Caro Bruno, caro Mortari Bruno, obrigado pelos comentários. Vou ler o teu artigo, obrigado pela indicação.
Mortari, obrigado pela descrição da tua maneira de abordar o conceito de validade nos teus cursos. Seguindo um pouco o livro do P. Smith (IFL2), eu optei por distinguir entre validade dedutiva e validade lógica. Um argumento seria logicamente válido, de acordo com essa distinção, apenas se for dedutivamente válido em virtude de noções neutras quanto ao tópico (o que inclui, é claro, as noções que serão formalizadas na parte formal). Digo depois que vamos nos concentrar nessa noção de validade e, quanto à noção de validade dedutiva, sua elucidação envolveria problemas de natureza filosófico/metafísica que fogem ao escopo do curso. Ainda assim, fiquei curioso para saber como os colegas do grupo procedem em seus respectivos cursos, por isso enviei a mensagem. Ainda me interesso por respostas de outros colegas que quiserem se manifestar, e agradeço de antemão! Abraço a todos, Anderson Em domingo, 25 de abril de 2021 às 17:15:29 UTC-3, cmortari escreveu: > Caro Anderson, > > em meu curso de Lógica I eu apresento uma concepção semelhante à que > vocẽ mencionou sobre validade de um argumento. Um argumento é válido se > sua conclusão é consequência lógica as premissas -- ou seja, se não é > possível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Mas > apresento isso como uma concepção informal, pré-teórica do que seja > validade -- pois é preciso explicitar o que se entende aí, por exemplo, > por 'possível'. > > Do meu ponto de vista, os exemplos de argumento que vocẽ apresentou, > isto é: > > (1) Héspero é o planeta Vênus. Logo, Fósforo é o planeta Vênus. > > (2) Todos os homens são mortais. Logo, Sócrates é mortal. > > não são válidos. Onde está escrito que Héspero é Fósforo, ou que > Sócrates é humano? > > Na direção do que diz Walter, também considero um argumento como (2) um > entimema -- todo mundo sabe que Sócrates é humano, não precisa > explicitar etc. > > Para um exemplo parecido: > > (3) João tem duas maçãs e duas laranjas. Logo, João tem quatro frutas. > > Também não seria válido: estamos pressupondo que maçãs e laranjas são > frutas, e também que 2 + 2 = 4! Você poderia dizer que a conclusão é uma > consequência biológico-aritmética da premissa ... mas acho estranho > dizer que é consequência lógica. > > Se você diz: "peço que aceite que não há situação possível em que > Sócrates não seja um homem". Veja, na minha opinião você já está > pressupondo por trás disso uma concepção metafísica segundo a qual > humanos são essencialmente humanos. Para um exemplo desse tipo, veja > este, que vem da Idade Média: > > (4) Sócrates é uma pedra. Logo, Sócrates é um asno. > > A conclusão seria consequência necessária (metafísica?) da premissa, > pois entende-se que é impossível que Sócrates seja uma pedra, por ser > essencialmente humano. Um exemplo de que do impossível tudo se segue. > Seria um caso de consequência necessária, como seus exemplos (1) e (2) > > Mas eu não diria que a conclusão de (4) é consequência lógica -- > consequência dedutiva -- da premissa. > > Além disso tudo, acho que temos a questão também de saber de que lógica > estamos falando. Um argumento pode ser dedutivamente válido na lógica L1 > e não em L2. > > Para finalizar, a questão do que seja consequência lógica é > interessantíssima. O que digo às minhas turmas é que temos diferentes > teorias (lógicas) que tentam precisar essa noção informal do "sempre que > as premissas são verdadeiras, a conclusão também é" (ou variações > disso). > > Abraços, > > Cezar > > > > > > Em 2021-04-25 16:42, Anderson Nakano escreveu: > > Caro Bruno, caro Walter. > > > > Muito obrigado pelas respostas! > > > > Não sei muito bem o que o Bruno quer dizer com a "perspectiva > > clássico-formal". De todo modo, em um curso de Lógica I, é > > costumeiro começar com as noções de lógica tratadas de maneira > > informal. Nessa parte, explicamos o que é um argumento, o que é uma > > prova (informal), o que é um contraexemplo, uma premissa, etc. Os > > livros introdutórios de lógica variam na profundidade destinada a > > essa parte informal (o do Mortari, p. ex., destina cerca de 50 > > páginas; o Hurley, em "A concise introduction to logic", demora 200 > > páginas para chegar ao tratamento formal, o que torna o título do > > livro um tanto quanto hilário). Nesta parte informal, definimos o que > > é um argumento, o que é validade dedutiva, etc. Um argumento é > > definido tipicamente como um conjunto de (pelo menos duas) sentenças, > > em que uma é chamada de conclusão do argumento e as outras são as > > premissas do argumento. Adiciona-se a essa definição a intenção de > > que as premissas forneçam alguma justificação para a verdade da > > conclusão. Muito bem. Vamos considerar o argumento composto de uma > > premissa e de uma conclusão: "Todos os homens são mortais. Logo, > > Sócrates é mortal". A questão é: este argumento ele é > > dedutivamente válido ou não? Bom, imagino que isso dependa da > > definição de validade dedutiva. Walter diz que a premissa "Sócrates > > é homem" deve ser acrescida para tornar o argumento [dedutivamente] > > válido. Infiro disso que ele não considera o argumento