Prezado Marcos,

No ambiente acadêmico atual, incluindo o filosófico, em um ou outra medida,
somos torcedores fanáticos, hooligans intelectuais de alguma gangue de
pesquisadores, até eu que sou um iconoclasta. Por exemplo, se alguém
apresenta um projeto de pesquisa apoia a relevância da sua pesquisa na
importância do filósofo ou temas que estuda e ai começa tudo. Se alguém
criticar o filósofo X, os Xsanos e os Xsistas vão se sentir muito
ofendidos. Dizer X nunca me pareceu interessante é equivalente a xingar
a Xsanos e Xsistas.

Poderíamos dizer "não são de seu agrado", mas isso não tem a menor
importância. É claro, deveria fazer uma crítica fundamentada para algo que
não despertou em mim o mais mínimo interesse. Isso é quase que impossível
porque muitas outras coisas despertam o meu interesse. Eu fiz uma coisa
simples: procurei "family ressemblance" no índice e li umas poucas páginas
que comentava. Encontrei uma estreiteza de pensamento indigna de um
filósofo.

Pensei sobre o texto de W.: "claramente, pode implicar uma posição que
tenderia ao anti-essencialismo". Nada disso aparece nos autores
recomendados, mas sim em artigos que eu coloquei na bibliografia  de outro
e-mail, sobre tudo "Species as family resemblance concepts ... " (outra que
"jogo": as espécies no sentido biológico como family ressemblances). São
necrófilos (adorei a expressão da Kristeva) porque se preocupam pelo que
verdadeiramente quis dizer W. e não pelo que ele fala para nós no
desenvolvimento histórico da filosofia. Borges disse que os comentadores
fazem com que um pensador tinha falado mais do que falou e cada vez mais e
mais. Para mim W. fala "estou desconfiando do essencialismo", para esses
comentadores a letra está morta e não fala nada para ninguém, falar que
poderia ser um sacrilégio por se afastar do mestre. Esses comentadores tão
minuciosos que tem implícito um "cala a boca, o que você sabe do X? Eu
conheço cada letra "a" que o X escreveu!".

Como historiador da ciência que gastou horas com as fontes originais
(obrigado archive.org), dizer que esse conceito de "family ressemblances" é
confuso e mal determinado, não tem muito valor, etc., não é um sacrilégio
contra W., mas aceitar como acontece o desenvolvimento histórico das
ideias. A forma fantasiosa de pensar a história da filosofia que ainda está
bastante em boga, foi criticada implicitamente a partir de 1960 quando a
história da ciência muda de "Lavoisier descobriu  o conceito de elemento
químico" pelo longo percurso de desenvolvimento conceitual de "elemento"
desde Lavoisier até os conceitos próprios de cada teoria física ou química
atual. O artigo citado acima trabalha no sentido atual, os livros que você
indicou trabalham da maneira de fazer história da ciência em 1920.
Seguramente, eles "esclarecem W.", etc., mas isso por si só não representa
grande coisa. Sem ofensa: eu nunca encontrei o pensamento de W. muito
interessante, mas com livros como os que você recomendou, muito a ver com a
metáfora de "religiosos", menos ainda. Mas com os artigo citados por mim
que encontrei na pesquisa biblio relâmpago, vi a coisa de uma outra maneira
como se W. não estivesse muito contente com o essencialismo e a ontologia
aristotélica, ao contrário do que parece com os comentadores citados. E
esse descontento poderia ser o início de uma crítica e uma nova maneira de
pensar alguns conceitos fundamentais, mas nada disso aconteceu
historicamente. Com o pouco e nada que conheço a W., ficava com a impressão
de que ele era um dos filósofos do século XX que incidiram no "mal
caminho", mas com a brevíssima leitura que fiz fiquei mais pensando se a
culpa do "mal caminho" não era mais dos wittgenstianos que de W., aquela
interpretação super positivista de W., (os primeiros wittgenstianos, etc.).
Sobre tudo quando são colocadas diferentes interpretações com em:
BANGU, SORIN. "Later Wittgenstein on Essentialism, Family Resemblance and
Philosophical Method1." Metaphysica (2005): 53.

