Moçada, ficar no acho-que-acho a respeito disso vai ficar difícil sair do lugar, né? Se é pra falar de "racismo" assim, em termos gerais, então temos que pensar em dados mais gerais. Estatísticas, por exemplo.
Tipo, andei lendo um livro que reúne uns artigos sobre cotas. Negro é, em geral, o mais pobre entre os pobres. Tudo que é cruzamento de dados que se faz, negro sai na pior. Salário em empresa, cargo importante, vagas nas universidades, etc. Pobreza no Brasil tem cor e isso tem a ver com racismo mesmo, rola discriminação. Óbvio que não é só negro que é discriminado, nem quem mais leva ferro no país todo. Nosso país são muitos, né. Mas tem regiões onde isso rola muito forte, e os movimentos que lutam contra isso têm discutido a importância dessa luta não só pelos negros, mas por qualquer minoria. De qualquer forma, se tem gente aqui que nunca sentiu, ou não se lembra de ter sido discriminado por causa de cor, que bom, por que minha experiência é diferente. Sou branco de classe média e lembro muito bem das pouquíssimas pessoas negras que sempre houve nos restaurantes, escolas e bairros que eu frequentei em bh. Quando eu era pentelho lembro muito bem de ter visto um carro chique e ter comentado com minha mãe a respeito do negro no volante, "deve ser motorista, mãe?", "que isso filho!" "uai, mãe, eu só vejo rico branco...". Devia ter uns 10 anos de idade. Num tava discriminando, tava percebendo o óbvio, coisas que deduzi da televisão, da minha escola, dos carros na rua... Mas já percebia que falar aquilo cruamente incomodava. Denunciar o racismo era politicamente incorreto, e ainda há muita resistência em relação a isso. A mãe da minha namorada trabalhou em grandes empresas, saiu de todas pq era discriminada. Ou descobria que todo mundo dava apelido pra ela nas costas, ou percebia tratamento diferente na cara mesmo, ou ficava cansada de esperar promoção enquanto os colegas iam subindo de cargo. E mais? Lembro que saiu na imprensa a fala dum sujeito da IstoÉ, acho que era um novo editor, dizendo que num queria "nem preto nem pobre" na revista, desse jeito, prum cara que escrevia pra revista. Aí o cara saiu contando. Tem também a do Falcão, do Rappa, que a galera de um Itaú chamou puliça e veio nego de helicóptero achando que ele tava tramando assalto ao banco. Bom, não importa se a classe média é branca ou não. A questão é que a maioria é, digamos, o homem-branco-de30anos-empregado-bemsucedido-heterosexual-etcetcetc... Mesmo que numericamente não seja. Minha namorada fazia chapinha no cabelo, que era o jeito dela virar branca pros colegas pararem de encher o saco. Obviamente, ela nunca virou branca por causa disso e portanto os colegas nunca pararam, completamente, de encher o saco. Negro só aparece em tv e revista de chapinha, e num vou nem falar de novela. Ou então é uma versão do branco, um negro bonitão estilo big brother de roupa modernete de estudante de comunicação. E nos anúncios quem veste essa roupa é branco. Propaganda de chópim aqui em BH tem uma concentração de brancos proporcional ao status econômico do público-alvo. Então, pra concluir alguma coisa, a classe média é branquinha porque sua referência é sempre o branco, e o branco da tv e da coluna social particularmente. Então há aí racismo, mesmo que não seja visto como ridículo ou cõmico que um não-branco adote essa referência, afinal de contas, isso é justamente *estimulado*. Todos podemos ser brancos, a máquina de consumismo repete isso o tempo todo. Tem a revista raça também, que é bacana demais. Matéria de capa: 10 dicas para sua chapinha ficar impecável! Já temos uma maioria-referência de identidade branca, então a igualdade será quando houver também uma maioria-referência da identidade negra... Negro é ouvir isso ou aquilo, usar cabelo assim ou assado, roupas de tal ou tal estilo, e por aí vai. Acho mesmo que isso rola demais