Talvez esta msg , veiculada nas listas do IME-USP, seja de interesse aos
membros desta lista, como informação para uma das discussões que estão
rolando na rede.

Em particular, não  concordo  com a afirmação "".

[]s

Marcelo

---------- Forwarded message ---------
From: Vinicius de Oliveira Rodrigues <[email protected]>
Date: Sun, Aug 16, 2026 at 11:25 PM
Subject: A IA nos deu a resposta de um problema de 73 anos, e agora?
To: professores IME <[email protected]>


Prezados colegas,

Gostaria de compartilhar uma experiência recente de pesquisa que me
convenceu de que precisamos discutir, com maior urgência, o impacto da
inteligência artificial sobre a matemática, sobre a formação de nossos
alunos e sobre a própria organização da pesquisa matemática. Não me parece
mais adequado tratar esse assunto como algo que talvez venha a acontecer
nos próximos anos. Está acontecendo agora, e está acontecendo comigo.

Na semana passada, eu e Juliane Trianon-Fraga, doutora em Matemática por
este Instituto, chegamos com o GPT-5.6 Sol à solução de um problema
clássico de topologia: o problema de Wallace, formulado na década de 1950,
que pergunta, em uma de suas formas, se existe um semigrupo topológico
Hausdorff enumeravelmente compacto, com cancelamento dos dois lados, que
não seja um grupo.

O problema permaneceu aberto por mais de 70 anos. Há uma literatura extensa
em torno dele, com soluções sob hipóteses adicionais de teoria dos
conjuntos e muitos resultados parciais. Nós mesmos já havíamos trabalhado
anteriormente com problemas e construções relacionadas em nossos doutorados
e também posteriormente.

Fornecemos ao GPT-5.6 Sol, por meio do ChatGPT Work, links no arXiv para
dois artigos recentes sobre um problema relacionado — a existência de uma
topologia de grupo enumeravelmente compacta sem sequências convergentes não
triviais no grupo abeliano livre de cardinalidade c. Esse problema tinha ao
menos 35 anos. Apesar de ter fortes ligações com o Wallace, nunca mencionei
ao ChatGPT o problema de Wallace, naquela ou em nenhuma interação anterior.
Enfim, fornecemos os links para os dois artigos e pedimos que ele
melhorasse as técnicas que constavam ali e resolvesse definitivamente esse
outro problema. O modelo respondeu duas horas depois dizendo que não havia
conseguido, pois as técnicas precisariam ser fortalecidas, sem esclarecer
muito o que ele quis dizer com isso. Dei uma instrução simples mandando-o
fortalecer, sem dar nenhuma instrução sobre o que ou como.

Cerca de 40 minutos depois, o modelo devolveu um resultado substancialmente
mais forte: todo grupo abeliano livre de torção de cardinalidade continuum
admite, em ZFC, uma topologia de grupo Hausdorff enumeravelmente compacta
sem sequências convergentes não triviais. Isso resolve de uma só vez
diversas questões abertas da área. E, sem eu solicitar nada em nenhum
momento, ele adicionou que "como corolário da construção, construiu um
semigrupo de Wallace em ZFC".

Eu e Juliane já tínhamos experiência nesse problema, e, espantados,
revisamos cuidadosamente os argumentos. Estamos convencidos da correção do
argumento e fomos capazes de simplificá-lo substancialmente em alguns
pontos (com e sem ajuda de IA, nesse processo). Mesmo assim, cético com o
resultado, solicitei ao próprio modelo que produzisse uma formalização em
Lean 4 da demonstração, de forma incondicional. Após duas horas, ele me
entregou essa formalização. Checamos se os resultados estavam corretamente
formulados na formalização, e submetemos o código a diversas auditorias,
inclusive dos enunciados efetivamente provados e dos axiomas utilizados.

Sem IA, esse resultado seria um acontecimento extremamente relevante e
reconhecido na área, trazendo bastante prestígio a quem o obtivesse. Porém,
nesse caso, a esmagadora maioria do trabalho foi  realizada pelo modelo em
um intervalo de tempo absurdamente curto, a partir de instruções humanas
muito pouco estruturadas. Por isso, gostaria que todos refletissem sobre o
impacto sério que essa ferramenta *já está tendo* na comunidade. Não estou
escrevendo isto para afirmar que “a matemática acabou”, nem que matemáticos
deixaram de ter trabalho. Discordo disso — tenho ideias sobre que
direção podemos seguir, e gostaria de ouvir a dos colegas e conversar mais
a respeito com a comunidade. Mas acho difícil olhar para o que aconteceu e
concluir que podemos continuar formando matemáticos* exatamente* como
fazíamos até agora, sobretudo na pós-graduação. Isso levanta questões que
considero urgentes para o IME:

* O que deve significar hoje uma tese de doutorado/dissertação de mestrado?
E um projeto de tese/dissertação?
* Como preparar nossos alunos para essa nova realidade?
* Quais as melhores formas de conduzir pesquisa nesse contexto em que a IA
reduz trabalhos de anos em dias?

É importante também ter em mente que a IA não para de avançar... alguns
alunos já têm me procurado espontaneamente, bastante preocupados com essas
questões. Acredito ter boas ideias sobre como orientar alunos a partir de
agora, mas entendo que sobretudo o esperado de um mestrado/doutorado será
decidido pela comunidade, e, por isso, gostaria, com este e-mail, de
fomentar essa discussão.

Abaixo, seguem os links do preprint com a solução dos problemas que expus
nesse e-mail.

Repositório do GitHub com .tex e os arquivos do Lean: The Wallace problem
and countably compact group topologies on torsion-free Abelian groups in ZFC
<https://vo-rodrigues.github.io/wallace-problem-zfc-paper/wallace-preprint.pdf>
Link direto para o PDF: The Wallace problem and countably compact group
topologies on torsion-free Abelian groups in ZFC
<https://vo-rodrigues.github.io/wallace-problem-zfc-paper/wallace-preprint.pdf>

Obs.: os em-dash desse e-mail não foram gerados por IA.

Abraços,
Vinicius

Vinicius de Oliveira Rodrigues

Professor Doutor

Departamento de Matemática

Tel: (11) 2648.6580

Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação

Universidade de São Paulo

Rua do Matão, 1010 - CEP 05508-090 - São Paulo, SP

www.ime.usp.br

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Marcelo Finger
 Departament of Computer Science, IME-USP
 http://www.ime.usp.br/~mfinger
 ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1391-1175
 ResearcherID: A-4670-2009

Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação

Universidade de São Paulo

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