Com relação a "introduzir um livro muito influente da historia da filosofia
recente", eu agradeço, porque me esclarece como são as influenças, quero
dizer, as influências (Freud explica) na "história da filosofia recente'.
Recomendar a um filósofo um livro que não goste e que não seja do seu
agrado pode ser uma boa coisa. Acho que você não estava enganado, pois eu
pedi "introdutório" num sentido similar. Você estaria enganado se eu
tivesse falado: "recomenda ... que eu goste". Mas eu não queria isso.

Com relação a:

>>>>>>>>
acho que muito da nossa dificuldade com estes tópicos controversos como o
de  "semelhança de família" e "jogos de linguagem" não está na defesa ou
 conflito entre ideias ou teses filosóficas,  mas no choque mesmo entre
tradições filosóficas. Alguns autores em filosofia não estão só defendendo
teses, mas informando uma nova tradição. E isto é processo longo e
complicado. acho que wittgenstein estava tentando fazer isto do jeito
elusivo dele
<<<<<<<<

Talvez nesse sentido também a história da filosofia esteja atrasada com
relação à história da ciência. Você escreveu alguma coisa sobre isso? Eu
vou dar uma olhada nos autores citados por você, que não conheço.

Carlos


2017-08-08 19:01 GMT-03:00 Marcos Silva <marcossilv...@gmail.com>:

