Olá, Anderson e Walter:

Seguem mais dois comentários.

1. Sobre a possibilidade de formalizar os argumentos apresentados pelo 
Anderson. Certamente pode-se apresentar a validade desses argumentos 
formalmente com a adição de premissas "entinemáticas", tal como sugere 
Walter. No entanto, acho que é importante notar que, na discussão sobre se 
há argumentos materialmente válidos, a função da formalização pode ser lida 
de dois modos distintos: i) por um lado, pode-se entender que, se o 
argumento é válido, sua validade pode ser *explicitada* formalmente; ii) 
por outro lado, pode-se entender que o argumento é válido *por conta* de 
sua reconstrução formal. (ii) é muito mais forte que (i). (i) é a tese 
definidora do que se chama expressivismo lógico na filosofia da lógica 
corrente e é compatível com a ideia de que há argumentos materialmente 
válidos.

Aqui cabe um parênteses: no artigo que mencionei na minha intervenção 
anterior, eu examino umas generalizações do primeiro argumento apresentado 
por Anderson que não podem ser melhorados com a adição de premissas 
entinemáticas -- ao menos, não em primeira ordem. Isso envolveria recursos 
especificamente de 2a ordem.

2. Sobre analiticidade e o a priori: Analiticidade é uma categoria 
semântica, i.e., ser analítico é ser verdadeiro por conta do significado. 
Já aprioridade é uma categoria epistemológica. Os argumentos que você 
apresenta são válidos por conta do significado -- note que isso fica 
explícito quando se adicionam as premissas entinemáticas. Por outro lado, 
se os argumentos forem válidos materialmente, i.e., mesmo sem a adição das 
premissas entinemáticas, então essa validade pode não estar dada ao sujeito 
cognoscente a priori.

Em domingo, 25 de abril de 2021 às 16:43:00 UTC-3, Anderson Nakano escreveu:

