Caro Bruno, caro Walter.

Muito obrigado pelas respostas! 

Não sei muito bem o que o Bruno quer dizer com a "perspectiva 
clássico-formal". De todo modo, em um curso de Lógica I, é costumeiro 
começar com as noções de lógica tratadas de maneira informal. Nessa parte, 
explicamos o que é um argumento, o que é uma prova (informal), o que é um 
contraexemplo, uma premissa, etc. Os livros introdutórios de lógica variam 
na profundidade destinada a essa parte informal (o do Mortari, p. ex., 
destina cerca de 50 páginas; o Hurley, em "A concise introduction to 
logic", demora 200 páginas para chegar ao tratamento formal, o que torna o 
título do livro um tanto quanto hilário). Nesta parte informal, definimos o 
que é um argumento, o que é validade dedutiva, etc. Um argumento é definido 
tipicamente como um conjunto de (pelo menos duas) sentenças, em que uma é 
chamada de conclusão do argumento e as outras são as premissas do 
argumento. Adiciona-se a essa definição a intenção de que as premissas 
forneçam alguma justificação para a verdade da conclusão. Muito bem. Vamos 
considerar o argumento composto de uma premissa e de uma conclusão: "Todos 
os homens são mortais. Logo, Sócrates é mortal". A questão é: este 
argumento ele é dedutivamente válido ou não? Bom, imagino que isso dependa 
da definição de validade dedutiva. Walter diz que a premissa "Sócrates é 
homem" deve ser acrescida para tornar o argumento [dedutivamente] válido. 
Infiro disso que ele não considera o argumento tal como ele se apresenta 
acima como *já* dedutivamente válido. A questão é: por que ele não o seria? 

Por isso, insisto na minha pergunta inicial: qual é a definição de validade 
dedutiva que vocês usam? 

Bruno, em relação à analiticidade, não sei como você a entende, mas no meu 
uso (mas, veja, também, o uso que Kripke faz do termo em N&N) do termo um 
enunciado analítico é tanto necessário quanto *a priori*. De modo que tua 
sentença "o argumento é analítico mas não é alvo de conhecimento a priori" 
me soa como uma contradição em termos.

Abraços,

Anderson

Em domingo, 25 de abril de 2021 às 16:14:42 UTC-3, carniell escreveu:

> Caro Anderson
> c/c tod@s
>
> Já discutimos um pouco me privado, mas com a discussão está atraindo
> a atenção (pelo menos do meu ex-orientando Bruno Ramos, com su
> análises. cuidadosas) talvez seja melhor tomar a pública a discussão:
>
> Sim, Anderson, você tem razão quando diz que pode-se tratar o caso
> como um entimema (ou argumento com premissas ocultas).
>
> Contudo, acho que se trata de uma questão de posição quanto às
> premissas ocultas : se queremos tratar uma dedução (ou argumento)
> como. por exemplo
>
> "Todos os homens são mortais. logo Sócrates é mortal", temos dois
> pontos de vista distintos:
> 1) Do ponto de vista da lógica formal estrita , como seria em
> "machine learning", o argumento é simplesmente inválido.
>
> 2) Se, por. outro lado, decidimos tratar o caso do ponto da vista
> da. lógica. informal (argumentação, dialética. ou racionalidade.
> discursiva) aí temos o recurso do
> Princípio da Caridade, ou Princípio da Reconstrução Racional. Embora
> de um ponto de vista lógico-formal um raciocínio possa ser
> incompleto, o Princípio da Caridade é uma tentativa de interpretar
> o raciocínio de uma pessoa de forma que seja o mais completo e sem
> confusão possível. Nesse caso, acrescentamos a premissa faltante,
> "Sòcrates éhomem", que é aquela que toma o raciocínio válido.
>
> Não vejo grandes questões filosóficas aí: é uma questão de se decidir
> qual jogo estamos jogando - se o da lógica estrita, ou o da
> argumentação humana.
> Abraços,
>
> Walter
>
>
> Em dom., 25 de abr. de 2021 às 12:41, bruno.ramos.mendonca
> <[email protected]> escreveu:
> >
> > Olá, Anderson e todos:
> >
> > >> É, entretanto, embaraçoso aceitar argumentos do tipo: Héspero é o 
> planeta Vênus. Logo, Fósforo é o planeta Vênus
> > >como dedutivamente válidos.
> >
> > Eu apresentaria um pouco diferente. Da perspectiva clássico-formal 
> abordada em um curso de Lógica I, esse argumento não tem a sua validade 
> reconhecida. Contudo, divergindo do caso clássico, há boas razões para 
> pensar que ele é válido e, o que é mais interessante, é um caso 
> paradigmático de falha do princípio de onisciência lógica (aceito em 
> sistemas normais de lógica epistêmica). Seguindo uma sugestão recorrente na 
> literatura da área, eu argumento nesse sentido em: 
> https://scholar.googleusercontent.com/scholar?q=cache:QBVLJ5zOT4oJ:scholar.google.com/+perspectiva+filos%C3%B3fica+b+r+mendon%C3%A7a+onisci%C3%AAncia+l%C3%B3gica&hl=pt-BR&as_sdt=0,5
> >
> > Mas isso levanta boas questões: seria esse argumento materialmente 
> válido? Talvez o ponto seja fazer jus a certa crítica possível à ideia de 
> que a lógica é essencialmente formal... (pessoalmente, não acho que tenha a 
> ver com a distinção analítico-sintético: o argumento é analítico mas não é 
> alvo de conhecimento a priori).
> >
> > Abraços
> > Bruno
> >
> > --
> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos 
> Grupos do Google.
> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
> envie um e-mail para [email protected].
> > Para ver essa discussão na Web, acesse 
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/2d5979d5-b029-4a76-a02b-7d8043ee63f4n%40dimap.ufrn.br
> .
>
>
>
> -- 
> ===========================
> Walter Carnielli, Professor
> Centre for Logic, Epistemology and the History of Science and
> Department of Philosophy
> University of Campinas –UNICAMP
> 13083-859 Campinas -SP, Brazil
> Phone: (+55) (19) 3521-6517 <+55%2019%203521-6517>
> Institutional e-mail: [email protected]
> Website: http://www.cle.unicamp.br/prof/carnielli
>

-- 
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos 
Grupos do Google.
Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
e-mail para [email protected].
Para ver esta discussão na web, acesse 
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4af89c68-98a7-4d9c-a02b-927b61138941n%40dimap.ufrn.br.

Responder a