Olá Valéria.

2010/1/28 Valeria de Paiva <[email protected]>

> Prezados,
>
> 1. uma pequena pergunta de terminologia:
>
> eu sempre disse  "o conditional" nunca "a conditional" em portugues.
> o que o pessoal fala na  lista "logica"?
>

Bem, penso que o (conectivo) condicional e a (sentença) condicional, mas
confesso que uso indistintamente, como se pudesse ser tanto um quanto outro,
pois o condicional era considerado também um tempo verbal (Futuro do
Pretérito).

>
> 2. uma pequena informacao:
>
> eu acabei de fazer uma palestra no SRI (costumava ser o Stanford Institute
> of Technology) sobre o assunto de traducoes de linguagem natural (no meu
> caso o ingles) pra logica matematica, o abstract vai abaixo. faz parte de
> uma imensa literatura no assunto, que acho que a discussao aqui nao esta'
> fazendo justica...
>

Ops! Não quisemos ser injustos, apenas comentar aspectos da "tradução" entre
linguagem natural e linguagem formal.

>
> saudacoes,
> logicas e linguisticas,
> Valeria
> -----------------
> A "Bridge" not too far


Abraço,
Ricardo.

>   *Valeria de Paiva* Cuil, Inc. [Home Page<http://www.cs.bham.ac.uk/%7Evdp/>
> ]
>
> *Date:*  Thursday January 21, 2010 at 16:00
>
> *Location:*  AE201 (SRI A building)  - not the usual location - (
> Directions <http://www.ai.sri.com/visiting/>)
>
> Hosted by David Israel
>
>    *   Abstract*
>
>  For many years (from 2000 to May 2008) I worked with PARC’s natural
> language processing group on technologies for (automatically) creating
> logical forms out of natural language sentences. This lofty goal was
> somewhat mocked and derided by friends both in logic and in computer
> science. Logicians supported by the view that natural language is too
> complicated for logic, computer scientists convinced that all virtue lies
> with statistics and logic has no part in it.
>
> I believe both sets of friends are wrong and that the project, which is the
> Holy Grail of several other groups of researchers, is very much alive and up
> for grabs. That judiciously picking of competing alternatives (in the vast
> space of possibilities) is a first step and that Open Source software is the
> right way of doing it. In this talk I would like to summarize what I
> learned, what I think would work best and I want to try to sketch how one
> could go about it. Also I would like to get at least some conclusions of
> what has been achieved and what small projects one could easily do to put in
> place a few more pieces of the big puzzle.
>
>
> 2010/1/28 Matheus <[email protected]>
>
>  Olá Ricardo
>>
>> eu estou trabalhando com isso na minha pesquisa de mestrado. A condicional
>> material parece não captar adequadamente as condições de verdade da
>> condicional da linguagem natural. Há um ou outro caso que parece desmentir
>> isso, vou citar dois (como não estou certo se os símbolos dos conectivos vão
>> aparecer nos emails de todos, vou colocá-los em linguagem natural mesmo:
>>
>>
>>
>> P ou Q logo ~P então Q
>>
>> Ou o mordomo é o assassino ou o jardineiro é o assassino. Portanto, se o
>> mordomo não é o assassino, o jardineiro é o assassino.
>>
>>
>>
>> ~(P e Q) logo P então ~Q
>>
>> O mordomo e o criado não são ambos inocentes. Logo, se o mordomo é
>> inocente, o criado não é inocente.
>>
>>
>> Há também alguns exemplos de linguagem natural, como o mencionado pelo
>> Adolfo antes, que parecem reforçar a idéia de que a condicional material
>> capta adequadamente as condições de verdade da condicional da linguagem
>> natural. Contudo, há uma avalanche de casos que apontam num sentido
>> contrário. Ao meu ver a passagem da linguagem natural para a lógica
>> verofuncional é tão problemática quanto a passagem da lógica verofuncional
>> para a linguagem natural, entendendo por passagem aqui a preservação de
>> validade dos argumentos. Por exemplo, Edwards em* "**A Confusion about If
>> . . . Then" *apresenta casos em que a condicional material é verdadeira
>> num número maior de circunstâncias do que a sua equivalente em linguagem
>> natural e apresenta casos em que a condicional material é verdadeira num
>> número menor de circunstâncias que a sua equivalente em linguagem natural:
>>
>>
>> *Casos em que a condicional material é verdadeira num maior número de
>> circunstâncias *
>>