> caro carlos,
>
> obrigado pela sua interessante mensagem.
>
> lamento que os livros que eu indiquei não foram do seu agrado.
>
> eles não são obras, digamos, para converter não-convertidos, mas para algo
> bem mais modesto: introduzir um livro muito influente da historia da
> filosofia recente. eu pensei que este era o objetivo da sua mensagem
> anterior. acho que estava enganado.
>
> eu falo em conversão propositalmente.
>
> acho que muito da nossa dificuldade com estes tópicos controversos como o
> de  "semelhança de família" e "jogos de linguagem" não está na defesa ou
>  conflito entre ideias ou teses filosóficas,  mas no choque mesmo entre
> tradições filosóficas. Alguns autores em filosofia não estão só defendendo
> teses, mas informando uma nova tradição. E isto é processo longo e
> complicado. acho que wittgenstein estava tentando fazer isto do jeito
> elusivo dele.
>
> ++++
>
> neste front do conflito entre tradições filosóficas, como a fregeana e a
> wittgensteniana, e em tentativas de convencimento/quase conversão entre
> recalcitrantes contumazes, eu indico os trabalhos do mattieu marion,
> jaroslav peregrin, hans glock e robert brandom.
>
> eu não sou competente suficiente para trabalhar no front de discussão
> entre tradições, mas admiro muito quem consegue, e tento consumir a obra
> deles com curiosidade e open mindeness.
>
> minhas contribuições, se alguma, são bem restritas.
>
> abraços,
> marcos
>
>
>
>
> 2017-08-08 13:02 GMT-03:00 Carlos Gonzalez <gonza...@gmail.com>:
>
>> Prezados Marcos e lista,
>>
>> O que li até agora de Andrew Lugg e do David Stern não me serviu para
>> nada e não gostei. Pareceu-me que "family ressemblance" é um conceito
>> confuso e sem muito valor. Aqui não é o lugar para discutir isso.
>> "see a complicated network of similaties, overlapping and criss-crossing:
>> sometimes overall sometimes similarities of detail"
>>
>> Ia pedir mais biblio, mas tomei vergonha na cara, parei de ser folgado e
>> fiz uma pesquizinha biblio.
>>
>> É claro, a questão está relacionada a essencialismo. Pigliucci, Massimo
>> por exemplo, relaciona a "family ressemblance" com uma forma de não
>> essencialismo.
>> Muito mais interessante. é  trabalho de : Hull, David L             The
>> effect of essentialism on taxonomy--two thousand years of stasis
>>
>> Falam por ai que a vantagem de  Hull, David L. é que é um filósofo e um
>> biólogo. Depois de ver os trabalhos de Hempel sobre classificação biológica
>> dá realmente vontade de dizer que analise a pesquisa biológica que está
>> acontecendo. Pena que não seja também computeiro.
>>
>> O que eu não entendo é porque deixam de lado tantas coisas interessantes
>> que temos aprendido com Data Custering e Pattern Recognition.
>>
>> [autocensurado] "discussão wittgenstiana sobre jogo", "family
>> ressemblance", etc. não seria melhor analisar como procedem os computeiros?
>>
>> Para fazer um Data Cluster precisa:
>>
>> 1) Uma seleção de algumas propriedades
>> 2) Um espaço de características, (uma entre várias estruturas
>> matemáticas. Poderia ser até um espaço euclidiano, mais ou menos)
>> 3) Um algoritmo.
>>
>> Dado que o 3) é relevante, pois diferentes algoritmos podem gerar
>> classificações diferentes, fica a interessante questão:
>>
>> >>>>>>>>>>>>>
>> Por que uma seleção de propriedades e uma estrutura matemática não são
>> suficientes para determinar uma classificação?
>> <<<<<<<<<<<<<
>>
>> (Salva-me Porfírio)
>>
>> Carlos
>>
>> A biblio, por se alguém se interessar:
>>
>>
>> @article{hull1965effect_I,
>>   title={The effect of essentialism on taxonomy--two thousand years of
>> stasis (I)},
>>   author={Hull, David L},
>>   journal={The British Journal for the Philosophy of Science},
>>   volume={15},
>>   number={60},
>>   pages={314--326},
>>   year={1965},
>>   publisher={JSTOR}
>> }
>>
>> @article{hull1965effect_II,
>>   title={The effect of essentialism on taxonomy--two thousand years of
>> stasis (II)},
>>   author={Hull, David L},
>>   journal={The British Journal for the Philosophy of Science},
