Li os dois artigos, Bismarck!

Obrigado por compartilhar! Acho que essa vereda filosófica aí é
promissora...

Hoje assisti também esse vídeo aqui do Cloves, vale muito a pena, pois é
depoimento pessoal, sincero, certamente reflete o que se passa na mente de
muitos estudantes e mesmo de profissionais:

https://youtu.be/JU3mecWIujc?si=C3zTcttAqePIn6iv

Pena que não podemos ver como está progredindo a discussão na lista dos
professores do IME-USP! Em épocas de revolução tecnológica, deveria haver
uma regra: abrir as listas de e-mail e compartilhar todas as reflexões!
Haha... (Brincadeira.)

O Adolfo mencionou o aspecto da sustentabilidade... Parece que não há nada
sustentável ou possivelmente duradouro no sistema atual: o treinamento é
caro, a infraestrutura é toda privada, não houve ainda retorno em termos de
ganho de produtividade para as empresas, a bolha da IA tende a estourar em
breve, etc. Talvez essa tecnologia regrida, desabe, mais ou menos como
aconteceu com a energia nuclear... Foi sem dúvida uma revolução, mas não
parece haver nenhuma forma segura de usá-la, então a coisa foi meio que
abandonada (dá pra fazer bombas, coisas que explodem, fora isso a coisa é
complicada)... Isso pode acontecer com o modelo atual, uma regressão... Mas
o problema propriamente epistêmico, filosófico, não desaparece: em vez de
máquinas que produzem coisas ou outras máquinas, os seres humanos
fabricaram, pela primeira vez, máquinas que produzem conhecimento, não de
forma totalmente autônoma, e sim num sistema híbrido com humanos, mas às
vezes ao humano foi necessário dizer apenas:

"Fortalecer."

(Essa expressão vai entrar para a História.)

Outro aspecto da discussão que vale a pena considerar.

Talvez exista um aspecto progressivo na situação atual, não tão óbvio
quanto a enxurrada de novos descobrimentos.

Tem uma história num dos livros do Malba Tahan (eu folheei vários tentando
reencontrá-la, mas não achei) em que dois matemáticos resolvem um típico
problema de raciocínio lógico diante de um público de curiosos... O
primeiro matemático é misterioso, sacerdotal: ele tenta preservar seu
status de sábio, faz certos passos do raciocínio dedutivo parecerem passes
de mágica; ele impressiona o público, resolve o problema, sem contudo gerar
uma compreensão sobre a resolução; com isso, ele mantém sua posição
social. Intervém depois um segundo matemático, este mais iluminista,
democrático: não está preocupado com status, nada é misterioso na exposição
dele. Ele resolve o problema e o mistério desaparece.

Este primeiro matemático, o misterioso, tem uma gênese social, uma
história. É um personagem milenar. Dos escribas aos astrólogos/astrônomos
que previam eclipses e eram empregados dos sacerdotes ou reis... Até aos
nossos dias, na figura daquele único professor que ministra aquela única
disciplina pela qual você terá que passar e, se sobreviver, terá completado
o rito de passagem e será reconhecido como membro da comunidade...

Eu acho que essa figura misteriosa, esse detentor dos passaportes, aquele
professor ao qual todo mundo precisava de algum modo se submeter para
extrair algo de suas palavras e de sua escrita com a esperança de talvez
entender o mistério da disciplina específica... Este personagem está
morrendo. Está acabando. Ele agora é só um humano. Não é mais uma entidade
mítica.

Nós tínhamos no curso de matemática da UFPR, no século passado, um
professor de Análise da velha guarda. Não vou mencionar o nome em respeito
à pessoa. Existia um folclore: "Para passar nas provas do Prof. K (de
Kafka), você tem que decorar exatamente o argumento que ele apresenta nas
listas de exercícios. Se trocar uma vírgula de lugar, ele anula a questão e
você reprova na disciplina." Formou-se então uma geração de pessoas capazes
de decorar vírgula por vírgula os argumentos oferecidos pelo Prof. K. E se
você não decorasse, reprovaria. Este professor era cercado por uma aura
mística. Por uma autoridade clerical, sacerdotal, milenar...

Esse personagem acabou. Qualquer pessoa pode agora tirar suas dúvidas com
uma máquina, não precisa mais se submeter (psicologicamente) ao rito de
passagem. Pode até estar de corpo presente no rito de passagem. Mas há um
caminho alternativo pelo qual ela pode aprender sem sair de lá
traumatizada...

