Oi Hermógenes,

--> A coisa dos "modelos pensantes" é simplesmente um jargão. Dizer que um 
modelo M "pensa" uma certa asserção phi é simplesmente
dizer que M modela phi, i.e., que phi é válida em M, que phi é verificada 
em M. 

Exemplo: por Lowenheim-Skolem "pra baixo", a teoria dos reais (em primeira 
ordem) tem modelo enumerável. Então podemos ter uma
estrutura enumerável M no qual todas as sentenças sobre os reais são 
válidas, quando relativizadas a M (existe x = existe x em M, para todo x = 
para todo x em M, e assim por diante).

O que choca inicialmente as pessoas é: como pode existir um modelo 
enumerável de algo que é não-enumerável ? Esse seria o tal do
Paradoxo de Skolem...

Pois é, o que ocorre é que o tal modelo enumerável "pensa" que é 
não-enumerável. Pois todas as funções que
sobrejetam os naturais em M estão FORA do modelo: eu olhando de fora sei 
que ele é enumerável, mas "lá dentro" as tais
funções que o enumeram não estão, essas funções não pertencem a M. "Na 
opinião dele", ele é enumerável - pois a sentença "Não existe bijeção entre 
a estrutura
e os naturais" é verificada, é válida lá. 

(É a velha historinha de que a formiguinha que está andando sobre a mesa 
não consegue enxergar a terceira dimensão: ela "pensa" que
o mundo é bidimensional, porque o modelo onde ela vive é assim).

--> você pergunta "por quê" estamos usando o Teorema de Completude para 
ZFC, então não tenho certeza
se realmente a sua pergunta é sobre "por quê" ou "como", então vou 
aproveitar a oportunidade para
dar respostas rápidas para ambas...

"Por quê ?": se a pergunta foi essa, talvez você esteja confundindo 
completude SEMÂNTICA (= "se é consistente, tem modelo") com
completude SINTÁTICA (="toda sentença pode ser provada ou refutada").

ZFC = ZFC de primeira ordem aí no nosso contexto, portanto, por ser uma 
teoria de primeira ordem, vale o Teorema de Completude para
ZFC - o que dá a completude semântica de ZFC. Notar que

"Se é consistente, tem modelo" é um enunciado equivalente a "Consequências 
semânticas são consequências sintáticas"

(aqui estou falando como lógico; se eu estivesse falando como matemático, 
eu possivelmente diria que os dois teoremas acima 
são equivalentes, hehe, mas na verdade sabemos que são dois enunciados 
equivalentes para o mesmo teorema, digamos)

As recíprocas são o Teorema da Correção (Soundness), cujos enunciados 
equivalentes são

"Se tem modelo, é consistente" <=====> "Consequências sintáticas são 
consequências semânticas"

(o que é mesmo o lado fácil: se phi é uma consequência sintática de T 
(i.e., se T prova phi), então a correção do sistema
garante que phi vai ser válida em todos os modelos de T (i.e., phi é 
consequência semântica de T))


... Ou seja, o Teorema de Completude garante a completude semântica de ZFC 
com primeira ordem, enquanto que
o Teorema de Incompletude mostrou a incompletude sintática de ZFC.


--> "Como":  Seja Con(ZFC) a declaração de que ZFC é consistente (que eu 
comentei na outra mensagem ser equivalente à
Sentença de Gödel). 

Então, pelo primeiro ou pelo segundo teorema de incompletude, meio que 
tanto faz porque no fundo é a mesma
coisa,

ZFC não prova Con(ZFC) - ou seja, Con(ZFC) não é consequência sintática de 
ZFC.   ("Claro que na verdade não prova nem refuta, mas sigamos só disso")

Por Completude, se não é consequência sintática então não é consistência 
semântica.

Então não é verdade que Con(ZFC) seja válido em todos os modelos de ZFC.

Portanto, existe um modelo de ZFC no qual Con(ZFC) não é válido. Esse é um 
tal modelo que "pensa que não existe" - pois, dentro dele,
a asserção "existem modelos de ZFC" (que é equivalente a "ZFC é 
consistente", por Soundness + Completeness) não é verificada.


... Notar que, também por completude, deverão existir modelos de ZFC onde 
Con(ZFC) é válido e também deverão
existir modelos de ZFC onde Con(ZFC) não é válido ("se todos os modelos 
concordassem, existiria uma prova", essencialmente é isso
que Completude diz). Aí podemos aplicar Soundness e chegar em Con(Con(ZFC)) 
e Con(não Con(ZFC)), ou seja, 
Con(ZFC) é independente de ZFC.


... Espero que ajude,

Até,

[]s  Samuel




On Wednesday, June 15, 2016 at 2:18:53 PM UTC-3, Joao Marcos wrote:
>
> Partilho uma pergunta interessante, com respostas instrutivas: 
>
> Is there a model of ZFC inside which ZFC does not have a model? 
>
> http://math.stackexchange.com/questions/1826423/is-there-a-model-of-zfc-inside-which-zfc-does-not-have-a-model
>  
>
>
> JM 
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