Olá Doria.

Infelizmente, não conheço a obra de Cusa e nem esses dois conceitos dele que
citou e que intitulam duas de suas obras, se puder comentar um pouco...

Sei que Cusa influenciou demais, von Bertalanffy, o fundador da Teoria Geral
dos Sistemas (tenho trechos que uso com os alunos em
http://www.marilia.unesp.br/Home/Instituicao/Docentes/RicardoTassinari/BibliotecaOnline/TGS.pdf
)

Cito uma parte final desse recorte:

"Todo o nosso conhecimento, mesmo desantropomorfizado, só reflete certos
aspectos da realidade.
Se o que foi dito é verdade, a realidade é aquilo que Nicolau de Cusa (cf.
von Bertalanffy, 1928 b) chamava
*coincidentia oppositorum*. O pensamento discursivo representa sempre
somente um aspecto da realidade
última, chamada Deus na terminologia de Cusa. Nunca pode esgotar sua
infinita multiplicidade.
Por conseguinte, a realidade última é uma unidade de opostos. Toda afirmação
é válida somente de um
certo ponto de vista, tem apenas validade relativa, devendo ser suplementada
por proposições antitéticas
partidas de pontos de vistas opostos.
Assim, as categorias de nossa experiência e de nosso pensamento parecem ser
determinadas por
fatores biológicos e culturais. Em segundo lugar, esta limitação humana é
rasgada por um processo de
desantropomorfização progressiva de nossa imagem do mundo. Em terceiro
lugar, mesmo desantropomorfizado,
o conhecimento só reflete certos aspectos ou facetas da realidade. Contudo,
em quarto lugar,
*ex omnibus partibus relucet totum*, usando ainda uma vez as palavras de
Cusa: Cada um desses aspectos
possui a verdade, embora somente relativa. Isto, ao que parece, indica as
limitações e ao mesmo tempo a
dignidade do conhecimento humano."

Um grande abraço,
Ricardo.

2009/7/26 Francisco Antonio Doria <[email protected]>

> Mas o Cardeal Cusa intitulou duas de suas obras, _De docta ignorantia_,
> _Idiota de sapientia_...
>
> 2009/7/26 Ricardo Pereira Tassinari <[email protected]>
>
> Olá a todos.
>>
>> Sem querer jogar gasolina na fogueira, farei uma exposição bem breve e bem
>> pessoal, através de aforismos, sem esperar convencer alguém.
>>
>> - Considere-se o Conhecimento total de todas as coisas.
>>
>> - Sendo eu um "tipo" de platonista em relação ao Conhecimento, admito a
>> existência dele e que chegamos até ele (mesmo que o processo para chegar a
>> ele seja trabalhoso e envolva diferente tipos de processos como, por
>> exemplo, elaboração de teorias, verificação experimental, por um olhar
>> interno para compreender o que seja o Eu, o Pensamento etc.).
>>
>> - Se de fato é Conhecimento, "diz" como as coisas são. Ou seja, ele é
>> onipotente, pois tudo acontece segundo o que ele "diz" que deve acontecer.
>>
>> - Se "diz" de tudo, ele é onipresente, pois está em todo lugar (ou se se
>> quiser em lugar nenhum, já que a categoria de lugar espacial não se aplica a
>> ele).
>>
>> - Ele é onisciente, já que sabe de tudo que ocorre.
>>
>> - Ele é uma pessoa? Se entendermos por "pessoa" uma consciência que sabe
>> de si e dos outros, para mim ele é uma pessoa, mas é claro, diferente das
>> outras consciências que são partes dele, como nós, seres humanos.
>>
>> - Ele é bom? Bem, como estou convencido de que a Vida (da alma, da
>> consciência) não termina com a morte (do corpo, cerebral) e acho que o
>> sofrimento é uma forma de indicar que as coisas estão erradas, de pôr em
>> movimento as consciências para assumirem seus papeis como sujeitos de suas
>> ações e de seus papeis na construção de um mundo bem melhor do que esse que
>> está aí, então acho que esse Conhecimento não é apenas bom em si
>> (sentimo-nos felizes quando chegamos ao Conhecimento, mesmo que a parte dele
>> como na Ciência), mas é bom porque vai tirando o ser humano de sua
>> ignorância (que indica. aliás, a falta desse Conhecimento).
>>
>> - Acho que essa concepção de Deus como Conhecimento-Vivo (no qual está
>> também os sentimentos, as sensações, as ilusões momentâneas, etc.) faz parte
>> daquilo que o Frank chamou de "Deus dos Filósofos" e é nesse sentido que
>> acredito em Deus.
>>
>> Concordo com o Dória de que as concepçõe de Deus que em geral se contentam
>> as pessoas estão bem aquém do que um conceito de Deus deveria ser e que
>> servem muito mais como instrumento de poder de alguns homens sobre outros
>> homens, ou ainda, de "tábua de salvação" em relação a um desespero de vida,
>> do que refletem uma verdadeira religiosidade. Também acho que em geral, as
>> pessoas religiosas não estão preocupadas com a busca do Conhecimento. Em
>> parte, é por essas razões (e por algumas que, vira e mexe, reaparecem nesta
>> lista) que fui ateu convicto e praticante desde criança até os primeiros
>> anos do mestrado.
>>
>> Bom, mas a minha concepção atual de Deus é essa que expus sumariamente
>> acima e, por ter uma concepção assim, não acho que Ciência, Lógica,
>> Complexidade ou Razão se oponham a noção de Deus, ao contrário.
>>
>> Também não vou deixar de acreditar em Deus (não sei se o termo "acreditar"
>> se aplica direito ao meu caso, já que, para mim, essa concepção de Deus é
>> auto-evidente) porque existem crentes (ou até fanáticos) que não têm essa
>> concepção, da mesma forma, que não vou deixar de gostar e estudar a Ciência
>> porque têm cientistas que ajudam os piores capitalistas (como alguns das
>> indústrias farmacêuticas, por exemplo).
>>
>> Bem, em poucas linhas, é isso.
>>
>> Abraço a todos,
>> Ricardo.
>>
>> 2009/7/24 Frank Thomas Sautter <[email protected]>
>>
>>> O Deus das principais religiões ocidentais é simples? Ele é uma pessoa:
>>> existe algo mais imprevisível do que o comportamento de uma pessoa? Mesmo
>>> que ele seja simples, esse não é um bom motivo para ser ateu. Pode ser,
>>> quando muito, um bom motivo para não ser judeu, cristão, muçulmano, etc.
>>>
>>> Quanto à "recente" descoberta da complexidade das coisas, é sério que as
>>> pessoas no passado não faziam idéia dessa complexidade? Isso está próximo de
>>> um esnobismo cronológico!
>>>
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>>> [email protected]
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>> Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
>> UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências - Marília
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