>>   volume={16},
>>   number={61},
>>   pages={1--18},
>>   year={1965},
>>   publisher={JSTOR}
>> }
>>
>> @article{Davi-1988,
>> doi = {10.1007/bf00140989},
>> title = {A mechanism and its metaphysics: An evolutionary account of the
>> social and conceptual development of science},
>> author = {David L. Hull},
>> publisher = {Springer Netherlands},
>> journal = {Biology & Philosophy},
>> issnp = {0169-3867},
>> issne = {1572-8404},
>> year = {1988},
>> month = {04},
>> volume = {3},
>> issue = {2},
>> page = {123--155},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/bf00140989
>> },
>> }
>>
>> @article{Pau-1976,
>> doi = {10.1007/bf00158483},
>> title = {Book reviews},
>> author = {Paul Piccone; Diana Crane; Ian Roxborough; David L. Hull; J.
>> M. Winter},
>> publisher = {Springer Netherlands},
>> journal = {Theory and Society},
>> issnp = {0304-2421},
>> issne = {1573-7853},
>> year = {1976},
>> month = {21},
>> volume = {3},
>> issue = {1},
>> page = {135--152},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/bf00158483
>> },
>> }
>>
>> @article{Davi-1990,
>> doi = {10.1007/bf00370978},
>> title = {Conceptual selection},
>> author = {David L. Hull},
>> publisher = {Springer Netherlands},
>> journal = {Philosophical Studies},
>> issnp = {0031-8116},
>> issne = {1573-0883},
>> year = {1990},
>> month = {09-10},
>> volume = {60},
>> issue = {1-2},
>> page = {77--87},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/bf00370978
>> },
>> }
>>
>> @article{Davi-1969,
>> doi = {10.1007/bf00413784},
>> title = {What philosophy of biology is not},
>> author = {David L. Hull},
>> publisher = {Springer Netherlands},
>> journal = {Synthese},
>> issnp = {0039-7857},
>> issne = {1573-0964},
>> year = {1969},
>> month = {08},
>> volume = {20},
>> issue = {2},
>> page = {157--184},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/bf00413784
>> },
>> }
>>
>> @article{Davi-1994,
>> doi = {10.1007/bf00849918},
>> title = {Review article},
>> author = {David L. Hull},
>> publisher = {Springer Netherlands},
>> journal = {Biology & Philosophy},
>> issnp = {0169-3867},
>> issne = {1572-8404},
>> year = {1994},
>> month = {01},
>> volume = {9},
>> issue = {1},
>> page = {105--112},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/bf00849918
>> },
>> }
>>
>> @article{Howar-2008,
>> doi = {10.1007/s00191-008-0110-z},
>> title = {In defence of generalized Darwinism},
>> author = {Howard E. Aldrich; Geoffrey M. Hodgson; David L. Hull;
>> Thorbjørn Knudsen; Joel Mokyr; Viktor J. Vanberg},
>> publisher = {Springer-Verlag},
>> journal = {Journal of Evolutionary Economics},
>> issnp = {0936-9937},
>> issne = {1432-1386},
>> year = {2008},
>> month = {10},
>> volume = {18},
>> issue = {5},
>> page = {577--596},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/s00191-008
>> -0110-z},
>> }
>>
>> @article{DAVI-2005,
>> doi = {10.1007/s10739-004-6514-1},
>> title = {Deconstructing Darwin: Evolutionary Theory in Context},
>> author = {DAVID L. HULL},
>> publisher = {Springer Netherlands},
>> journal = {Journal of the History of Biology},
>> issnp = {0022-5010},
>> issne = {1573-0387},
>> year = {2005},
>> volume = {38},
>> issue = {1},
>> page = {137--152},
>> url =       {http://gen.lib.rus.ec/scimag/index.php?s=10.1007/s10739-004
>> -6514-1},
>> }
>>
>> @article{pigliucci2003species,
>>   title={Species as family resemblance concepts: The (dis-) solution of
>> the species problem?},
>>   author={Pigliucci, Massimo},
>>   journal={BioEssays},
>>   volume={25},
>>   number={6},
>>   pages={596--602},
>>   year={2003},
>>   publisher={Wiley Online Library}
>> }
>>
>>
>>
>>
>>
>>
>>
>>
>> 2017-08-06 19:38 GMT-03:00 Marcos Silva <marcossilv...@gmail.com>:
>>
>>> 1) Poderiam passar uma bibliografia introdutória para "semelhança de
>>>> família"?
>>>
>>>
>>> Eu indico os livros do Andrew Lugg e do David Stern sobre as
>>> "investigações filosóficas" . Os pdfs são fáceis de encontrar na net.
>>>
>>> esta entrada na sep também me parece ser uma introdução competente:
>>> https://plato.stanford.edu/entries/wittgenstein/#LangGameFamiRese