> Caro Bruno, caro Walter.
>
> Muito obrigado pelas respostas! 
>
> Não sei muito bem o que o Bruno quer dizer com a "perspectiva 
> clássico-formal". De todo modo, em um curso de Lógica I, é costumeiro 
> começar com as noções de lógica tratadas de maneira informal. Nessa parte, 
> explicamos o que é um argumento, o que é uma prova (informal), o que é um 
> contraexemplo, uma premissa, etc. Os livros introdutórios de lógica variam 
> na profundidade destinada a essa parte informal (o do Mortari, p. ex., 
> destina cerca de 50 páginas; o Hurley, em "A concise introduction to 
> logic", demora 200 páginas para chegar ao tratamento formal, o que torna o 
> título do livro um tanto quanto hilário). Nesta parte informal, definimos o 
> que é um argumento, o que é validade dedutiva, etc. Um argumento é definido 
> tipicamente como um conjunto de (pelo menos duas) sentenças, em que uma é 
> chamada de conclusão do argumento e as outras são as premissas do 
> argumento. Adiciona-se a essa definição a intenção de que as premissas 
> forneçam alguma justificação para a verdade da conclusão. Muito bem. Vamos 
> considerar o argumento composto de uma premissa e de uma conclusão: "Todos 
> os homens são mortais. Logo, Sócrates é mortal". A questão é: este 
> argumento ele é dedutivamente válido ou não? Bom, imagino que isso dependa 
> da definição de validade dedutiva. Walter diz que a premissa "Sócrates é 
> homem" deve ser acrescida para tornar o argumento [dedutivamente] válido. 
> Infiro disso que ele não considera o argumento tal como ele se apresenta 
> acima como *já* dedutivamente válido. A questão é: por que ele não o 
> seria? 
>
> Por isso, insisto na minha pergunta inicial: qual é a definição de 
> validade dedutiva que vocês usam? 
>
> Bruno, em relação à analiticidade, não sei como você a entende, mas no meu 
> uso (mas, veja, também, o uso que Kripke faz do termo em N&N) do termo um 
> enunciado analítico é tanto necessário quanto *a priori*. De modo que tua 
> sentença "o argumento é analítico mas não é alvo de conhecimento a priori" 
> me soa como uma contradição em termos.
>
> Abraços,
>
> Anderson
>
> Em domingo, 25 de abril de 2021 às 16:14:42 UTC-3, carniell escreveu:
>
>> Caro Anderson 
>> c/c tod@s 
>>
>> Já discutimos um pouco me privado, mas com a discussão está atraindo 
>> a atenção (pelo menos do meu ex-orientando Bruno Ramos, com su 
>> análises. cuidadosas) talvez seja melhor tomar a pública a discussão: 
>>
>> Sim, Anderson, você tem razão quando diz que pode-se tratar o caso 
>> como um entimema (ou argumento com premissas ocultas). 
>>
>> Contudo, acho que se trata de uma questão de posição quanto às 
>> premissas ocultas : se queremos tratar uma dedução (ou argumento) 
>> como. por exemplo 
>>
>> "Todos os homens são mortais. logo Sócrates é mortal", temos dois 
>> pontos de vista distintos: 
>> 1) Do ponto de vista da lógica formal estrita , como seria em 
>> "machine learning", o argumento é simplesmente inválido. 
>>
>> 2) Se, por. outro lado, decidimos tratar o caso do ponto da vista 
>> da. lógica. informal (argumentação, dialética. ou racionalidade. 
>> discursiva) aí temos o recurso do 
>> Princípio da Caridade, ou Princípio da Reconstrução Racional. Embora 
>> de um ponto de vista lógico-formal um raciocínio possa ser 
>> incompleto, o Princípio da Caridade é uma tentativa de interpretar 
>> o raciocínio de uma pessoa de forma que seja o mais completo e sem 
>> confusão possível. Nesse caso, acrescentamos a premissa faltante, 
>> "Sòcrates éhomem", que é aquela que toma o raciocínio válido. 
>>
>> Não vejo grandes questões filosóficas aí: é uma questão de se decidir 
>> qual jogo estamos jogando - se o da lógica estrita, ou o da 
>> argumentação humana. 
>> Abraços, 
>>
>> Walter 
>>
>>
>> Em dom., 25 de abr. de 2021 às 12:41, bruno.ramos.mendonca 
>> <[email protected]> escreveu: 
>> > 
>> > Olá, Anderson e todos: 
>> > 
>> > >> É, entretanto, embaraçoso aceitar argumentos do tipo: Héspero é o 
>> planeta Vênus. Logo, Fósforo é o planeta Vênus 
>> > >como dedutivamente válidos. 
>> > 
>> > Eu apresentaria um pouco diferente. Da perspectiva clássico-formal 
>> abordada em um curso de Lógica I, esse argumento não tem a sua validade 
>> reconhecida. Contudo, divergindo do caso clássico, há boas razões para 
>> pensar que ele é válido e, o que é mais interessante, é um caso 
>> paradigmático de falha do princípio de onisciência lógica (aceito em 
>> sistemas normais de lógica epistêmica). Seguindo uma sugestão recorrente na 
>> literatura da área, eu argumento nesse sentido em: 
>> https://scholar.googleusercontent.com/scholar?q=cache:QBVLJ5zOT4oJ:scholar.google.com/+perspectiva+filos%C3%B3fica+b+r+mendon%C3%A7a+onisci%C3%AAncia+l%C3%B3gica&hl=pt-BR&as_sdt=0,5
>>  
>> > 
>> > Mas isso levanta boas questões: seria esse argumento materialmente 
>> válido? Talvez o ponto seja fazer jus a certa crítica possível à ideia de 
>> que a lógica é essencialmente formal... (pessoalmente, não acho que tenha a 
>> ver com a distinção analítico-sintético: o argumento é analítico mas não é 
>> alvo de conhecimento a priori). 
>> > 
>> > Abraços 
>> > Bruno 
>> > 
>> > -- 
>> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos 
>> Grupos do Google. 
>> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para [email protected]. 
>> > Para ver essa discussão na Web, acesse 
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/2d5979d5-b029-4a76-a02b-7d8043ee63f4n%40dimap.ufrn.br.
>>  
>>
>>
>>
>>
>> -- 
>> =========================== 
>> Walter Carnielli, Professor 
>> Centre for Logic, Epistemology and the History of Science and 
>> Department of Philosophy 
>> University of Campinas –UNICAMP 
>> 13083-859 Campinas -SP, Brazil 
>> Phone: (+55) (19) 3521-6517 <+55%2019%203521-6517> 
>> Institutional e-mail: [email protected] 
>> Website: http://www.cle.unicamp.br/prof/carnielli 
>>
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