Oi JM e Hermógenes,

Um breve comentário sobre o top. Em uma mensagem anterior, JM escreveu:

Hummm...  Dualmente, qual seria a regra de eliminação do top?  A regra 
> de que "sob nenhuma circunstância podemos eliminar o top"?  Parece-me 
> um simples forçação de barra. 


Podemos eliminá-lo sim e inferir qualquer proposição A, desde que A seja 
verdadeira. Simbolicamente, podemos expressar sua regra de eliminação da 
seguinte maneira:

⊤ true   A true
-------------------- ⊤-elim
A true

No entanto, uma vez que já temos uma derivação de A, essa é claramente uma 
regra redundante. Este é o único sentido que conheço em que podemos dizer, 
dualmente, que "top não possui uma regra de eliminação". :)

----

Hermógenes escreveu:

Eu entendo a objeção que faz ao meu uso do *termo* "completude" no 
> contexto de Martin-Löf, mas espero que tenha conseguido deixar claro que 
> o uso que fiz de "completude" e "correção" naquele contexto se referia à 
> *adequação* das explicações semânticas de Martin-Löf ao sistema de 
> regras de inferência dedutivas que conhecemos como lógica intuicionista. 
> Esta questão da adequação é legítima, não importa o quão informal seja a 
> sua fundamentação (explicação, semântica). 


Este questionamento é sem dúvidas legítimo e pode ser problemático em BHK 
dado a sua falta de rigorosidade. Contudo, só temo que seja muito injusto 
tirar daí que...

[...] Confesso que, às vezes, me pergunto se o 
> intuicionismo tradicional, como exemplificado pela tradição BHK, seria 
> mesmo uma posição filosoficamente coerente.

(Trecho de uma mensagem anterior do Hermógenes)

...a escola intuicionista ofereça uma posição filosoficamente 
insatisfatória, uma vez que BHK é uma tentativa relaxada de representar 
apenas uma pequena fatia desta corrente de pensamento. Pessoalmente, 
acredito que haja desenvolvimentos filosoficamente interessantes e 
rigorosos do intuicionismo desde a emergência da MLETT e das teorias de 
tipo computacionais mencionadas em minha mensagem anterior. O artigo 
'Constructive mathematics and computer programming' (1982) do Martin-Löf, 
que você deve conhecer, é a referência canônica no assunto.

Abraços lógicos,
Bruno

--
Bruno Bentzen
https://sites.google.com/site/bbentzena/

On Friday, April 7, 2017 at 5:58:57 PM UTC+8, Joao Marcos wrote:
>
> Viva, Hermógenes: 
>
> Obrigado pela resposta. 
>
> >>> Eu, pessoalmente, acho ECQ um princípio *muito* suspeito.  O 
> >>> difícil é que, sem ECQ, um construtivista ficaria basicamente sem 
> >>> negação (ao estilo do cálculo mínimo de Johansson), ou a negação 
> >>> cessaria de ser um operador *lógico*. 
> >> 
> >> Por quê, Hermógenes? 
> > 
> > Bem, o problema é o que colocar no lugar de ECQ que, ao mesmo tempo, 
> > (1) seja razoável se chamar de "negação" (ou, melhor, "absurdo", no 
> > caso da negação definida pelo absurdo), e (2) seja construtivamente 
> > justificável. 
> > 
> > Se permanecemos com a negação definida como ¬A≡A→⊥ *e não colocamos 
> > nada no lugar de ECQ*, então as nossas inferências dedutivas corretas 
> > são exatamente aquelas do fragmento mínimo sem negação e, do ponto de 
> > vista inferencial, não é possível distinguir o absurdo (⊥) de outra 
> > sentença qualquer: nós basicamente não teríamos a negação no âmbito 
> > das inferências lógicas. 
>
> Por um lado, vale notar que há sim uma maneira neste caso de 
> distinguir a negação, vista como um conectivo com interpretação 
> parcialmente não-determinística aplicada a uma outra sentença qualquer 
> (note-se que a negação de uma sentença falsa é perfeitamente 
> determinística, usando a definição acima; o "problema" está apenas na 
> negação de sentenças verdadeiras), de uma sentença atômica arbitrária: 
> note com efeito que a regra de substituição uniforme não se aplica ao 
> símbolo de absurdo, como um *conectivo* nulário, tal como se aplica a 
> sentenças atômicas. 
>
> Por outro lado, não vejo porque deveríamos pensar sempre na negação 
> como conectivo *derivado*.  Aliás, isto parece até uma ideia bem 
> ruinzinha, do ponto de vista de lógicas não-clássicas em que a 
> interdefinibilidade entre conectivos clássicos usualmente se perde 
> pelo caminho. 
>
> > Obviamente, poderiamos ainda introduzir uma 
> > noção de incompatibilidade entre sentenças e, mantendo apenas as 
> > regras de inferência do fragmento mínimo, tratar a negação no âmbito 
> > extra-lógico: a negação deixa de ser um operador lógico (se entendemos 
> > por lógica apenas aquilo que está sendo capturado pelas nossas regras 
> > de inferência). 
> > 
> > Espero que agora esteja mais claro.  Ou você estaria perguntando o 
> > porquê de eu achar ECQ um princípio suspeito? 
>
> Não.  Concordamos que ECQ é muito suspeito. :-)  Aliás, o papel do 
> símbolo ⊥ em Dedução Natural é frequentemente artificial e "suspeito". 
>
> >>> Martin-Löf, no artigo de fundamentação filosófica da sua Teoria dos 
> >>> Tipos[7], assume que as regras de introdução dão o significado das 
> >>> constantes lógicas e, a partir daí, justifica as regras de 
> >>> eliminação. 
> >> 
> >> E o que dizer do conectivo nulário de absurdo, que não possui regra 
> >> de introdução? 
> > 
> > Bem, segundo Martin-Löf, há uma regra de introdução para o absurdo 
> > (⊥): sob nenhuma circunstância podemos introduzir o absurdo (⊥).  Isto 
> > é uma regra de introdução no sentido em que diz algo sobre as 
> > circunstâncias em que teríamos uma prova do absurdo (similar à 
> > cláusula BHK para o absurdo). 
> > 
> > Daí, ele justifica ECQ como regra de eliminação usando, inclusive, um 
> > exemplo não muito convincente envolvendo um chapéu. :-o 
>
> Hummm...  Dualmente, qual seria a regra de eliminação do top?  A regra 
> de que "sob nenhuma circunstância podemos eliminar o top"?  Parece-me 
> um simples forçação de barra. 
>
> Abraços, 
> Joao Marcos 
>
> -- 
> http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ 
>

-- 
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos 
Grupos do Google.
Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
e-mail para [email protected].
Para postar neste grupo, envie um e-mail para [email protected].
Visite este grupo em https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/group/logica-l/.
Para ver esta discussão na web, acesse 
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/f88f1fe1-6469-42ed-bf0e-5dba4a3f75b4%40dimap.ufrn.br.

Responder a