Olá Ricardo

eu estou trabalhando com isso na minha pesquisa de mestrado. A condicional 
material parece não captar adequadamente as condições de verdade da condicional 
da linguagem natural. Há um ou outro caso que parece desmentir isso, vou citar 
dois (como não estou certo se os símbolos dos conectivos vão aparecer nos 
emails de todos, vou colocá-los em linguagem natural mesmo:


P ou Q logo ~P então Q

Ou o mordomo é o assassino ou o jardineiro é o assassino. Portanto, se o 
mordomo não é o assassino, o jardineiro é o assassino.



~(P e Q) logo P então ~Q 

O mordomo e o criado não são ambos inocentes. Logo, se o mordomo é inocente, o 
criado não é inocente.



Há também alguns exemplos de linguagem natural, como o mencionado pelo Adolfo 
antes, que parecem reforçar a idéia de que a condicional material capta 
adequadamente as condições de verdade da condicional da linguagem natural. 
Contudo, há uma avalanche de casos que apontam num sentido contrário. Ao meu 
ver a passagem da linguagem natural para a lógica verofuncional é tão 
problemática quanto a passagem da lógica verofuncional para a linguagem 
natural, entendendo por passagem aqui a preservação de validade dos argumentos. 
Por exemplo, Edwards em "A Confusion about If . . . Then" apresenta casos em 
que a condicional material é verdadeira num número maior de circunstâncias do 
que a sua equivalente em linguagem natural e apresenta casos em que a 
condicional material é verdadeira num número menor de circunstâncias que a sua 
equivalente em linguagem natural:


Casos em que a condicional material é verdadeira num maior número de 
circunstâncias 

P então Q

(P então Q) ou R

~[(P então Q) então R]

R então (P então Q)

~[R então ~(P então Q)]



Casos em que a condicional material é verdadeira num menor número de 
circunstâncias


~(P então Q)

~[(P então Q) ou R]

~(P então Q) ou R

(P então Q) então R

R então ~(P então Q)

~(P então Q) e ~R



Entre outras coisas isso quer dizer que a condicional material é logicamente 
mais fraca do que a condicional da linguagem natural, asserindo menos do que 
ela, ao passo que a negação da condicional material ~(P então Q) é mais forte 
em relação à negação da condicional natural. A partir disso ele mostra que dada 
qualquer afirmação contendo um "se-então", se ele ocorre como uma premissa em 
um argumento e a substituição do "se-então" pela condicional material é 
inofensiva, então a substituição não será inofensiva em qualquer argumento em 
que essa afirmação for a conclusão. E, vice versa, dada qualquer afirmação 
contendo um "se, então", se ela ocorre como a conclusão de um argumento e a 
substituição de "se, então" pela condicional material é inofensiva, então a 
substituição não será inofensiva em qualquer argumento em que essa afirmação 
apareceu como uma premissa. Ao dizer que a substituição de "se, então" pela 
condicional material é inofensiva, eu quero dizer que se o argumento em que a 
condicional material ocorre é válido de acordo com o cálculo proposicional, 
então o argumento em que "se, então" aparece é válido".  


Penso que o exemplo que o Adolfo apresentou é fraco se comparado com outros 
exemplos da linguagem natural que mostram inadequação da condicional material. 
Para citar só dois exemplos.

1) Todo mundo conhece a regra de fortalecimento do antecedente que nos permite 
a inferência: P então Q, logo (P e R) então Q

O problema é que se aceitarmos isso teremos que dizer que os argumentos abaixo 
são válidos:

'Se risco o fósforo, ele ascenderá'. Logo, 'se mergulho o fósforo por uma noite 
inteira na água e o risco, então ele ascenderá'.



"Se eu colocar açúcar no meu café ele ficará saboroso. Se eu colocar açúcar e 
óleo diesel no meu café, ele fiará saboroso". 



2) Sabemos que a condicional material é um cáculo verofuncional a partir do 
valor de verdade de suas partes componentes. Não há meios de avaliar o conteúdo 
das condicionais na tabela de verdade e qualquer exigência de relevância do 
antecedente para o consequente é descartada. O problema é que há inúmeros 
exemplos de condicionais que são verdadeiros ou falsos em função da relevância 
do antecedente para o consequente. Por exemplo, a frase "Se Fernando Pessoa é 
australiano, então ele é português" é falsa, pois exprime uma conexão 
geográfica incorreta. O problema é que a partir da lógica clássica teremos que 
dizer que é uma frase condicional verdadeira, pois o consequente "ele é 
português" é verdadeiro. 



