Boa noite! Sou o autor da mensagem compartilhada. No âmbito do IME-USP estou tentando organizar uma conversa para discutirmos sobre as questões práticas do futuro do nosso trabalho. Sobre o problema, o papel da IA em sua solução e sobre o preprint, fico a disposição para quaisquer esclarecimentos.
Atenciosamente, Vinicius On Thursday, 20 August 2026 at 18:39:54 UTC-3 marciopalmares wrote: > O ChatGPT não deixa nenhuma afirmação minha inteiramente de pé... Ele > critica todas e acha pontos fracos em todas... Fico com vontade de dizer: > "Cara, eu sou humano, não preciso estar 100% certo, não é assim que a vida > funciona!". > > Mas dessa vez eu disse uma besteira das grandes mesmo, e ele me sugeriu > corrigir. > > Não existe essa coisa de que a "energia nuclear está meio abandonada". Em > alguns países, talvez. Mas não é uma dinâmica geral. > > Analisando a produção de energia elétrica nos EUA, ele afirma o seguinte: > > " > > *Primeiro:* se considerarmos cada fonte isoladamente, a nuclear é > praticamente a *segunda grande fonte dos EUA*, atrás apenas do gás > natural. As renováveis só ultrapassam a nuclear quando reunimos várias > tecnologias diferentes numa categoria única. Separadamente, em 2025, a > eólica produziu cerca de *464 TWh*, a solar de grande escala *296 TWh* e > a hidrelétrica *247 TWh*. A nuclear produziu *785 TWh*. > > Ou seja: > E nuclear > E eólica > E solar > E hidrelétrica. > > A nuclear americana, sozinha, produziu aproximadamente *70% mais > eletricidade que toda a eólica americana* e mais de *três vezes* a > hidrelétrica. > > *Segundo:* voltando à nossa comparação com Itaipu, a escala fica > impressionante. Itaipu produziu cerca de *67 TWh em 2024*. O parque > nuclear americano produziu *785 TWh em 2025*. > > Portanto, > 785/67 ≈ 11,7. > > Ou seja, *as usinas nucleares dos EUA produzem, em conjunto, quase doze > Itaipus de eletricidade*. > > Em termos diários: > Itaipu ≈ 0,183 TWh/dia > > contra > nuclear EUA ≈ 2,15 TWh/dia. > > Isso ajuda a colocar a questão histórica no lugar correto. *A energia > nuclear não desapareceu nem se tornou uma curiosidade tecnológica.* Nos > EUA ela continua sendo um dos pilares da rede elétrica e produz > aproximadamente tanta eletricidade quanto todo o carvão americano. A EIA > inclusive descreve os EUA como possuidores da maior frota comercial de > reatores nucleares do mundo. > > O que aconteceu é mais sutil: *a revolução nuclear não cumpriu as > expectativas gigantescas dos anos 1950–70 de tornar-se rapidamente a fonte > dominante de eletricidade*. Isso é bem diferente de dizer que a > tecnologia regrediu ou foi abandonada. Essa distinção talvez seja > interessante para a analogia que você estava fazendo com IA. > " > > É isso aí. > > M. > > > Em qui., 20 de ago. de 2026 às 17:42, Márcio Palmares < > [email protected]> escreveu: > >> Li os dois artigos, Bismarck! >> >> Obrigado por compartilhar! Acho que essa vereda filosófica aí é >> promissora... >> >> Hoje assisti também esse vídeo aqui do Cloves, vale muito a pena, pois é >> depoimento pessoal, sincero, certamente reflete o que se passa na mente de >> muitos estudantes e mesmo de profissionais: >> >> https://youtu.be/JU3mecWIujc?si=C3zTcttAqePIn6iv >> >> Pena que não podemos ver como está progredindo a discussão na lista dos >> professores do IME-USP! Em épocas de revolução tecnológica, deveria haver >> uma regra: abrir as listas de e-mail e compartilhar todas as reflexões! >> Haha... (Brincadeira.) >> >> O Adolfo mencionou o aspecto da sustentabilidade... Parece que não há >> nada sustentável ou possivelmente duradouro no sistema atual: o treinamento >> é caro, a infraestrutura é toda privada, não houve ainda retorno em termos >> de ganho de produtividade para as empresas, a bolha da IA tende a estourar >> em breve, etc. Talvez essa tecnologia regrida, desabe, mais ou menos como >> aconteceu com a energia nuclear... Foi sem dúvida uma revolução, mas não >> parece haver nenhuma forma segura de usá-la, então a coisa foi meio que >> abandonada (dá pra fazer bombas, coisas que explodem, fora isso a coisa é >> complicada)... Isso pode acontecer com o modelo atual, uma regressão... Mas >> o problema propriamente epistêmico, filosófico, não desaparece: em vez de >> máquinas que