meus dois centavos nessa discussao (so' pra voces nao ficarem com a
impressao de que ninguem le...):

1.>Muitos, porém, acham o preço a se pagar muito salgado: falha da
transitividade
(monotonicidade, regra de corte).

eu acho um preco absurdo. pior do que se tem que pagar por chifre de
unicornio!

2.>Neste ponto, a única vantagem de TIT em comparação à ZF (sua
concorrente igualmente ad hoc), principalmente se você é um computeiro
ou matemático preocupado com computabilidade, é o fato de TIT ser
construtiva.

well, well, well... "a única vantagem" 'e vantagem a beca, pra alguns, ne',
cara-palida?

abracos constructivos e MartinLoefianos pra todos,
;)

Valeria

2017-04-06 5:59 GMT-07:00 Hermógenes Oliveira <
[email protected]>:

> Fernando Yamauti <[email protected]> escreveu:
>
> > [...]
> >
> > Um outro caso que me incomoda muito e o Martin-Löf sempre joga em
> > baixo do tapete: o porquê de " 'A true' infere 'B true' " ser
> > correto, onde A é falso (onde o "falso" é clássico, ou seja, existe
> > uma prova de \neg A) , para um construtivista. Como se constrói uma
> > prova, a partir de uma prova de que o falso é verdadeiro?
>
> Martin-Löf possui um conceito de "prova hipotética", isto é, em vez de
> "prova" no sentido categórico, teríamos uma "prova" sob a assunção de
> hipóteses.  Nesse caso, se nós temos que "¬A true", isto é, "A→⊥
> true", e também temos "A true", então "B true" se segue por modus
> pones e ex contradictione quodlibet (ECQ).  Uma primeira questão,
> então, seria:
>
> a) Por que ECQ seria correto de um ponto de vista construtivo?
>
> Aqui, vale notar que a validade construtiva de ECQ não é uma posição
> unânime.  Nesse sentido, G. F. C. Griss[1] é um dos dissidentes mais
> importantes e interessantes, pois parece argumentar de um ponto de
> vista puramente construtivo.  Outros construtivistas apresentam
> motivações diversas para se rejeitar ECQ, em especial, motivações
> relacionadas à relevância e ao uso da implicação na linguagem
> cotidiana (por exemplo, Johansson[2] e Tennant[3]).
>
> Eu, pessoalmente, acho ECQ um princípio *muito* suspeito.  O difícil é
> que, sem ECQ, um construtivista ficaria basicamente sem negação (ao
> estilo do cálculo mínimo de Johansson), ou a negação cessaria de ser um
> operador *lógico*.  Uma exceção interessante é o caso da "Core Logic" de
> Tennant, onde a negação é dada um caráter lógico, mesmo sem ECQ, pela
> admissão de modus tollendo ponens (ou silogismo disjuntivo) e uma regra
> especial para a implicação que permite obter ¬A,A⊢B.  Muitos, porém,
> acham o preço a se pagar muito salgado: falha da transitividade
> (monotonicidade, regra de corte).
>
> De qualquer maneira, talvez ECQ possa ser fundamentado de um ponto de
> vista construtivo.  Contudo, as fundamentações (explicações)
> oferecidas até o momento, por Martin-Löf e outros, também me parecem
> insatisfatórias.
>
> b) Um outro problema é que Martin-Löf explica (reduz) o conceito de
> "prova hipotética" ao conceito de "prova categórica" (sem hipóteses
> abertas).
>
> Isto significa que a correção de uma prova hipotética (dedução) é
> predicada na possibilidade de se transformar provas categóricas das
> hipóteses em provas categóricas da conclusão, isto é, na construção de
> provas categóricas da conclusão com base em provas categóricas das
> hipóteses.  Portanto, em última instância, a justificativa de
> inferências como "¬A (A→⊥) true","A true" / "B true" apelam a provas
> categóricas de "¬A true" e "A true" e daí, por modus ponens, a provas
> categóricas do absurdo!  Estas provas categóricas não precisam ser
> provas reais, mas devem, pelo menos, ser concebíveis, se é que a
> explicação de Martin-Löf faz qualquer sentido.  Caberia a Martin-Löf,
> e demais construtivistas que defendem posições similares, explicar o
> que significa conceber provas categóricas do absurdo, em outras
> palavras, o que significa conceber o impossível.
>
> Alguns meses atrás, conversava com Bruno Bentzen a respeito de uma
> anedota sobre o tema.  Segundo a anedota, alguém teria perguntado a
> Martin-Löf, ou Prawitz, não me lembro qual, como seria possível
> conceber uma construção que transformasse provas do absurdo em provas
> de outra sentença, dado que não há provas do absurdo.  Ele teria
> respondido: "Como se transforma um unicórnio num cavalo?  Cortando
> fora o chifre.  Mas não há unicórnios."  A anedota é divertida, e
> ilustra como podemos tratar de construções que talvez nunca poderão
> ser efetuadas (seja porque não existem unicórnios ou porque não
> existem provas do absurdo).  Porém, a inexistência de unicórnios
> parece estar num patamar diferente (contingente) comparado com a
> inexistência de provas do absurdo.
>
> A concepção de raciocínios hipotéticos defendida por Martin-Löf, e
> compartilhada por Prawitz e muitos outros, é tributária de BHK,
> especialmente a cláusula para implicação.  Esta concepção também
> recebe o nome de "primazia do categórico sobre o hipotético" ou
> "concepção das hipóteses como variáveis" (a serem saturadas por provas
> categóricas)[4].  Ela parece estar por trás de alguns resultados
> negativos[5][6] publicados nos últimos anos com respeito a
> fundamentações apoiadas nas regras de introdução, ou nas cláusulas BHK
> concebidas como regras de introdução.  Estes resultados mostram que,