É importante entender o significado dessa discussão sobre a adequação da 
condicional natural. Isso não é uma disputa entre partidários da lógica 
clássica e defensores de lógicas não-clássicas mais desviantes, nem é uma 
disputa entre partidários de uma concepção de linguagem comum e partidários de 
uma concepção de linguagem ideal. Um defeito na lógica clássica não estabelece 
a vantagem de lógicas rivais nem implica que devemos confiar apenas numa noção 
intuitiva de validade. A questão é saber se a condicional material é uma 
tradução correta da condicional natural. A discussão de revisão ou não da 
lógica clássica e propostas de novos sistemas formais que captem melhor o 
funcionamento semântico da condicional natural é uma discussão que é 
relacionada, mas é diferente. É claro que esta também é uma discussão 
importante, sobretudo em semântica formal. Basta ver a quantidade enorme de 
propostas e sistemas na literatura de lógica dos condicionais. Só pra citar 
alguns nomes pensem nos sistemas de  Belnap e Anderson, N. Rescher, Ernest 
Adams e William Cooper. 



Abs 

Matheus



 Original Message ----- 
  From: Ricardo Pereira Tassinari 
  To: Adolfo Neto 
  Cc: Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
LOGICA 
  Sent: Thursday, January 28, 2010 3:49 PM
  Subject: [Bulk] Re: [Logica-l]Explicação do significado da implicação clássica


  Olá Adolfo e a todos.


  Abaixo uma pequena reflexão que gostaria de compartilhar sobre a implicação 
na linguagem natural entre duas sentenças (que designarei por "se A então B") e 
o conectivo condicional.


  Notemos então que o condicional pode ser parafraseado, em linguagem natural 
por: "não é o caso que A e não B", já que ele é equivalente a ~(A&~B).


  Quando passamos DA IMPLICAÇÃO DA LINGUAGEM NATURAL PARA O CONECTIVO 
CONDICIONAL, NÃO TEMOS PROBLEMA (como no exemplo que citou ou em "Se chove, 
então a rua está molhada"), pois, se A então B, então temos que: não é o caso 
que A e não B. Exemplo, se assumimos que "se chove, então a rua está molhada", 
podemos sempre concluir que "não é o caso que chove e a rua não está molhada".


  A VOLTA QUE É PROBLEMÁTICA, OU SEJA, PASSAR DO CONECTIVO CONDICIONAL PARA A 
IMPLICAÇÃO NA LINGUAGEM NATURAL, ou ainda, passar de "não é o caso que A e não 
B" para "se A então B". Exemplo: todos nós concordamos que "não é o caso que a 
Lua é de queijo e o Sol é de gelo", mas nos é estranho dizer que "se a Lua é de 
queijo então o Sol é de gelo".


  Ou seja, assumir que existe uma implicação na linguagem natural é condição 
suficiente (mas não necessária) para assumirmos uma implicação condicional.


  Assim, se um argumento é válido na linguagem natural (isto é se assumir as 
premissas implica em assumir a conclusão), então sua formalização com o 
condicional (conjunção das premissas condicional conclusão) será sempre 
verdadeira; por isso, se o argumento é válido, então sua formalização tem que 
ser, isto é, nunca encontraremos premissas verdadeiras e conclusão falsa, mas 
nem sempre uma argumento formalmente válido fica bem em linguagem natural.


  Abraço a todos,
  Ricardo.


  2010/1/28 Adolfo Neto <[email protected]>

    Gostei do exemplo abaixo...

    Fonte: Introdução à Álgebra Abstrata, de Jaime Evaristo
    http://professor.ic.ufal.br/jaime/livros/Capitulo%25201.pdf
    p.11-12

    O exemplo a seguir mostra que o significado matemático do se então,
    embora inusitado, tem
    sentido também no nosso dia a dia. Imagine que um pai anuncie para sua
    filha que vai fazer o
    vestibular para um curso de Medicina: se você passar, então eu lhe dou um 
carro.

    Se a filha foi aprovada (p verdade) e recebeu o carro (q verdade), o
    pai cumpriu a promessa
    (p => q verdade); se a filha foi aprovada (p verdade) e não recebeu o
    carro (q falso), o pai
    descumpriu a promessa (p => q falso); se a filha não foi aprovada (p
    falso) e não recebeu o carro (q
    falso), o pai não descumpriu a promessa (p => q verdade); finalmente,
    se a filha não foi aprovada
    (p falso) e recebeu o carro (q verdade), o pai também não descumpriu a
    promessa e, portanto p => q
    é verdadeiro (nesse caso, o pai pode ter entendido que a filha, mesmo
    não tendo sido aprovada,
    merecia, pelo resultado obtido, o prêmio - foi a primeira dos não
    aprovados, por exemplo).

    Como p => q só é falso se p é verdadeiro e q é falso, a demonstração de
    uma assertiva do tipo
    "se p então q" pode ser feita supondo-se que p é verdade e provando
    que, a partir daí, q também o é.
    Normalmente, o predicado p é chamado hipótese (que é o que se supõe
    ser verdadeiro) e o
    predicado q é chamado tese (que é o que se quer provar que é verdadeiro).


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