produzem coisas ou outras máquinas, os seres humanos >> fabricaram, pela primeira vez, máquinas que produzem conhecimento, não de >> forma totalmente autônoma, e sim num sistema híbrido com humanos, mas às >> vezes ao humano foi necessário dizer apenas: >> >> "Fortalecer." >> >> (Essa expressão vai entrar para a História.) >> >> Outro aspecto da discussão que vale a pena considerar. >> >> Talvez exista um aspecto progressivo na situação atual, não tão óbvio >> quanto a enxurrada de novos descobrimentos. >> >> Tem uma história num dos livros do Malba Tahan (eu folheei vários >> tentando reencontrá-la, mas não achei) em que dois matemáticos resolvem um >> típico problema de raciocínio lógico diante de um público de curiosos... O >> primeiro matemático é misterioso, sacerdotal: ele tenta preservar seu >> status de sábio, faz certos passos do raciocínio dedutivo parecerem passes >> de mágica; ele impressiona o público, resolve o problema, sem contudo gerar >> uma compreensão sobre a resolução; com isso, ele mantém sua posição >> social. Intervém depois um segundo matemático, este mais iluminista, >> democrático: não está preocupado com status, nada é misterioso na exposição >> dele. Ele resolve o problema e o mistério desaparece. >> >> Este primeiro matemático, o misterioso, tem uma gênese social, uma >> história. É um personagem milenar. Dos escribas aos astrólogos/astrônomos >> que previam eclipses e eram empregados dos sacerdotes ou reis... Até aos >> nossos dias, na figura daquele único professor que ministra aquela única >> disciplina pela qual você terá que passar e, se sobreviver, terá completado >> o rito de passagem e será reconhecido como membro da comunidade... >> >> Eu acho que essa figura misteriosa, esse detentor dos passaportes, aquele >> professor ao qual todo mundo precisava de algum modo se submeter para >> extrair algo de suas palavras e de sua escrita com a esperança de talvez >> entender o mistério da disciplina específica... Este personagem está >> morrendo. Está acabando. Ele agora é só um humano. Não é mais uma entidade >> mítica. >> >> Nós tínhamos no curso de matemática da UFPR, no século passado, um >> professor de Análise da velha guarda. Não vou mencionar o nome em respeito >> à pessoa. Existia um folclore: "Para passar nas provas do Prof. K (de >> Kafka), você tem que decorar exatamente o argumento que ele apresenta nas >> listas de exercícios. Se trocar uma vírgula de lugar, ele anula a questão e >> você reprova na disciplina." Formou-se então uma geração de pessoas capazes >> de decorar vírgula por vírgula os argumentos oferecidos pelo Prof. K. E se >> você não decorasse, reprovaria. Este professor era cercado por uma aura >> mística. Por uma autoridade clerical, sacerdotal, milenar... >> >> Esse personagem acabou. Qualquer pessoa pode agora tirar suas dúvidas com >> uma máquina, não precisa mais se submeter (psicologicamente) ao rito de >> passagem. Pode até estar de corpo presente no rito de passagem. Mas há um >> caminho alternativo pelo qual ela pode aprender sem sair de lá >> traumatizada... >> >> Talvez este seja um aspecto progressivo da transformação atual... Os >> matemáticos serão vistos a partir de agora como seres humanos, não mais >> como entidades meio sobrenaturais às quais os demais mortais precisariam se >> submeter. >> >> Abraços, >> >> M. >> >> >> >> >> >> >> Em qui., 20 de ago. de 2026 às 11:13, Bismarck Bório de Medeiros < >> [email protected]> escreveu: >> >>> Bom dia a todos, >>> >>> Achei bem interessante as postagens que vem surgindo aqui acerca das >>> LLM's, bem como muitas das referências usadas nas discussões. Acabei >>> escrevendo algumas impressões (um tanto enviesadas de um ponto de vista >>> mais historicista da ciência) sobre este movimento, com alguma base no que >>> vem sendo falado aqui e discutido em palestras (a do IMPA foi bem >>> interessante) e ensaios (principalmente comentários de Terence Tao e >>> ensaios do Timothy Gowers em seus sites, que achei muito produtivos), tudo >>> com hiperlinks no texto. Não são muito longos, procuro um contexto sobre os >>> avanços, uns pontos a serem observados na mudança na dinâmica e de valores >>> na comunidade devido a ferramenta, outros pontos filosóficos (o que seria >>> um exemplo