> sob certas condições, tais fundamentações fracassam em capturar
> exatamente os raciocínios intuicionisticamente deriváveis.
>
> Martin-Löf, no artigo de fundamentação filosófica da sua Teoria dos
> Tipos[7], assume que as regras de introdução dão o significado das
> constantes lógicas e, a partir daí, justifica as regras de eliminação.
> Isto demonstra, em terminologia corrente, a correção da lógica
> intuicionista (como sistema formal) com respeito a uma fundamentação
> baseada nas introduções (estilo BHK).  Contudo, a contrapartida (a
> questão se todos os princípios de raciocínio justificáveis são de fato
> deriváveis intuicionisticamente), isto é, completude, em terminologia
> corrente, permanece em aberto no artigo, pois Martin-Löf não oferece
> nenhum argumento em seu favor.  Os resultados mencionados
> anteriormente mostram que, sob certas condições que parecem razoáveis
> de um ponto de vista construtivo, uma fundamentação estilo BHK, quando
> formulada precisamente (uma vez que BHK é uma espécia de fundamentação
> (semântica) informal), justificaria inferências que não são
> intuicionisticamente deriváveis.
>
> Me parece que em ambos os quesitos, a) e b), a posição construtivista
> de vertente intuicionista, conforme tradicionalmente concebida, deixa
> muito a desejar.  Confesso que, às vezes, me pergunto se o
> intuicionismo tradicional, como exemplificado pela tradição BHK, seria
> mesmo uma posição filosoficamente coerente.
>
> > [...]
> >
> > Ou ainda, outro problema que leva ao regresso infinito e a
> > identificação de um objeto do conhecimento com o conhecimento desse
> > objeto (que o Rodrigo havia comentado a um tempo atras de maneira
> > diferente). Um juízo do tipo 'A true' pode virar uma proposição onde
> > '(A true) true' se torna um juízo. E, mais. No ponto de vista
> > epistemico, essas duas coisas são equivalentes (saber que vc sabe é
> > igual a saber). Acho que o ponto de vista epistemico não bate com a
> > teoria, já que garantir que o tipo "A é habitado" não é equivalente
> > a A (em um dado universo), ou será que é? Ou seja, a justificativa
> > do ML não é adequada e só a teoria funciona.
>
> Na minha opinião, o potencial explanatório e de fundamentação da
> Teoria Intuicionista de Tipos (TIT) se estraçalha a partir do momento
> que se introduz universos.  A partir daí, me parece, a TIT assume um
> caráter fortemente ad hoc e muitas da intuições iniciais vão para o
> espaço.  Neste ponto, a única vantagem de TIT em comparação à ZF (sua
> concorrente igualmente ad hoc), principalmente se você é um computeiro
> ou matemático preocupado com computabilidade, é o fato de TIT ser
> construtiva.  Por outro lado, os argumentos de que ZF seria
> filosoficamente mais robusta e conceitualmente mais coerente (ver, por
> exemplo, Harvey Friedman na FOM) não me convencem.  Acontece que, dado
> que ZF é a doutrina ortodoxa, estamos acostumados a fazer vista grossa
> para as aberrações em ZF e maldizer excessivamente qualquer
> idiossincrasia de propostas alternativas, como TIT.
>
> De qualquer maneira, mesmo num contexto muito elementar, abordar o
> intuicionismo, ou construtivismo, de um ponto de vista epistemológico,
> tal como Martin-Löf faz, me parece um equívoco.  Concordo ainda que a
> discussão epistemológica de Martin-Löf em conexão com a fundamentação
> da sua Teoria de Tipos é muito confusa, para se dizer o mínimo.
>
> A epistemologia, contudo, não é a única rota para o intuicionismo, e
> sequer me parece a melhor.  No âmbito puramente lógico, uma rota mais
> interessante rumo ao intuicionismo passa pela filosofia da linguagem,
> em particular, por um certo pragmatismo linguístico.  Neste sentido,
> princípios lógicos estariam apoiados em práticas linguísticas regradas
> (ver trabalho recente do Marcos Silva).  Esse tipo de inferencialismo
> lógico ainda é muito incipiente, é verdade, mas me parece muito
> promissor.
>
> Saudações,
>
> Referências:
>
> [1] Arend Heyting.  G. F. C. Griss and his negationsless
> intuitionistic mathematics.  Synthese 9 (1):91-96, 1955.
> (ver referências nesse artigo para os escritos de Griss)
>
> [2] Ingebrigt Johansson. Der Minimalkalkül, ein reduzierter
> intuitionistischer Formalismus.  Compositio Mathematica 4, 119-136,
> 1937.
>
> [3] Neil Tennant.  The Taming of the True. Clarendon Press, 1997.
> (ver também artigos no RSL sobre "Core Logic")
>
> [4] Peter Schroeder-Heister. The Categorical and the Hypothetical: A
> critique of some fundamental assumptions of standard
> semantics. Synthese 187 (3), 925-942, 2012.
>
> [5] Wagner de Campos Sanz, Thomas Piecha and Peter
> Schroeder-Heister. Constructive Semantics, Admissibility of Rules and
> the Validity of Peirce's Law. Logic Journal of the IGPL 22 (2),
> 297-308, 2014.
>
> [6] Thomas Piecha, Wagner de Campos Sanz and Peter
> Schroeder-Heister. Failure of Completeness in Proof-Theoretic
> Semantics. Journal of Philosophical Logic 44 (3), 321-335, 2015.
>
> [7] Per Martin-L\"of. On the Meanings of the Logical Constants and the
> Justifications of the Logical Laws. Nordic Journal of Philosophical
> Logic 1 (1), 11-60, 1996.
>
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> Hermógenes Oliveira
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Valeria de Paiva
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