Oi, Marcos:

Obrigado pela mensagem.  Talvez eu não tenha lido com suficiente
atenção os artigos de Bernard Suits e de Jim Stone, mas me pareceu que
eles terão defendido, entre outras coisas, que:

(0) A análise wittgensteiniana da natureza dos jogos serviu antes de
mais nada para defender a tese de que definições deveriam ser dadas
através de "semelhanças de família".

(1) Não é completamente óbvio que a tese wittgensteiniana apontada em
(0) tenha sido inteiramente bem-sucedida sequer em caracterizar
adequadamente o conceito de *jogo* (nem do ponto de vista filosófico,
nem muito menos ---acrescento eu--- do ponto de vista matemático).

(2) A aplicação da doutrina das "semelhanças de família" a outros
conceitos ---e em particular ao conceito de *número*--- resultou
bastante menos persuasiva do que no caso do conceito de jogo, já
criticado em (1).  (O Jim Stone admite em particular que a doutrina
wittgensteiniana faz parte hoje "do arsenal da filosofia analítica"
mas também defende que ela "teve uma influência particularmente nociva
em disciplinas intimamente relacionadas com a filosofia, por exemplo,
a teologia filosófica": https://philpapers.org/archive/STOATO-5.pdf)

(3) A possibilidade de propor definições úteis e informativas (ou ao
menos condições suficientes e necessárias para a caracterização) do
conceito de jogo: no caso de Stone, por exemplo, estas incluem o fato
de que jogos estão "destinados à recreação ou ao exercício de
capacidades físicas ou mentais dos participantes", e no caso de Suits
a proposta tentativa de que um jogo consiste em participar de
atividades "nas quais se escolhe intencionalmente (ou racionalmente)
meios ineficientes", produzindo "um esforço voluntário para superar
obstáculos desnecessários" --- acrescento como exemplo o jogo de
voleibol, no qual os participantes se esforçam muito ensejar algo que
ocorrerá inexoravelmente, de maneira independente de seus esforços,
que é fazer a bola cair ao chão.
(Um outro texto provocador do Suits:
Será a vida um jogo que estamos jogando?
http://criticanarede.com/avidaeumjogo.html)

Ah, e por falar no Bernard Suits, será que algum dos colegas aqui leu
"A Cigarra Filosófica"?

Abraços,
Joao Marcos


2017-08-03 20:15 GMT+02:00 Marcos Silva <[email protected]>:
>
> Olá, JM,
>
> obrigado pelo link provocador.
>
> eu tenho grande dificuldade para pensar em qualquer base textual que poderia 
> justificar ou mesmo sugerir o "ao contrário do que pensava Wittgenstein" no 
> último parágrafo do texto.
>
>> "Se as definições de Suits e Stone são bem-sucedidas ou não, cabe ao leitor 
>> decidir. No entanto, ambos os artigos dão ótimos indícios de que, ao 
>> contrário do que pensava Wittgenstein e os seus seguidores, refletir sobre a 
>> natureza dos jogos pode ser profícuo, inclusive para áreas não imediata ou 
>> obviamente ligadas aos jogos, como é o caso das atividades artísticas e das 
>> atividades realizadas por membros das instituições jurídicas (por exemplo, 
>> até que ponto poderíamos descrever a atividade de um artista ou a de um 
>> advogado como o jogar de um jogo? Saber por que sim ou por que não pode 
>> iluminar aspectos dessas atividades a que não tínhamos anteriormente dado 
>> muita atenção)."
>
>
> Por que "Wittgenstein e seus seguidores" não acreditariam que é profícuo 
> refletir sobre a natureza de jogos inclusive com as consequencias 
> interdisciplinares aludidas?
>
> É fácil encontrar bons trabalhos sobre a filosofia de Wittgenstein que 
> mostram  que a reflexão sobre a natureza de jogos e as consequencias 
> relevantes disto para linguagem, logica, matemática, psicologia, estética 
> etc. já aparecem no começo da década de 30  em sua carreira filosófica e vão 
> até a sua morte em 1951.
>
> Os resenhistas parecem ignorar duas décadas de reflexão intensa do filósofo 
> sobre a natureza fascinante (e elusiva) de jogos e sua relação com práticas 
> humanas diversas.
>
>
>
> Livre de vírus. www.avast.com.
>
> 2017-08-02 10:55 GMT-03:00 Joao Marcos <[email protected]>:
>>
>> Rescensões (com links) de artigos de Bernard Suits e Jim Stone sobre o 
>> assunto:
>> http://criticanarede.com/ascensao.html
>> -- por Lucas Miotto e Vitor Guerreiro
>>
>>
>> JM

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