Talvez este seja um aspecto progressivo da transformação atual... Os
matemáticos serão vistos a partir de agora como seres humanos, não mais
como entidades meio sobrenaturais às quais os demais mortais precisariam se
submeter.

Abraços,

M.






Em qui., 20 de ago. de 2026 às 11:13, Bismarck Bório de Medeiros <
[email protected]> escreveu:

> Bom dia a todos,
>
> Achei bem interessante as postagens que vem surgindo aqui acerca das
> LLM's, bem como muitas das referências usadas nas discussões. Acabei
> escrevendo algumas impressões (um tanto enviesadas de um ponto de vista
> mais historicista da ciência) sobre este movimento, com alguma base no que
> vem sendo falado aqui e discutido em palestras (a do IMPA foi bem
> interessante) e ensaios (principalmente comentários de Terence Tao e
> ensaios do Timothy Gowers em seus sites, que achei muito produtivos), tudo
> com hiperlinks no texto. Não são muito longos, procuro um contexto sobre os
> avanços, uns pontos a serem observados na mudança na dinâmica e de valores
> na comunidade devido a ferramenta, outros pontos filosóficos (o que seria
> um exemplo e no que as LLMs são boas) e alguns paralelos históricos de
> fundo. Compartilho aqui com todos as duas partes do texto:
>
> Notas sobre o uso de LLM's na atividade matemática (parte 1)
> <https://diarylogician.substack.com/p/notas-filosoficas-acerca-do-uso-de>
> Notas sobre o uso de LLM's na atividade matemática (parte 2)
> <https://diarylogician.substack.com/p/notas-sobre-o-uso-de-llms-na-atividade>
>
> Abraços!
> Em quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 16:58:54 UTC-3, Marcelo Finger
> escreveu:
>
>> Talvez esta msg , veiculada nas listas do IME-USP, seja de interesse aos
>> membros desta lista, como informação para uma das discussões que estão
>> rolando na rede.
>>
>> Em particular, não  concordo  com a afirmação "".
>>
>> []s
>>
>> Marcelo
>>
>> ---------- Forwarded message ---------
>> From: Vinicius de Oliveira Rodrigues <[email protected]>
>> Date: Sun, Aug 16, 2026 at 11:25 PM
>> Subject: A IA nos deu a resposta de um problema de 73 anos, e agora?
>> To: professores IME <[email protected]>
>>
>>
>> Prezados colegas,
>>
>> Gostaria de compartilhar uma experiência recente de pesquisa que me
>> convenceu de que precisamos discutir, com maior urgência, o impacto da
>> inteligência artificial sobre a matemática, sobre a formação de nossos
>> alunos e sobre a própria organização da pesquisa matemática. Não me parece
>> mais adequado tratar esse assunto como algo que talvez venha a acontecer
>> nos próximos anos. Está acontecendo agora, e está acontecendo comigo.
>>
>> Na semana passada, eu e Juliane Trianon-Fraga, doutora em Matemática por
>> este Instituto, chegamos com o GPT-5.6 Sol à solução de um problema
>> clássico de topologia: o problema de Wallace, formulado na década de 1950,
>> que pergunta, em uma de suas formas, se existe um semigrupo topológico
>> Hausdorff enumeravelmente compacto, com cancelamento dos dois lados, que
>> não seja um grupo.
>>
>> O problema permaneceu aberto por mais de 70 anos. Há uma literatura
>> extensa em torno dele, com soluções sob hipóteses adicionais de teoria dos
>> conjuntos e muitos resultados parciais. Nós mesmos já havíamos trabalhado
>> anteriormente com problemas e construções relacionadas em nossos doutorados
>> e também posteriormente.
>>
>> Fornecemos ao GPT-5.6 Sol, por meio do ChatGPT Work, links no arXiv para
>> dois artigos recentes sobre um problema relacionado — a existência de uma
>> topologia de grupo enumeravelmente compacta sem sequências convergentes não
>> triviais no grupo abeliano livre de cardinalidade c. Esse problema tinha ao
>> menos 35 anos. Apesar de ter fortes ligações com o Wallace, nunca mencionei
>> ao ChatGPT o problema de Wallace, naquela ou em nenhuma interação anterior.
>> Enfim, fornecemos os links para os dois artigos e pedimos que ele
>> melhorasse as técnicas que constavam ali e resolvesse definitivamente esse
>> outro problema. O modelo respondeu duas horas depois dizendo que não havia
>> conseguido, pois as técnicas precisariam ser fortalecidas, sem esclarecer
>> muito o que ele quis dizer com isso. Dei uma instrução simples mandando-o
