Oi Anderson (e colegas),

A questão é muito boa. Eu não vejo grandes problemas com a definição de 
validade do P. Smith que você citou.

"Um argumento é dedutivamente válido se não há situação possível que torna as 
premissas do argumento verdadeiras e a conclusão falsa".

Só precisamos lembrar que ela é uma definição aberta ou incompleta. Para 
completá-la, precisamos, como sugeriu o Cezar, pelo menos responder à pergunta:

 - Quais situações (estados de coisas) são admissíveis (possíveis), e quais não 
são?

Com esta pergunta em mente, podemos definir diferentes validades:

.Validade nomológica:
 - não são admissíveis situações que violam as "leis da ciência".

.Validade conceitual (ou analítica):
 - não são admissíveis situações que violam as relações entre nossos conceitos 
(ou seja, situações que alteram os significados das palavras).

.Validade formal:
 - não são admissíveis situações que violam os conceitos formais (lógicos), ou 
seja, o "significado dos operadores lógicos" E, OU, NÃO, SE...ENTÃO, ALGUM, 
TODO,...

Se você fizer assim, então os casos embaraçosos, podem ser classificados como 
conceitualmente válidos, ou nomologicamente válidos, mas não como formalmente 
válidos.

"Héspero é o planeta Vênus. Logo, Fósforo é o planeta Vênus" é nomologicamente 
válido, dado que qualquer contraexemplo deste argumento precisa violar a 
identidade entre Héspero e Fósforo, que é um fato científico. Mas este 
argumento não é formalmente válido, porque uma situação em que Héspero não é 
Fósforo é contraexemplo do argumento e não viola nenhum dos conceitos formais.

O argumento "Antônio é solteiro. Logo, ele não é casado", por exemplo, é 
conceitualmente válido, pois qualquer contraexemplo teria que violar a relação 
entre os conceitos de solteiro e casado. Mas este argumento não é logicamente 
válido, porque quando é permitido dar outros significados às palavras, podemos 
admitir situações em que Antônio é ambos, solteiro e casado.

Já o argumento "Todos os homens são mortais. Logo, Sócrates é mortal" me parece 
diferente dos outros. Se fosse "Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal" ele 
seria nomologicamente válido, já que a mortalidade humana é um fato científico. 
Mas do jeito que você propõe, me parece um entimema e será logicamente válido, 
aplicando o princípio da caridade, conforme o Walter sugeriu, em qualquer 
contexto em que esteja claro que Sócrates é um ser humano. 

A vantagem de definir a validade assim, através de situações (estados de 
coisas), é que fica bem fácil explicar para os alunos iniciantes tanto o 
caráter formal da lógica, quanto a existência de lógicas não-clássicas.

A lógica é formal porque quase tudo cabe nas situações que ela admite: os 
elefantes serem solúveis em água, a lua ser uma bola de queijo, pessoas serem 
solteiras e casadas,... as únicas situações inadmissíveis são aqueles que 
violam os significados dos conceitos formais (lógicos) E, OU, NÃO,...

E as lógicas não-clássicas tornam-se inteligíveis porque é fácil entender que 
podemos conceber interpretações alternativas para os conceitos formais. A 
interpretação clássica é bivalente. A sentença "João é careca" tem que ser 
verdadeira ou falsa em qualquer situação admissível. Mas ainda que inadmissível 
classicamente, uma situação em que a sentença "João é careca" não é nem 
verdadeira nem falsa é concebível. João pode ter cabelo ralo, pode estar no 
limite da calvície, de modo que seria injusto classificar tanto como verdadeira 
quanto como falsa a sentença "João é careca". Pronto, temos aqui um ponto de 
partida simples para explicar por que faz sentido haver lógicas alternativas 
que violam, por exemplo, o princípio do terceiro excluído.

No "Para Todxs: Natal" (http://tiny.cc/wwpksz), seguindo a proposta do 
"forallx: Calgary" (http://forallx.openlogicproject.org/forallxyyc-print.pdf), 
seguimos este caminho.

Saudações,
Daniel
-----
Departamento de Filosofia - (UFRN)
http://danieldurante.weebly.com

> On 24 Apr 2021, at 21:36, Anderson Nakano <[email protected]> wrote:
> 
> 
> Caros, essa pergunta é para quem leciona Lógica I...
> 
> Qual é a definição de validade dedutiva que vocês usam? Eu uso como base o 
> livro do P. Smith (IFL II), e a definição (que é comum) é a seguinte: "Um 
> argumento é dedutivamente válido se não há situação possível que torna as 
> premissas do argumento verdadeira e a conclusão falsa".
> 
> É, entretanto, embaraçoso aceitar argumentos do tipo: 
> 
> Héspero é o planeta Vênus. Logo, Fósforo é o planeta Vênus
> 
> como dedutivamente válidos. Ou ainda
> 
> Todos os homens são mortais. Logo, Sócrates é mortal
> 
> (peço que aceite que não há situação possível em que Sócrates não seja um 
> homem).
> 
> No livro Lógica Elementar, Desidério Murcho faz uma distinção entre 
> possibilidades aléticas e conceituais para se esquivar desse tipo de 
> embaraço. Isso depende, entretanto, da distinção analítico/sintético (não que 
> isso seja, por si só, problemático, mas, a meu ver, evitá-la seria uma 
> vantagem).
> 
> Gostaria de saber como vocês abordam essa questão (se abordam) no curso de 
> vocês.
> 
> Abraços a todos,
> 
> Anderson
> 
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