Carlos,

Duas coisas:

Primeiro que passar a ideia não exclui o desenvolvimento dos raciocínios.
Aliás, reproduzir raciocínios é que é inadequado para quem vai aprender
qualquer domínio. A pessoa deve ser capaz de raciocinar mais do que
reproduzir raciocínios de outros. Passar a ideia, portanto, deve vir com o
objetivo de que as pessoas tenham autonomia intelectual, criatividade, mais
do que repetição.

Porém, o problema é que os conceitos matemáticos tais quais os conhecemos
hoje são frutos de um longo desenvolvimento de gerações. Ou seja, a
humanidade levou séculos para os descobrir. É completamente irracional e
despropositado esperar e exigir que um indivíduo, em uma semana, com apenas
um conteúdo de um capítulo elementar, refaça o mesmo percurso que a espécie
levou dois mil anos para alcançar. Então, o ensino da matemática que
conhecemos demanda maior apresentação de ideias já pensadas e não apenas o
desenvolvimento dos raciocínios.

Agora, a lógica não é a mesma coisa que a matemática, por mais que uma
tenha a ver com a outra. A lógica apoia-se primeiro num ambiente cultural
filosófico que é formatado pela tradição que vem de Aristóteles. O
conhecimento matemático, que Aristóteles quase não tinha, pode ser bom, mas
não é sempre o principal. Um lógico tem de por exemplo saber simplificar as
questões, examinar o que as perguntas querem dizer mais do que prover
respostas, etc. Sei que os matemáticos não se importam de prover
demonstrações ultra-complicadas para asserções ou teses bem simples. Isso
em lógica não é bom.

Em 23 de janeiro de 2013 23:49, Carlos Gonzalez <[email protected]>escreveu:

> Tony,
>
> "Passar a ideia" e, no melhor dos casos, uma descrição metafórica.
>
> > Saber ensinar
> > é saber passar a ideia, não apresentar resultados supostamente
> > espetaculares.
>
> O ensino da matemática (e da lógica) implica o desenvolvimento de
> capacidades e de habilidades: compreender um raciocínio é raciocinar.
> Compreender um teorema é ser capaz de reproduzir os raciocínios
> envolvidos na demonstração. Quando eu assisti a demonstração do
> Teorema da Dedução por Gregorio Klimovsky compreendi melhor que antes
> porque ele fazia as pessoas seguirem o raciocínio passo a passo. E os
> conceitos matemáticos, geralmente, são realmente compreendidos com
> suas propriedades, suas relações, o seu papel em estruturas, etc.
> Quando um matemático do século XVIII fala de reta, numa época que
> ainda não tinha sido esclarecido o conceito de densidade e nem tinha
> sido considerado o de completude (continuidade) da reta, falava de uma
> coisa muito diferente que nós.
>
> Eu diria que a verdadeira compreensão, no lugar "passar" ideias e
> raciocínios, faz a pessoa recriá-los, reconstruí-los. Para "passar"
> uma ideia é suficiente, como  vc diz, conhecer essa ideia. Para
> intervir positivamente na compreensão de uma ideia, eu acho que é
> necessário saber muito mais que essa ideia.
>
> Carlos
>
>
> 2013/1/21 Tony Marmo <[email protected]>:
> > Walter,
> >
> > Os norte-americanos tentam sempre popularizar ciência desse jeito. Mas,
> > pelo menos tentam. Muita coisa nada a ver metida no meio, como o som
> alto e
> > a moça no quarto, ficou sem foco. A explicação em si não esclarece nada.
> >
> > O esforço para ensinar Matemática passa por três pontos: primeiro se a
> > pessoa que vai ensinar sabe mesmo, se souber o que vai ensinar saberá
> > explicar e se souber explicar saberá avaliar. Avaliar é entender o que o
> > outro quer dizer e não exigir um formato para o que ele diz. Saber
> ensinar
> > é saber passar a ideia, não apresentar resultados supostamente
> > espetaculares. E saber o que está sendo ensinado é ter consciência da
> coisa
> > a ponto de poder fazer as outras duas.
> >
> > Para passar a ideia, é bom saber dizer a que ela se associa, ou se aplica
> > ou de que serve saber aquilo. Por exemplo, no caso ensinar que os reais
> não
> > são um conjunto infinito enumerável soa como "beletrismo" se a pessoa não
> > souber em primeiro lugar dizer que problemas historicamente motivaram os
> > matemáticos a diferenciar tipos de infinitos, ou que conceitos práticos
> > utilizam isso. Por exemplo, falar dos axiomas da geometria, falar dos
> > problemas paradoxos depois descobertos, ajuda a contextualizar a
> > contribuição de Cantor e depois a entender seus teoremas.
> >
> > E detalhe: não existe isso de pessoas com aptidão matemática e outras
> sem.
> > Os estudos evolutivos já mostraram que a matemática faz parte do nosso
> > hardware humano, todos têm o perfil potencial para a aprender. O que
> > acontece que alguns humanos se dão melhor que outros é um problema sério
> de
> > falta de comunicação, de técnicas de ensino e de avaliação ultrapassadas
> e
> > descontextualizadas, como o que ocorre nesse filme onde nada é comunicado
> > de forma direita.
> >
> > Em 20 de janeiro de 2013 14:48, Walter Carnielli <
> [email protected]
> >> escreveu:
> >
> >> Acho que um filminho tão idiotizante,  com péssimos atores
> infantilizados
> >> não vai ajudar muito para se entender o mais simples dos  teoremas de
> >> Cantor.
> >>
> >> Simplesmente,  quem não o entende não vai entender o filme...
> >>
> >> Walter
> >> Em 20/01/2013 11:40, "Joao Marcos" <[email protected]> escreveu:
> >>
> >> > ("A mixture of fiction and information.")
> >> > http://rjlipton.wordpress.com/2013/01/19/cantors-theorem-the-movie/
> >> >
> >> > JM
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