Como você consegue reproduzir, na sua terminologia, a diferença entre
*regras derivadas* e *regras admissíveis*?

JM

2012/12/21 Tony Marmo <[email protected]>:
> Caríssimos participantes da lista,
>
>
>
> Estou em débito com algumas pessoas que apresentaram críticas pertinentes e
> de mui alto nível ao modo que eu vejo a formalização de certos sistemas,
> fora dessa lista. Aqui quero respeitosa e humildemente apresentar uma
> súmula muito parcelar de uma justificativa de uma parte dessa visão, no que
> tange a como tratar a distinção entre regras de inferência e axioma.
>
>
>
> A leitura atenta de Tópicos e dos Analíticos mostra duas coisas
> interessantes: primeiro que em Tópicos Aristóteles desenha o que seria um
> método universal de raciocinar e que poderia partir de dois pontos: ou
> ideias aceites como verdadeiras (no geral, universalmente, etc.) ou
> verdades que são óbvias por si mesmas, ou seja, axiomas. Aqui e ali,
> Aristóteles dá a entender que essas são suas verdades prediletas. Mas, em
> Analíticos, sua teoria dos silogismos está toda baseada em regras de
> inferência que ele expõe exaustivamente e com sucesso. Só pude encontrar
> "não-contradição" formulada como princípio mesmo em Metafísica Livro Gamma.
> Mas, aí seria um axioma ou princípio metafísico.
>
>
>
> Hoje em dia, a distinção entre axioma e regra de inferência pode ser
> colocada de vários modos, bastante fáceis. Por exemplo, basta dizer que a
> regra de inferência é um enunciado sobre o sistema, enquanto que os axiomas
> são enunciados no sistema. Ou ainda, que os axiomas são fórmulas sem
> premissas. O curioso é que os fundadores da moderna lógica clássica achavam
> interessante poder ter um rótulo geral para os axiomas e as regras de
> inferência, o de "leis de inferência". Eis um trecho de Frege, traduzido
> para o Inglês apud um artigo de Ian Proops:
>
>
>
> Traditionally, what is called an axiom is a thought whose truth is certain
> without, however, being provable by a chain of logical inferences. The *laws
> of logic*, too, are of this nature. Some people may nevertheless be
> inclined to refrain from ascribing the name 'axiom' to these *general laws
> of all inference*, [*allgemeinen Gesetze alles Schließens*] but rather wish
> to reserve it for the basic laws of a more restricted field. (Frege,
> "Foundations of Geometry: First Series," p. 319, in *Collected Papers*,
> Brian McGuinness, ed., trans. Hans Kaal et. al. (Oxford: Blackwell, 1980),
> pp. 273-284.)
>
>
>
> Semelhante posição encontramos da parte de Russell, por exemplo, no seu
> artigo "Necessity and Possibility," de 1905:
>
>
>
> There are certain general propositions, which we may enumerate as the *laws
> of deduction*: such are "if not-p is false, then p is true", "if p implies
> not-q, then q implies not-p" [and] "if p implies q and q implies r, then p
> implies r"; in all we need about ten such principles.... (Emphasis my own.)
>
>
>
> Para Russell, dedução e inferência significavam exatamente o mesmo.
>
>
>
> Não surpreendentemente, minha pesquisa acerca dos estoicos mostrou-me que
> os axiomas ou "indemonstráveis" da sua lógica podiam ser formulados hoje em
> dia como regras de inferência.
>
>
>
> Neste sentido, existe de fato uma tradição que me permite olhar os axiomas
> como na verdade "abreviações" ou "recursos mnemônicos" de regras de
> inferência.
>
>
>
> Vejamos o caso de uma regra modal como RD, que diz que de "X=>Y" se infere
> que "Necessário X => Possível Y". Destarte,
>
>
>
> "Necessário X => Possível X" (D)
>
>
>
> é apenas um resultado de RD, a partir da tese clássica X=>X. Mas, também o é
>
>
>
>  "Necessário X => Possível (Y=>X)".
>
>
>
> É possível usar qualquer um desses resultados como "indicativo" de que RD
> rege o sistema. Da mesma forma, a fórmula "Necessário Top" é muitas vezes
> referida como sendo usada no lugar de uma Regra de Necessitação, apenas por
> "ser mais curta de enunciar".
>
>
>
> É óbvio que nada disso tem o alcance de radicalmente sumir como a distinção
> entre regras de inferência de um lado e axiomas do outro. Apenas,
> relativiza essa distinção para preservar a ligação que deve existir e
> subsistir entre ambos conceitos.
>
>
>
> Espero que tenha conseguido exprimir meus pontos de vista. Em nada
> reivindico infalibilidade ou onisciência de minha parte.
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