! E a meu ver isto não é nenhum
> desrespeito
> >  para com a obra original...é uma homenagem linda! Até recomendo!
> >
> >  é uma grande bobagem comparar releituras de clássicos da música
> brasileira
> >  como se fossem terriveis e ameaçadoras interferencias em obras
> >  arquitetonicas tombadas.... Ambos podem ser patrimonio histórico, mas
> uma
> >  coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A música é abstrata, a
> obra
> >  arquitetonica é concreta (palpável). Ao contrario da arquitetura, com a
> >  musica podemos explorar inumeras versoes e ainda conservar a sua obra
> >  original de forma intacta, na voz do autor e o escambau!! Olha que legal
> >  esta diversidade, esta pluralidade!! Temos inumeras opcoes para escolher
> >  quando e qual versao ouvir e gostar. Olha que bacana! Se vc só gosta da
> >  versao original, escute a versao original e nao perca seu tempo com
> aquele
> >  discurso de que o mundo está perdido, vai de mal a pior, blablabla...
> >
> >  é preciso respeitar o gosto dos outros, gente!! Já vi pessoas ouvindo
> >  emocionadas a Beth cantando Feitiço da Vila e outras amarradonas ouvindo
> a
> >  versao original de noel pelo vinil ou mp3. Qual é o problema? Deixem
> cada um
> >  ser feliz do seu jeito!! Vamos parar com esta coisa ranzinza,  e
> >  conspiratória .... Certas criticas negativas me soam como a história da
> >  música do proprio noel:
> >
> >  "Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do Céu, que palpite
> infeliz!"
> >
> >
> >  viva a diversidade!!
> >
> >  abs
> >  Vini Correia
> >
> >
> >
> >
> >
> >  2008/5/19 Caio Pontual <[EMAIL PROTECTED]>:
> >
> >
> >  > Bem, eu concordo com vc no que diz respeito a manutenção da obra como
> ela
> >  > foi concebida, por respeito e pela manutenção (ou conservarão) da
> própria.
> >  > Porém não vejo problema quando se faz adaptações ou arranjos dessas
> mesmas
> >  > obras porem mantendo (ou respeitando) a melodia original, concordo com
> vc
> >  > quando muitas vezes transforma-se uma música que era originalmente um
> gênero
> >  > e transforma-se em outro ou quando o arranjo deturpa totalmente a
> melodia,
> >  > aí sim é condenável. Portanto é preciso bom censo e tb porque não, bom
> >  > gosto.
> >  >
> >  > Um abraço.
> >  > Caio Pontual
> >  >
> >  > ----- Original Message ----- From: "Daniel Capu" <
> >  > [EMAIL PROTECTED]>
> >  > To: "Caio Pontual" <[EMAIL PROTECTED]>
> >  > Sent: Monday, May 19, 2008 9:38 AM
> >  > Subject: Re: [S-C] FW: Obra de Noel
> >  >
> >  >
> >  > Particularmente, Caio, em se tratando de Noel, sou contra qualquer
> >  > manifestação criativa com a sua obra. Isso, por que, partilho e vou
> mais
> >  > além da opinião do Nei. Além de ser uma obra atual, de temas  -
> letras,
> >  > melodias -  como você naturalmente conhece, a riqueza da obra é, e
> sempre
> >  > será, a sua preservação como fora concebida. Numa analogia de sentido,
> >  > seria
> >  > como pegarmos uma obra arquitetônica tombada como patrimônio histórico
> e
> >  > colocá-la à disposição de alguns arquitetos modernosos para intervirem
> na
> >  > fachada, modificando-a. O propósito desse projeto é justamente esse.
> >  > Incentivar a intervenção melódica e de linguagem musical numa obra
> que, a
> >  > meu ver, não pede nem nunca vai pedir nada disso. O acesso a todos
> através
> >  > da net e a lei que permie torná-la domínio público entendo como algo
> >  > positivo. Só considero "bobagem", e em nada me atrairia, um projeto em
> cima
> >  > dessa causa, que entendo não existir.
> >  >
> >  > Um abraço
> >  > Daniel Capu
> >  >
> >  >
> >  > On 5/18/08 12:45 PM, "Caio Pontual" <[EMAIL PROTECTED]> wrote:
> >  >
> >  > Não entendi bem sua crítica, é contra as misturas ou é o fato das
> músicas
> >  >> tornarem domínio público ?
> >  >> Um Abraço.
> >  >>  Caio Pontual
> >  >>
> >  >>
> >  >> ----- Original Message -----
> >  >> From: "Daniel Capu" <[EMAIL PROTECTED]>
> >  >> To: <[email protected]>
> >  >> Sent: Friday, May 16, 2008 11:19 AM
> >  >> Subject: [S-C] FW: Obra de Noel
> >  >>
> >  >>
> >  >>
> >  >>
> >  >> Caros amigos,
> >  >>
> >  >> Acabo de ler na Folha uma matéria sobre um projeto (nem me lembro de
> >  >> quem?)
> >  >> para a obra de Noel que começa a cair em domínio público.
> >  >> O que mais me entristece não é o oportunismo firmado nessa onda de
> que
> >  >> agora
> >  >> a moda é misturar tudo. Pegar uma miscelânea de ritmos e culturas,
> bater
> >  >> tudo num liquidificador e servir pra um monte de gente beber e fazer
> uma
> >  >> cara de quem come iguaria fina, que apesar do péssimo paladar,
> esbanja um
> >  >> sorriso de satisfação.
> >  >>
> >  >> Não pretendo aqui dissertar sobre um modelo de indústria de consumo
> >  >> cultural, e muito menos criticar quem goste desse ritmo frenético de
> >  >> consumo
> >  >> a que somos diariamente sujeitados. Esse papo de que tudo agora tem
> que
> >  >> estar na internet, ao alcance de todo mundo. ³Peraí!!² Ainda leio na
> >  >> reportagem que essa seria uma maneira de homenagear uma das intenções
> de
> >  >> Noel, dizendo ser uma característica sua se dar com todo mundo. Tá
> bom! Se
> >  >> a
> >  >> lei permite, que façam!
> >  >>
> >  >> Como o Nei lopes disse, ³acho uma grande bobagem!²
> >  >>
> >  >> Daniel Capu
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