e no que as LLMs são boas) e alguns paralelos históricos de >>> fundo. Compartilho aqui com todos as duas partes do texto: >>> >>> Notas sobre o uso de LLM's na atividade matemática (parte 1) >>> <https://diarylogician.substack.com/p/notas-filosoficas-acerca-do-uso-de> >>> Notas sobre o uso de LLM's na atividade matemática (parte 2) >>> <https://diarylogician.substack.com/p/notas-sobre-o-uso-de-llms-na-atividade> >>> >>> Abraços! >>> Em quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 16:58:54 UTC-3, Marcelo Finger >>> escreveu: >>> >>>> Talvez esta msg , veiculada nas listas do IME-USP, seja de interesse >>>> aos membros desta lista, como informação para uma das discussões que estão >>>> rolando na rede. >>>> >>>> Em particular, não concordo com a afirmação "". >>>> >>>> []s >>>> >>>> Marcelo >>>> >>>> ---------- Forwarded message --------- >>>> From: Vinicius de Oliveira Rodrigues <[email protected]> >>>> Date: Sun, Aug 16, 2026 at 11:25 PM >>>> Subject: A IA nos deu a resposta de um problema de 73 anos, e agora? >>>> To: professores IME <[email protected]> >>>> >>>> >>>> Prezados colegas, >>>> >>>> Gostaria de compartilhar uma experiência recente de pesquisa que me >>>> convenceu de que precisamos discutir, com maior urgência, o impacto da >>>> inteligência artificial sobre a matemática, sobre a formação de nossos >>>> alunos e sobre a própria organização da pesquisa matemática. Não me parece >>>> mais adequado tratar esse assunto como algo que talvez venha a acontecer >>>> nos próximos anos. Está acontecendo agora, e está acontecendo comigo. >>>> >>>> Na semana passada, eu e Juliane Trianon-Fraga, doutora em Matemática >>>> por este Instituto, chegamos com o GPT-5.6 Sol à solução de um problema >>>> clássico de topologia: o problema de Wallace, formulado na década de 1950, >>>> que pergunta, em uma de suas formas, se existe um semigrupo topológico >>>> Hausdorff enumeravelmente compacto, com cancelamento dos dois lados, que >>>> não seja um grupo. >>>> >>>> O problema permaneceu aberto por mais de 70 anos. Há uma literatura >>>> extensa em torno dele, com soluções sob hipóteses adicionais de teoria dos >>>> conjuntos e muitos resultados parciais. Nós mesmos já havíamos trabalhado >>>> anteriormente com problemas e construções relacionadas em nossos >>>> doutorados >>>> e também posteriormente. >>>> >>>> Fornecemos ao GPT-5.6 Sol, por meio do ChatGPT Work, links no >>>> arXiv para dois artigos recentes sobre um problema relacionado — a >>>> existência de uma topologia de grupo enumeravelmente compacta sem >>>> sequências convergentes não triviais no grupo abeliano livre de >>>> cardinalidade c. Esse problema tinha ao menos 35 anos. Apesar de ter >>>> fortes >>>> ligações com o Wallace, nunca mencionei ao ChatGPT o problema de Wallace, >>>> naquela ou em nenhuma interação anterior. Enfim, fornecemos os links para >>>> os dois artigos e pedimos que ele melhorasse as técnicas que constavam ali >>>> e resolvesse definitivamente esse outro problema. O modelo respondeu duas >>>> horas depois dizendo que não havia conseguido, pois as técnicas >>>> precisariam >>>> ser fortalecidas, sem esclarecer muito o que ele quis dizer com isso. Dei >>>> uma instrução simples mandando-o fortalecer, sem dar nenhuma instrução >>>> sobre o que ou como. >>>> >>>> Cerca de 40 minutos depois, o modelo devolveu um resultado >>>> substancialmente mais forte: todo grupo abeliano livre de torção de >>>> cardinalidade continuum admite, em ZFC, uma topologia de grupo Hausdorff >>>> enumeravelmente compacta sem sequências convergentes não triviais. Isso >>>> resolve de uma só vez diversas questões abertas da área. E, sem eu >>>> solicitar nada em nenhum momento, ele adicionou que "como corolário da >>>> construção, construiu um semigrupo de Wallace em ZFC". >>>> >>>> Eu e Juliane já tínhamos experiência nesse problema, e, espantados, >>>> revisamos cuidadosamente os argumentos. Estamos convencidos da correção do >>>> argumento e fomos capazes de simplificá-lo substancialmente em alguns >>>> pontos (com e sem ajuda de IA, nesse processo). Mesmo assim, cético com o >>>> resultado, solicitei ao próprio modelo que produzisse uma formalização em >>>> Lean 4 da demonstração, de forma incondicional. Após duas