>>>
>>> 2017-08-06 16:49 GMT-03:00 Carlos Gonzalez <gonza...@gmail.com>:
>>>
>>>> 1) Poderiam passar uma bibliografia introdutória para "semelhança de
>>>> família"?
>>>>
>>>> 2) O que fala Wittgenstein sobre jogo e criança. São as crianças as que
>>>> jogam. Chamamos também de jogo atividades de filhotes de mamíferos e aves.
>>>>
>>>> 3) Posso estar equivocado, mas eu vejo nesse tipo de discussões muito
>>>> preconceito essencialista, falando no sentido epistêmico (desconsideremos o
>>>> metafísico). Refiro-me a que a pergunta "o que é isto?" tem resposta, tem
>>>> uma única resposta, etc. Falar "natureza dos jogos" é essencialista.
>>>>
>>>> 4) Até os anos 70 (eu acho + ou -), existia o preconceito de uma
>>>> "estrutura natural" em qualquer base de dados. A pesquisa em agrupamentos
>>>> de dados e reconhecimento de padrões mostrou a insustentabilidade desse
>>>> preconceito. Nesta lista foi citado um artigo "clustering é impossível".
>>>> Não existindo "padrões naturais", não faz sentido falar da "natureza dos
>>>> jogos".
>>>>
>>>> 5) Definição por "gênero e diferença" é uma proposta ridícula, que nem
>>>> Aristóteles posso aplicar na sua "História dos Animais". Se quiserem ver
>>>> uma boa crítica à árvore de Porfírio, leiam "O idioma analítico de John
>>>> Wilkins" de Borges.
>>>>
>>>> 6) A ciência que mais lutou com definições, a que mais problemas teve
>>>> desde a antiguidade com a classificação, foi a biologia. Quando um
>>>> agrupamento pode ser definido por um conjunto de propriedades que tem mais
>>>> um grupo de propriedades que não tem (uma generalização do
>>>> gênero+diferença) é muitas vezes chamado de "esférico" (pelo conceito
>>>> topológico de "bola fechada"). Eu acho que na biologia tem pouquíssimas
>>>> espécies com agrupamentos esféricos e eu encontrei um monte que não. Tem de
>>>> ter cuidado entre o desiderato da classificação biológica e o que essa
>>>> classificação consegue de fato. Por exemplo, Hempel enganou-se
>>>> infantilmente pensando que a classificação que os biólogos conseguiam era
>>>> aquela que queriam ---eu nem conseguia acreditar nisso! Para colocar um
>>>> exemplo concreto: "o gênero capsicum é um pesadelo taxonómico" falou uma
>>>> autoridade na área: rapaiz!, nem as pimentas você consegue classificar! Por
>>>> que não tenta com o conceito de jogo :-)
>>>>
>>>> 7) Não tem nada a ver que um conceito seja útil, interessante,
>>>> aplicável, fundamental para uma ciência, barato, lindo, amável, ecológico,
>>>> etc., com ter definição ou com os problemas de ser definido.
>>>>
>>>> 8) Poderia ser interessante analisar porque está se usando uma
>>>> concepção metafísica da linguagem ---a coitada da linguagem, "essa
>>>> desconhecida" nas palavras de Julia Kristeva. E como estão presentes mais
>>>> de uma forma do "paradoxo da análise" (gostei do que fala Tomás Moro
>>>> Simpson sobre o paradoxo da análise no seu livro, ele que se denominava um
>>>> filósofo analítico). Mas é bastante trabalho. Eu acho que deveríamos baixar
>>>> dessa linguagem metafísica para a linguagem como criação humana. Para citar
>>>> Julia Kristeva: "as modificações linguísticas são modificações do estado do
>>>> sujeito — da sua relação com o corpo, com os outros, com os objetos”. Mais
>>>> Kristeva: "Pensees d'archivistes, d'archeologues ou de necrophiles que nos
>>>> philosophies du langage, avatars de l'Idee, qui se fascinent devant les
>>>> restes d'un fonctionnement entre autres discursif, et remplacent, par ce
>>>> fetiche, ce qui l'a produit." (Julia Kristeva. La révolution du langage
>>>> poétique, Vol. 48. Editions du Seuil, 1974.. p. 11). A discussão que faz
>>>> Wittgenstein usando a sua concepção metafísica de linguagem tem muito de
>>>> necrófila. O corpo da linguagem é um cadáver e a alma da linguagem é
>>>> formal. "A possibilidade de propor definições úteis e informativas (ou
>>>> ao menos condições suficientes e necessárias para a caracterização)
>>>> do conceito de jogo", também é matar a linguagem e brincar de necrofilia