tal como ele > > se apresenta acima como _já_ dedutivamente válido. A questão é: > > por que ele não o seria? > > > > Por isso, insisto na minha pergunta inicial: qual é a definição de > > validade dedutiva que vocês usam? > > > > Bruno, em relação à analiticidade, não sei como você a entende, > > mas no meu uso (mas, veja, também, o uso que Kripke faz do termo em > > N&N) do termo um enunciado analítico é tanto necessário quanto _a > > priori_. De modo que tua sentença "o argumento é analítico mas não > > é alvo de conhecimento a priori" me soa como uma contradição em > > termos. > > > > Abraços, > > > > Anderson > > > > Em domingo, 25 de abril de 2021 às 16:14:42 UTC-3, carniell escreveu: > > > >> Caro Anderson > >> c/c tod@s > >> > >> Já discutimos um pouco me privado, mas com a discussão está > >> atraindo > >> a atenção (pelo menos do meu ex-orientando Bruno Ramos, com su > >> análises. cuidadosas) talvez seja melhor tomar a pública a > >> discussão: > >> > >> Sim, Anderson, você tem razão quando diz que pode-se tratar o caso > >> > >> como um entimema (ou argumento com premissas ocultas). > >> > >> Contudo, acho que se trata de uma questão de posição quanto às > >> premissas ocultas : se queremos tratar uma dedução (ou argumento) > >> como. por exemplo > >> > >> "Todos os homens são mortais. logo Sócrates é mortal", temos dois > >> > >> pontos de vista distintos: > >> 1) Do ponto de vista da lógica formal estrita , como seria em > >> "machine learning", o argumento é simplesmente inválido. > >> > >> 2) Se, por. outro lado, decidimos tratar o caso do ponto da vista > >> da. lógica. informal (argumentação, dialética. ou racionalidade. > >> > >> discursiva) aí temos o recurso do > >> Princípio da Caridade, ou Princípio da Reconstrução Racional. > >> Embora > >> de um ponto de vista lógico-formal um raciocínio possa ser > >> incompleto, o Princípio da Caridade é uma tentativa de interpretar > >> > >> o raciocínio de uma pessoa de forma que seja o mais completo e sem > >> confusão possível. Nesse caso, acrescentamos a premissa faltante, > >> "Sòcrates éhomem", que é aquela que toma o raciocínio válido. > >> > >> Não vejo grandes questões filosóficas aí: é uma questão de se > >> decidir > >> qual jogo estamos jogando - se o da lógica estrita, ou o da > >> argumentação humana. > >> Abraços, > >> > >> Walter > >> > >> Em dom., 25 de abr. de 2021 às 12:41, bruno.ramos.mendonca > >> <[email protected]> escreveu: > >>> > >>> Olá, Anderson e todos: > >>> > >>>>> É, entretanto, embaraçoso aceitar argumentos do tipo: > >> Héspero é o planeta Vênus. Logo, Fósforo é o planeta Vênus > >>>> como dedutivamente válidos. > >>> > >>> Eu apresentaria um pouco diferente. Da perspectiva > >> clássico-formal abordada em um curso de Lógica I, esse argumento > >> não tem a sua validade reconhecida. Contudo, divergindo do caso > >> clássico, há boas razões para pensar que ele é válido e, o que > >> é mais interessante, é um caso paradigmático de falha do > >> princípio de onisciência lógica (aceito em sistemas normais de > >> lógica epistêmica). Seguindo uma sugestão recorrente na > >> literatura da área, eu argumento nesse sentido em: > >> > > > https://scholar.googleusercontent.com/scholar?q=cache:QBVLJ5zOT4oJ:scholar.google.com/+perspectiva+filos%C3%B3fica+b+r+mendon%C3%A7a+onisci%C3%AAncia+l%C3%B3gica&hl=pt-BR&as_sdt=0,5 > >> > >>> > >>> Mas isso levanta boas questões: seria esse argumento > >> materialmente válido? Talvez o ponto seja fazer jus a certa > >> crítica possível à ideia de que a lógica é essencialmente > >> formal... (pessoalmente, não acho que tenha a ver com a distinção > >> analítico-sintético: o argumento é analítico mas não é alvo de > >> conhecimento a priori). > >>> > >>> Abraços > >>> Bruno > >>> > >>> -- > >>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo > >> "LOGICA-L" dos Grupos do Google. > >>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails > >> dele, envie um e-mail para [email protected]. > >>> Para ver essa discussão na Web, acesse > >> > > > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/2d5979d5-b029-4a76-a02b-7d8043ee63f4n%40dimap.ufrn.br > . > >> > >> > >> -- > >> =========================== > >> Walter Carnielli, Professor > >> Centre for Logic, Epistemology and the History of Science and > >> Department of Philosophy > >> University of Campinas –UNICAMP > >> 13083-859 Campinas -SP, Brazil > >> Phone: (+55) (19) 3521-6517 [1] > >> Institutional e-mail: [email protected] > >> Website: http://www.cle.unicamp.br/prof/carnielli > > > > -- > > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" > > dos Grupos do Google. > > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, > > envie um e-mail para [email protected]. > > Para ver essa discussão na Web, acesse > > > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4af89c68-98a7-4d9c-a02b-927b61138941n%40dimap.ufrn.br > > [2]. > > > > > > Links: > > ------ > > [1] tel:+55%2019%203521-6517 > > [2] > > > https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4af89c68-98a7-4d9c-a02b-927b61138941n%40dimap.ufrn.br?utm_medium=email&utm_source=footer > -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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