>> P então Q
>>
>> (P então Q) ou R
>>
>> ~[(P então Q) então R]
>>
>> R então (P então Q)
>>
>> ~[R então ~(P então Q)]
>>
>>
>>
>> *Casos em que a condicional material é verdadeira num menor número de
>> circunstâncias*
>>
>>
>> ~(P então Q)
>>
>> ~[(P então Q) ou R]
>>
>> ~(P então Q) ou R
>>
>> (P então Q) então R
>>
>> R então ~(P então Q)
>>
>> ~(P então Q) e ~R
>>
>>
>>
>> Entre outras coisas isso quer dizer que a condicional material é
>> logicamente mais fraca do que a condicional da linguagem natural, asserindo
>> menos do que ela, ao passo que a negação da condicional material ~(P então
>> Q) é mais forte em relação à negação da condicional natural. A partir disso
>> ele mostra que dada qualquer afirmação contendo um "se-então", se ele ocorre
>> como uma premissa em um argumento e a substituição do "se-então" pela
>> condicional material é inofensiva, então a substituição não será inofensiva
>> em qualquer argumento em que essa afirmação for a conclusão. E, vice versa,
>> dada qualquer afirmação contendo um "se, então", se ela ocorre como a
>> conclusão de um argumento e a substituição de "se, então" pela condicional
>> material é inofensiva, então a substituição não será inofensiva em qualquer
>> argumento em que essa afirmação apareceu como uma premissa. Ao dizer que a
>> substituição de "se, então" pela condicional material é inofensiva, eu quero
>> dizer que se o argumento em que a condicional material ocorre é válido de
>> acordo com o cálculo proposicional, então o argumento em que "se, então"
>> aparece é válido".
>>
>>
>> Penso que o exemplo que o Adolfo apresentou é fraco se comparado com
>> outros exemplos da linguagem natural que mostram inadequação da condicional
>> material. Para citar só dois exemplos.
>>
>> 1) Todo mundo conhece a regra de fortalecimento do antecedente que nos
>> permite a inferência: P então Q, logo (P e R) então Q
>> **
>> O problema é que se aceitarmos isso teremos que dizer que os argumentos
>> abaixo são válidos:
>>
>>
>> ‘Se risco o fósforo, ele ascenderá’. Logo, ‘se mergulho o fósforo por uma
>> noite inteira na água e o risco, então ele ascenderá’.
>>
>>
>>
>> “Se eu colocar açúcar no meu café ele ficará saboroso. Se eu colocar
>> açúcar e óleo diesel no meu café, ele fiará saboroso”.
>>
>> **
>>
>> 2) Sabemos que a condicional material é um cáculo verofuncional a partir
>> do valor de verdade de suas partes componentes. Não há meios de avaliar o
>> conteúdo das condicionais na tabela de verdade e qualquer exigência de
>> relevância do antecedente para o consequente é descartada. O problema é que
>> há inúmeros exemplos de condicionais que são verdadeiros ou falsos em função
>> da relevância do antecedente para o consequente. Por exemplo, a frase "Se
>> Fernando Pessoa é australiano, então ele é português" é falsa, pois exprime
>> uma conexão geográfica incorreta. O problema é que a partir da lógica
>> clássica teremos que dizer que é uma frase condicional verdadeira, pois o
>> consequente "ele é português" é verdadeiro.
>>
>>
>>
>> É importante entender o significado dessa discussão sobre a adequação da
>> condicional natural. Isso não é uma disputa entre partidários da lógica
>> clássica e defensores de lógicas não-clássicas mais desviantes, nem é uma
>> disputa entre partidários de uma concepção de linguagem comum e partidários
>> de uma concepção de linguagem ideal. Um defeito na lógica clássica não
>> estabelece a vantagem de lógicas rivais nem implica que devemos confiar
>> apenas numa noção intuitiva de validade. A questão é saber se a condicional
>> material é uma tradução correta da condicional natural. A discussão de
>> revisão ou não da lógica clássica e propostas de novos sistemas formais que
>> captem melhor o funcionamento semântico da condicional natural é uma
>> discussão que é relacionada, mas é diferente. É claro que esta também é uma
>> discussão importante, sobretudo em semântica formal. Basta ver a quantidade
>> enorme de propostas e sistemas na literatura de lógica dos condicionais. Só
>> pra citar alguns nomes pensem nos sistemas de  Belnap e Anderson, N.
>> Rescher, Ernest Adams e William Cooper.
>>
>>
>>
>> Abs
>>
>> Matheus
>>
>>  Original Message -----
>>
>>  *From:* Ricardo Pereira Tassinari <[email protected]>
