PRA é suficiente para fazer a teoria básica de sistemas formais (desde a
definição de fórmula até, por exemplo, eliminação do corte para a lógica
clássica ou intuicionista e segundo teorema da incompletude). PRA satisfaz
os requerimentos intuicionistas, é na verdade muito mais restritivo. Na
verdade, PRA define as funções de verdade como mostrado por Goodstein,
Curry, Bernays,... (é fácil), e pode ser formulada sem quantificadores. É
um cálculo muito simples, "logic free".

Os teoremas da lógica básica que falam de conjuntos (completude da logica
de primeira ordem por exemplo) exigem algo mais (mas a completude da lógica
de primeira ordem para linguagens enumeráveis também pode ser aritmetizada
em PA - teorema de Hilbert-Bernays). A interpretação Dialética não fala de
conjuntos mas também não funciona em PRA (a normalização forte dos lambda
termos da interpretação dialética não é demonstrável em PRA). Acho que tudo
isso era basicamente conhecido (de modo não necessariamente muito
detalhado) pelo Hilbert (entre outros).

O Nelson (aquele que acredita que 0 = 1) desenvolveu boa parte da teoria
básica de sistemas formais (no contexto clássico) em sistemas mais
restritivos que PRA, no âmbito da chamada aritmética limitada ou
predicativa. Nesses sistemas certamente perde-se muita informação. Há mais
de uma noção de consistência, por exemplo, que em PRA são equivalentes. A
noçâo de consistência derivada do teorema de Herbrand é "bem comportada"
nesse sistema. A noção "cut free" é bem comportada. A noção usual não é.

Abraço
Rodrigo








2012/4/10 Joao Marcos <[email protected]>

> Sem dúvida, qualquer professor com um mínimo de experiência no ramo
> sabe que é conveniente começar a partir de objetos com os quais os
> alunos estejam "mais familiarizados".  Por outro lado, parece
> razoavelmente absurdo sugerir que um curso sobre *lógica clássica*
> ("proporcional"? "proposicional"?) comece pela maiêutica!
>
> Um bom professor, e um bom livro, certamente devem dar uma ideia ao
> aluno do porquê de cada resultado.  Não há professores e livros,
> contudo, que _garantam_ que o aluno realmente _compreenda_ este porquê
> --- a compreensão do porquê pode transcender o aluno, naquela fase da
> sua maturidade.  Aliás, do discurso de alguns alunos titulados podemos
> frequentemente perceber que eles não compreenderam bem o que lhes foi
> (?) ensinado.  O que fazer?  Continuar ensinando, sempre melhor.
>
> Quanto à questão original, bastante interessante, de "por qual lógica
> começar", suponho que um intuicionista empedernido responda de forma
> diferente que os clássicos de plantão.  Abundam livros na literatura,
> de fato, que apresentam a lógica intuicionista _antes_ de apresentar a
> clássica.  Por outro lado, certamente é útil para aplicações práticas,
> tanto na filosofia quanto na computação, apresentar ao aluno, em algum
> momento, lógicas modais ou lineares ou [coloque aqui a sua classe de
> lógicas preferida].
>
> Quanto à observação de que é difícil ensinar lógica intuicionista a
> partir de uma metamatemática inteiramente intuicionista, vale observar
> que a metamatemática clássica que usamos para ensinar lógica clássica
> proposicional ou de primeira ordem também costuma envolver lógica de
> ordem superior.  Logo, não parece ser tão fácil assim estudar um
> sistema lógico usando apenas os recursos deste próprio sistema (e isto
> é obviamente impossível, por exemplo, para sistemas lógicos
> proposicionais).  Qual será o mínimo de _matemática_ necessário para
> estudar sistemas lógicos básicos?  Não sei.  PRA?
>
> JM
>
>
> 2012/4/10 Décio Krause <[email protected]>:
> > Tony
> > Ok, retiro as palavras "mais intuitiva" (referindo-me à lógica
> clássica), deixando no entanto o "mais familiarizados". Isso certamente se
> deve a um acidente histórico ou coisa que o valha. Mas você parece requerer
> que os alunos tenham já de início todas as intuições sobre os porquês,
> coisa que eles irão adquirir na medida em que estudem o assunto, como por
> exemplo saber para que necessitamos provar um teorema como o da completude
> da lógica propositional clássica. Bom, uma vez, há muito tempo, colegas
> minhas tentaram iniciar ensinando aritmética comum a professores de ensino
> elementar na base 5. Deu um bafafá enorme, ninguém entendeu nada, mas pelo
> menos eles ficaram sabendo o tipo de dificuldade que os alunos deles tinham
> com a base 10. Uma ideia meio maluca, mas interessante.
> > D
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