em muito projeto e ong por aí. Baita vacilo. Sair disso é pensar em sair mesmo dos mecanismos do racismo e do preconceito, e não ficar, sem querer, pondo outras coisas no lugar. Então, também fica errado dizer literalmente classe média branquinha, porque aí qualquer branco é visto como uma marionete do sistema de discriminação, um racista por excelência. Vira um racismo "às avessas", mas que de avesso num tem nada. É justamente o mesmo racismo, o mesmo mecanismo se repetindo... E aí lembro de uma galera de gente na faculdade, geralmente brancos, e de classe média, que ficam xingando os branquinhos da classe média... eu, em. :/ A discriminação é a repressão contra tudo que foge da maioria: isso inclui seu cabelo, seu nariz, a forma da sua cabeça, do seu corpo, a cor da sua pele, suas roupas, seu jeito de falar, de andar, e por aí vai. Discriminação não é por categoria, é uma máquina de avaliação instantânea bem funcional e eficiente. Eu por exemplo acho ótimo isso, porque entro em loja e roubo coisa sem ninguém desconfiar. Também, "com essa cara"... ;) Bom saber que tem gente aqui que nunca sentiu/sofreu discriminação por cor, talvez isso signifique alguma coisa de bom, uma mudança boa surgindo aí né. :) Rapaz, fazia tempo que eu num verborrajia tanto nessa lista... :D bejo. cyrano. Em 25/05/06, Edney Souza<[EMAIL PROTECTED]> escreveu:
Pô to quietinho aqui, mas não consegui me conter: Todo ser humano tem direito de achar a Angelina Jolie gostosa, independente de raça, cor, sexo e religão :) Eu vivia na periferia, da lista ai além da Angelina só coincidiu o lance de RPGista e eu era o único da região, acabei de achar um grupo de estereótipos pra provar que eu não era classe média até começar minha própria vida profissional :) Sempre vivi algo parecido com o liquid no quando se fala de cor, na familia da minha mãe sou o mais moreninho, na do meu pai estou no grupo dos mais branquinhos (a família do meu pai é uma das coisas mais miscigenadas da história do Brasil) :) E também insisto na discriminação $ocial/cultural, pois discriminação por cor nunca sofri. []´s Edney Souza - São Paulo - http://www.interney.net/ msn: [EMAIL PROTECTED] | icq: 4597042 | y!: edney_s | gtalk/aim/skype: interney ----- Original Message ----- From: "Charles Pilger" <[EMAIL PROTECTED]> To: "Lista do projeto MetaReciclagem" <[email protected]> Sent: Thursday, May 25, 2006 10:00 PM Subject: Re: [MetaReciclagem] burguesia branquinha e sujinha On 5/25/06, liquid slave <[EMAIL PROTECTED]> wrote: > mas até onde eu me lembro nunca fui discriminado pela minha cor, mas > sempre tive muitos problemas com a minha falta de cultura classe média > saca ? > Eu não vou no shopping toda semana, não frequento cinemark, não fumo > maconha 20 horas por dia, não tiro racha no fim de semana, não jogo > magic, não sou RPGista, nunca fui à disney, nunca fiz curso de inglês na > australia, não quero uma ferrari, não quero ir pra NY, nunca prestei ITA, > não acho a angelina jolie gostosa não tenho e não quero ter um pitbull... Gozado. Tirando a parte da Angelina Jolie me vi direto aí :-) E isso que eu sou branquelo filho de funcionário aposentado do Banco do Brasil. Ou seja: mais classe média impossível. []'s Charles - [EMAIL PROTECTED] http://www.charles.pilger.com.br ICQ 306563363 MSN [EMAIL PROTECTED] "Antes, eu era meio quieto, calado, o conhecimento era meu, eu era um software proprietário. Agora, quero espalhar o que sei e mostrar que, da forma como eu evoluí, muitos outros podem crescer." - Cleber de Jesus Santos _______________________________________________ Metarec mailing list [email protected] http://www.colab.info/cgi-bin/mailman/listinfo/metarec _______________________________________________ Metarec mailing list [email protected] http://www.colab.info/cgi-bin/mailman/listinfo/metarec
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