>> *To:* Adolfo Neto <[email protected]>
>> *Cc:* Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área
>> de LOGICA <[email protected]>
>> *Sent:* Thursday, January 28, 2010 3:49 PM
>> *Subject:* [Bulk] Re: [Logica-l]Explicação do significado da implicação
>> clássica
>>
>> Olá Adolfo e a todos.
>>
>> Abaixo uma pequena reflexão que gostaria de compartilhar sobre a
>> implicação na linguagem natural entre duas sentenças (que designarei por "se
>> A então B") e o conectivo condicional.
>>
>> Notemos então que o condicional pode ser parafraseado, em linguagem
>> natural por: "não é o caso que A e não B", já que ele é equivalente a
>> ~(A&~B).
>>
>> Quando passamos DA IMPLICAÇÃO DA LINGUAGEM NATURAL PARA O CONECTIVO
>> CONDICIONAL, NÃO TEMOS PROBLEMA (como no exemplo que citou ou em "Se chove,
>> então a rua está molhada"), pois, se A então B, então temos que: não é o
>> caso que A e não B. Exemplo, se assumimos que "se chove, então a rua está
>> molhada", podemos sempre concluir que "não é o caso que chove e a rua não
>> está molhada".
>>
>> A VOLTA QUE É PROBLEMÁTICA, OU SEJA, PASSAR DO CONECTIVO CONDICIONAL PARA
>> A IMPLICAÇÃO NA LINGUAGEM NATURAL, ou ainda, passar de "não é o caso que A e
>> não B" para "se A então B". Exemplo: todos nós concordamos que "não é o caso
>> que a Lua é de queijo e o Sol é de gelo", mas nos é estranho dizer que "se a
>> Lua é de queijo então o Sol é de gelo".
>>
>> Ou seja, assumir que existe uma implicação na linguagem natural é
>> condição suficiente (mas não necessária) para assumirmos uma implicação
>> condicional.
>>
>> Assim, se um argumento é válido na linguagem natural (isto é se assumir as
>> premissas implica em assumir a conclusão), então sua formalização com o
>> condicional (conjunção das premissas condicional conclusão) será sempre
>> verdadeira; por isso, se o argumento é válido, então sua formalização tem
>> que ser, isto é, nunca encontraremos premissas verdadeiras e conclusão
>> falsa, mas nem sempre uma argumento formalmente válido fica bem em linguagem
>> natural.
>>
>> Abraço a todos,
>> Ricardo.
>>
>> 2010/1/28 Adolfo Neto <[email protected]>
>>
>>> Gostei do exemplo abaixo...
>>>
>>> Fonte: Introdução à Álgebra Abstrata, de Jaime Evaristo
>>> http://professor.ic.ufal.br/jaime/livros/Capitulo%25201.pdf
>>> p.11-12
>>>
>>> O exemplo a seguir mostra que o significado matemático do se então,
>>> embora inusitado, tem
>>> sentido também no nosso dia a dia. Imagine que um pai anuncie para sua
>>> filha que vai fazer o
>>> vestibular para um curso de Medicina: se você passar, então eu lhe dou um
>>> carro.
>>>
>>> Se a filha foi aprovada (p verdade) e recebeu o carro (q verdade), o
>>> pai cumpriu a promessa
>>> (p => q verdade); se a filha foi aprovada (p verdade) e não recebeu o
>>> carro (q falso), o pai
>>> descumpriu a promessa (p => q falso); se a filha não foi aprovada (p
>>> falso) e não recebeu o carro (q
>>> falso), o pai não descumpriu a promessa (p => q verdade); finalmente,
>>> se a filha não foi aprovada
>>> (p falso) e recebeu o carro (q verdade), o pai também não descumpriu a
>>> promessa e, portanto p => q
>>> é verdadeiro (nesse caso, o pai pode ter entendido que a filha, mesmo
>>> não tendo sido aprovada,
>>> merecia, pelo resultado obtido, o prêmio - foi a primeira dos não
>>> aprovados, por exemplo).
>>>
>>> Como p => q só é falso se p é verdadeiro e q é falso, a demonstração de
>>> uma assertiva do tipo
>>> "se p então q" pode ser feita supondo-se que p é verdade e provando
>>> que, a partir daí, q também o é.
>>> Normalmente, o predicado p é chamado hipótese (que é o que se supõe
>>> ser verdadeiro) e o
>>> predicado q é chamado tese (que é o que se quer provar que é verdadeiro).
>>>
>>>
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>>> Adolfo Neto
>>> Departamento Acadêmico de Informática
>>> Universidade Tecnológica Federal do Paraná
>>> Fone: (41) 3310-4644 / Fax: (41) 3310-4646
>>> Web: 
>>> http://www.dainf.ct.utfpr.edu.br/~adolfo<http://www.dainf.ct.utfpr.edu.br/%7Eadolfo>
>>> Blog: http://professoradolfo.blogspot.com
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>> Dr. Ricardo Pereira Tassinari - Departamento de Filosofia
>> UNESP - Faculdade de Filosofia e Ciências - Marília
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