horas, ele me >>>> entregou essa formalização. Checamos se os resultados estavam corretamente >>>> formulados na formalização, e submetemos o código a diversas auditorias, >>>> inclusive dos enunciados efetivamente provados e dos axiomas utilizados. >>>> >>>> Sem IA, esse resultado seria um acontecimento extremamente relevante e >>>> reconhecido na área, trazendo bastante prestígio a quem o obtivesse. >>>> Porém, >>>> nesse caso, a esmagadora maioria do trabalho foi realizada pelo modelo em >>>> um intervalo de tempo absurdamente curto, a partir de instruções humanas >>>> muito pouco estruturadas. Por isso, gostaria que todos refletissem sobre o >>>> impacto sério que essa ferramenta *já está tendo* na comunidade. Não estou >>>> escrevendo isto para afirmar que “a matemática acabou”, nem que >>>> matemáticos >>>> deixaram de ter trabalho. Discordo disso — tenho ideias sobre que >>>> direção podemos seguir, e gostaria de ouvir a dos colegas e conversar mais >>>> a respeito com a comunidade. Mas acho difícil olhar para o que aconteceu e >>>> concluir que podemos continuar formando matemáticos* exatamente* como >>>> fazíamos até agora, sobretudo na pós-graduação. Isso levanta questões que >>>> considero urgentes para o IME: >>>> >>>> * O que deve significar hoje uma tese de doutorado/dissertação de >>>> mestrado? E um projeto de tese/dissertação? >>>> * Como preparar nossos alunos para essa nova realidade? >>>> * Quais as melhores formas de conduzir pesquisa nesse contexto em que a >>>> IA reduz trabalhos de anos em dias? >>>> >>>> É importante também ter em mente que a IA não para de avançar... alguns >>>> alunos já têm me procurado espontaneamente, bastante preocupados com essas >>>> questões. Acredito ter boas ideias sobre como orientar alunos a partir de >>>> agora, mas entendo que sobretudo o esperado de um mestrado/doutorado será >>>> decidido pela comunidade, e, por isso, gostaria, com este e-mail, de >>>> fomentar essa discussão. >>>> >>>> Abaixo, seguem os links do preprint com a solução dos problemas que >>>> expus nesse e-mail. >>>> >>>> Repositório do GitHub com .tex e os arquivos do Lean: The Wallace >>>> problem and countably compact group topologies on torsion-free Abelian >>>> groups in ZFC >>>> <https://vo-rodrigues.github.io/wallace-problem-zfc-paper/wallace-preprint.pdf> >>>> Link direto para o PDF: The Wallace problem and countably compact >>>> group topologies on torsion-free Abelian groups in ZFC >>>> <https://vo-rodrigues.github.io/wallace-problem-zfc-paper/wallace-preprint.pdf> >>>> >>>> Obs.: os em-dash desse e-mail não foram gerados por IA. >>>> >>>> Abraços, >>>> Vinicius >>>> >>>> Vinicius de Oliveira Rodrigues >>>> >>>> Professor Doutor >>>> >>>> Departamento de Matemática >>>> >>>> Tel: (11) 2648.6580 >>>> >>>> Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação >>>> >>>> Universidade de São Paulo >>>> >>>> Rua do Matão, 1010 - CEP 05508-090 - São Paulo, SP >>>> >>>> www.ime.usp.br >>>> >>>> -- >>>> Para cancelar a inscrição neste grupo, envie um e-mail para >>>> [email protected] >>>> >>>> >>>> -- >>>> Marcelo Finger >>>> Departament of Computer Science, IME-USP >>>> http://www.ime.usp.br/~mfinger >>>> ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1391-1175 >>>> ResearcherID: A-4670-2009 >>>> >>>> Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação >>>> >>>> Universidade de São Paulo >>>> >>>> Rua do Matão, 1010 - CEP 05508-090 - São Paulo, SP >>>> >>> -- >>> LOGICA-L >>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de >>> Lógica <[email protected]> >>> --- >>> Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos >>> Grupos do Google. >>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >>> envie um e-mail para [email protected]. >>> Para ver esta conversa, acesse >>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/f0bba187-5df9-4241-ac05-53381ae9503fn%40dimap.ufrn.br >>> >>> <https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/f0bba187-5df9-4241-ac05-53381ae9503fn%40dimap.ufrn.br?utm_medium=email&utm_source=footer> >>> . >>> >> -- LOGICA-L Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica <[email protected]> --- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. 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