>> fortalecer, sem dar nenhuma instrução sobre o que ou como.
>>
>> Cerca de 40 minutos depois, o modelo devolveu um resultado
>> substancialmente mais forte: todo grupo abeliano livre de torção de
>> cardinalidade continuum admite, em ZFC, uma topologia de grupo Hausdorff
>> enumeravelmente compacta sem sequências convergentes não triviais. Isso
>> resolve de uma só vez diversas questões abertas da área. E, sem eu
>> solicitar nada em nenhum momento, ele adicionou que "como corolário da
>> construção, construiu um semigrupo de Wallace em ZFC".
>>
>> Eu e Juliane já tínhamos experiência nesse problema, e, espantados,
>> revisamos cuidadosamente os argumentos. Estamos convencidos da correção do
>> argumento e fomos capazes de simplificá-lo substancialmente em alguns
>> pontos (com e sem ajuda de IA, nesse processo). Mesmo assim, cético com o
>> resultado, solicitei ao próprio modelo que produzisse uma formalização em
>> Lean 4 da demonstração, de forma incondicional. Após duas horas, ele me
>> entregou essa formalização. Checamos se os resultados estavam corretamente
>> formulados na formalização, e submetemos o código a diversas auditorias,
>> inclusive dos enunciados efetivamente provados e dos axiomas utilizados.
>>
>> Sem IA, esse resultado seria um acontecimento extremamente relevante e
>> reconhecido na área, trazendo bastante prestígio a quem o obtivesse. Porém,
>> nesse caso, a esmagadora maioria do trabalho foi  realizada pelo modelo em
>> um intervalo de tempo absurdamente curto, a partir de instruções humanas
>> muito pouco estruturadas. Por isso, gostaria que todos refletissem sobre o
>> impacto sério que essa ferramenta *já está tendo* na comunidade. Não estou
>> escrevendo isto para afirmar que “a matemática acabou”, nem que matemáticos
>> deixaram de ter trabalho. Discordo disso — tenho ideias sobre que
>> direção podemos seguir, e gostaria de ouvir a dos colegas e conversar mais
>> a respeito com a comunidade. Mas acho difícil olhar para o que aconteceu e
>> concluir que podemos continuar formando matemáticos* exatamente* como
>> fazíamos até agora, sobretudo na pós-graduação. Isso levanta questões que
>> considero urgentes para o IME:
>>
>> * O que deve significar hoje uma tese de doutorado/dissertação de
>> mestrado? E um projeto de tese/dissertação?
>> * Como preparar nossos alunos para essa nova realidade?
>> * Quais as melhores formas de conduzir pesquisa nesse contexto em que a
>> IA reduz trabalhos de anos em dias?
>>
>> É importante também ter em mente que a IA não para de avançar... alguns
>> alunos já têm me procurado espontaneamente, bastante preocupados com essas
>> questões. Acredito ter boas ideias sobre como orientar alunos a partir de
>> agora, mas entendo que sobretudo o esperado de um mestrado/doutorado será
>> decidido pela comunidade, e, por isso, gostaria, com este e-mail, de
>> fomentar essa discussão.
>>
>> Abaixo, seguem os links do preprint com a solução dos problemas que expus
>> nesse e-mail.
>>
>> Repositório do GitHub com .tex e os arquivos do Lean: The Wallace
>> problem and countably compact group topologies on torsion-free Abelian
>> groups in ZFC
>> <https://vo-rodrigues.github.io/wallace-problem-zfc-paper/wallace-preprint.pdf>
>> Link direto para o PDF: The Wallace problem and countably compact group
>> topologies on torsion-free Abelian groups in ZFC
>> <https://vo-rodrigues.github.io/wallace-problem-zfc-paper/wallace-preprint.pdf>
>>
>> Obs.: os em-dash desse e-mail não foram gerados por IA.
>>
>> Abraços,
>> Vinicius
>>
>> Vinicius de Oliveira Rodrigues
>>
>> Professor Doutor
>>
>> Departamento de Matemática
>>
>> Tel: (11) 2648.6580
>>
>> Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação
>>
>> Universidade de São Paulo
>>
>> Rua do Matão, 1010 - CEP 05508-090 - São Paulo, SP
>>
>> www.ime.usp.br
>>
>> --
>> Para cancelar a inscrição neste grupo, envie um e-mail para
>> [email protected]
>>
>>
>> --
>> Marcelo Finger
>>  Departament of Computer Science, IME-USP
>>  http://www.ime.usp.br/~mfinger
>>  ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1391-1175
>>  ResearcherID: A-4670-2009
>>
>> Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação
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