Então João, você encontrou um ponto histórico interessante para auxiliar
numa aula.
Mas, veja outro caso: começar a ensinar topologia pelo problema das 7
pontes de Conisberga funciona bem, melhora o entendimento e desperta mais o
interesse.

Em 21 de janeiro de 2013 19:27, Joao Marcos <[email protected]> escreveu:

> > A explicação em si não esclarece nada.
>
> Há controvérsias... :-)
> (vide os comentários no blog, no sentido contrário)
>
> > Para passar a ideia, é bom saber dizer a que ela se associa, ou se aplica
> > ou de que serve saber aquilo. Por exemplo, no caso ensinar que os reais
> não
> > são um conjunto infinito enumerável soa como "beletrismo" se a pessoa não
> > souber em primeiro lugar dizer que problemas historicamente motivaram os
> > matemáticos a diferenciar tipos de infinitos, ou que conceitos práticos
> > utilizam isso. Por exemplo, falar dos axiomas da geometria, falar dos
> > problemas paradoxos depois descobertos, ajuda a contextualizar a
> > contribuição de Cantor e depois a entender seus teoremas.
>
> Não me parece óbvio como o contexto histórico facilitaria a
> compreensão do teorema em si.  Posto de outra forma: posso imaginar
> perfeitamente como um *matemático moderno* poderia compreender
> perfeitamente o argumento matemático da diagonal sem jamais ter ouvido
> falar em Cantor.
>
> * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
> * * * * * * *
>
> Há não obstante um ponto interessante que valeria a pena discutir
> aqui, e que diz respeito ao motivo pelo qual o argumento de Cantor foi
> muito mal recebido pelo *matemático do século XIX*.  No século XVIII,
> um matemático poderia certamente começar um argumento pedindo para o
> leitor considerar "um número inteiro arbitrário", ou um "número real
> arbitrário", mas NÃO poderia pedir para o leitor considerar um
> "conjunto arbitrário" ou uma "função arbitrária sobre os reais" ou um
> "algoritmo arbitrário".  O motivo estaria justamente no fato de que
> estas últimas entidades não estariam entre aquelas "entidades de
> verdade" sobre as quais se poderia quantificar.  Elas não estavam bem
> definidas antes dos trabalhos de Cantor, Dedekind, Hilbert, Church e
> Turing.  A respeitabilidade destas _entidades_ (no sentido quineano do
> termo) são uma contribuição da Lógica Moderna.  Quando Cantor falava
> sobre "Menge", em abstrato, ele não era compreendido pelos matemáticos
> de sua época (mas pode ser compreendido hoje por um jovem arbitrário
> que esteja cursando o Ensino Médio).  A dificuldade de pensar em
> abstrato no "Verfahren" que permitiria resolver equações diofantinas
> afastava de Hilbert a possibilidade de resolver seu 10o problema (que
> ainda teve que esperar até Matiyasevich e Robinson, na recente década
> de 70).
>
> Se Thomas Forster estiver correto no argumento do parágrafo acima, que
> adaptei semi-servilmente da Introdução do seu interessante livro
> "Logic, Induction and Sets", novos progressos seguirão da nossa
> capacidade de estender ainda mais o universo de entidades
> matematicamente respeitáveis, adicionando ao nosso repertório, por
> exemplo, a possibilidade de falar em "demonstrações arbitrárias" e em
> "jogos arbitrários" (os exemplos são do Forster).  [E a isto a área de
> Computação, com sua visão _estrutural_ do universo matemático,
> contribuirá no século XXI mais do que a Filosofia e a Matemática.]
>
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> * * * * * * *
>
> O filme sobre Cantor trabalhou exatamente sobre a ideia de que já é
> possível compreender o que significa quantificar sobre "enumerações
> arbitrárias" --- o que é MUITO interessante.  Antes de Cantor isto não
> era compreensível, e neste sentido a perspectiva histórica talvez
> possa nos beneficiar.
>
> Seria interessante ouvir a opinião dos colegas sobre o argumento de
> Thomas Forster [independente do que pus entre colchetes].
> Joao Marcos
>
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