Olá Décio.

Se obedecesse a algum axioma não seria a "implicação na linguagem natural"!

Brincadeiras à parte, refiro-me a casos simples: sentenças, que podemos
designar por A1, A2, ..., An  (premissas) e C (conclusão), que são apenas V
ou F. Neste caso, parece-me natural aceitar que se um argumento é válido e
A1, ..., An são admitidas como V, então, necessariamente, C deve ser
admitida como V, o que leva a admitir que o condicional (conectivo usual)
que tem como antecendente a conjunção das premissas e como conseqüente a
conclusão, ou seja, (A1&A2&...&An)>C, será V.

Mas, tornando a conversa mais "não-clássica", penso que, na linguagem
natural, não temos apenas UM tipo de implicação, mas  VÁRIAS: o próprio
condicional, ou ainda, a implicação material, é um tipo. Temos ainda: a
implicação relevante; a inferência estatística, etc.

Falando em axiomas: gostaria de lembrar também que não existe sistema
axiomático para a Lógica Clássica de Segunda Ordem, o que implica que as
inferências válidas A|-B (A deduz B), no qual A é um conjunto de premissas e
B uma sentença, não podem ser COMPLETAMENTE caracterizadas por um sistema
axiomático (pois, se tivéssemos, existiria um sistema axiomático completo
para segunda ordem: basta tomar Tautologia|-B). Assim, não é porque
não segue um sistema de axiomas que está mal caracterizada; senão, o que
seria da própria noção de verdade no conjunto dos números naturais?

Abrindo mais ainda a conversa (aqui posso não agradar a todos), penso mais
do que isso: penso que a forma do pensar ultrapassa os sistemas formais, que
descrevem apenas uma PARTE dessa FORMA; mas isso é outra história...

De qualquer forma, com o e-mail anterior, só queria compartilhar a idéia e
chamar a atenção de que existeM uma ida e uma volta entre a linguagem
natural e a formalizada.

Um forte abraço,
Ricardo.

2010/1/28 Decio Krause <[email protected]>

> Êpa, Ricardo
> O que você quer dizer com "implicação na linguagem natural"? Que axiomas
> obedece?
> D.
>
> ________________________________
> Decio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-990 Florianópolis, SC -- Brasil
> [email protected]
> www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> ________________________________
> *Doctor Bell say we’re connected,*
> *He called me on the phone,*
> *But if we’re really together baby,*
> *How can I feel so all alone?*
> (Bell's Theorem Blues)
>
> Em 28/01/2010, às 15:49, Ricardo Pereira Tassinari escreveu:
>
> Olá Adolfo e a todos.
>
> Abaixo uma pequena reflexão que gostaria de compartilhar sobre a implicação
> na linguagem natural entre duas sentenças (que designarei por "se A então
> B") e o conectivo condicional.
>
> Notemos então que o condicional pode ser parafraseado, em linguagem natural
> por: "não é o caso que A e não B", já que ele é equivalente a ~(A&~B).
>
> Quando passamos DA IMPLICAÇÃO DA LINGUAGEM NATURAL PARA O CONECTIVO
> CONDICIONAL, NÃO TEMOS PROBLEMA (como no exemplo que citou ou em "Se chove,
> então a rua está molhada"), pois, se A então B, então temos que: não é o
> caso que A e não B. Exemplo, se assumimos que "se chove, então a rua está
> molhada", podemos sempre concluir que "não é o caso que chove e a rua não
> está molhada".
>
> A VOLTA QUE É PROBLEMÁTICA, OU SEJA, PASSAR DO CONECTIVO CONDICIONAL PARA A
> IMPLICAÇÃO NA LINGUAGEM NATURAL, ou ainda, passar de "não é o caso que A e
> não B" para "se A então B". Exemplo: todos nós concordamos que "não é o caso
> que a Lua é de queijo e o Sol é de gelo", mas nos é estranho dizer que "se a
> Lua é de queijo então o Sol é de gelo".
>
> Ou seja, assumir que existe uma implicação na linguagem natural é
> condição suficiente (mas não necessária) para assumirmos uma implicação
> condicional.
>
> Assim, se um argumento é válido na linguagem natural (isto é se assumir as
> premissas implica em assumir a conclusão), então sua formalização com o
> condicional (conjunção das premissas condicional conclusão) será sempre
> verdadeira; por isso, se o argumento é válido, então sua formalização tem
> que ser, isto é, nunca encontraremos premissas verdadeiras e conclusão
> falsa, mas nem sempre uma argumento formalmente válido fica bem em linguagem
> natural.
>
> Abraço a todos,
> Ricardo.
>
> 2010/1/28 Adolfo Neto <[email protected]>
>
>> Gostei do exemplo abaixo...
>>
>> Fonte: Introdução à Álgebra Abstrata, de Jaime Evaristo
>> http://professor.ic.ufal.br/jaime/livros/Capitulo%25201.pdf
>> p.11-12
>>
>> O exemplo a seguir mostra que o significado matemático do se então,
>> embora inusitado, tem
>> sentido também no nosso dia a dia. Imagine que um pai anuncie para sua
>> filha que vai fazer o
>> vestibular para um curso de Medicina: se você passar, então eu lhe dou um
>> carro.
>>
>> Se a filha foi aprovada (p verdade) e recebeu o carro (q verdade), o
>> pai cumpriu a promessa
>> (p => q verdade); se a filha foi aprovada (p verdade) e não recebeu o
>> carro (q falso), o pai
>> descumpriu a promessa (p => q falso); se a filha não foi aprovada (p
>> falso) e não recebeu o carro (q
>> falso), o pai não descumpriu a promessa (p => q verdade); finalmente,
>> se a filha não foi aprovada
>> (p falso) e recebeu o carro (q verdade), o pai também não descumpriu a
>> promessa e, portanto p => q
>> é verdadeiro (nesse caso, o pai pode ter entendido que a filha, mesmo
>> não tendo sido aprovada,
>> merecia, pelo resultado obtido, o prêmio - foi a primeira dos não
>> aprovados, por exemplo).
>>
>> Como p => q só é falso se p é verdadeiro e q é falso, a demonstração de
>> uma assertiva do tipo
>> "se p então q" pode ser feita supondo-se que p é verdade e provando
>> que, a partir daí, q também o é.
>> Normalmente, o predicado p é chamado hipótese (que é o que se supõe
>> ser verdadeiro) e o
>> predicado q é chamado tese (que é o que se quer provar que é verdadeiro).
>>
>>
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>> Adolfo Neto
>> Departamento Acadêmico de Informática
>> Universidade Tecnológica Federal do Paraná
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