>>>> com o cadáver: é querer analisar o jogo sem a psicologia nem a antropologia
>>>> do homem que joga. E sem a sua história. Lembro de Tácito falando que os
>>>> germânicos apostavam a sua liberdade jogando aos dados, virando escravos se
>>>> perderem.
>>>>
>>>> 9) Se eu fui agressivo ou ofensivo, me desculpem. Extra iocum, não
>>>> entendo muito bem a que vocês estão jogando.
>>>>
>>>> Carlos
>>>>
>>>> P.S.: Os números são uma homenagem aos filósofos analíticos. Sim, sim,
>>>> eu já fui associado a SADAF durante alguns anos.
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>>
>>>> 2017-08-03 17:11 GMT-03:00 Manuel Doria <manueldo...@gmail.com>:
>>>>
>>>>> Ainda não li o artigo.
>>>>>
>>>>> Eu penso que se de fato existir uma propriedade individualmente
>>>>> necessária e *não-trivial* compartilhada pelo gamão, StarCraft, bilboquê e
>>>>> pôker, isso não irá ferir muito a tese de semelhança de família. No 
>>>>> mínimo,
>>>>> foi difícil encontrar um set de propriedades individidualmente necessárias
>>>>> e conjuntamente suficientes para JOGO e isso não foi óbvio. Seu papel
>>>>> cognitivo pode não ser muito influente.
>>>>>
>>>>> Um dos desdobramentos da tese de semelhança de família, em contraponto
>>>>> à visão definicionista ou clássica de conceitos, é que existem exemplos
>>>>> melhores ou piores para determinada categoria. Esses são os chamados 
>>>>> *prototype
>>>>> effects*, que deram origem através de Eleanor Rosch a uma das teorias
>>>>> de conceitos em voga nas ciências cognitivas contemporâneas. Um sabiá para
>>>>> o ornitólogo *folk* é um excelente exemplo do conceito AVE, um
>>>>> *Archaeopteryx* vai ficar na berlinda. Existem várias representações
>>>>> geométricas propostas para protótipos.
>>>>>
>>>>> [ ]'s
>>>>>
>>>>> 2017-08-03 17:00 GMT-03:00 Márcio Palmares <marciopalma...@gmail.com>:
>>>>>
>>>>>> Uma curiosidade: em seu livro "A Escalada do Homem" Jacob Bronowski
>>>>>> diz que von Neumann não considerava o xadrez como um jogo. De acordo com
>>>>>> Bronowski, von Neumann afirmava que o xadrez seria uma espécie de 
>>>>>> "técnica
>>>>>> de computação": para cada posição no tabuleiro, existe uma única solução
>>>>>> que é a melhor possível, encontrá-la é um problema meramente 
>>>>>> computacional.
>>>>>> Sendo assim, não é um jogo. Um jogo seria algo como o poker, por exemplo,
>>>>>> onde há blefe, acaso, dúvida, etc.
>>>>>>
>>>>>> (Desisti de tentar jogar xadrez bem depois de saber disso, haha...)
>>>>>>
>>>>>> []'s
>>>>>>
>>>>>> M.
>>>>>>
>>>>>> Em 3 de agosto de 2017 16:26, Joao Marcos <botoc...@gmail.com>
>>>>>> escreveu:
>>>>>>
>>>>>>> Oi, Marcos:
>>>>>>>
>>>>>>> Obrigado pela mensagem.  Talvez eu não tenha lido com suficiente
>>>>>>> atenção os artigos de Bernard Suits e de Jim Stone, mas me pareceu
>>>>>>> que
>>>>>>> eles terão defendido, entre outras coisas, que:
>>>>>>>
>>>>>>> (0) A análise wittgensteiniana da natureza dos jogos serviu antes de
>>>>>>> mais nada para defender a tese de que definições deveriam ser dadas
>>>>>>> através de "semelhanças de família".
>>>>>>>
>>>>>>> (1) Não é completamente óbvio que a tese wittgensteiniana apontada em
>>>>>>> (0) tenha sido inteiramente bem-sucedida sequer em caracterizar
>>>>>>> adequadamente o conceito de *jogo* (nem do ponto de vista filosófico,
>>>>>>> nem muito menos ---acrescento eu--- do ponto de vista matemático).
>>>>>>>
>>>>>>> (2) A aplicação da doutrina das "semelhanças de família" a outros
>>>>>>> conceitos ---e em particular ao conceito de *número*--- resultou
>>>>>>> bastante menos persuasiva do que no caso do conceito de jogo, já
>>>>>>> criticado em (1).  (O Jim Stone admite em particular que a doutrina
>>>>>>> wittgensteiniana faz parte hoje "do arsenal da filosofia analítica"
>>>>>>> mas também defende que ela "teve uma influência particularmente
>>>>>>> nociva
>>>>>>> em disciplinas intimamente relacionadas com a filosofia, por exemplo,
>>>>>>> a teologia filosófica": https://philpapers.org/archive/STOATO-5.pdf)
>>>>>>>
>>>>>>> (3) A possibilidade de propor definições úteis e informativas (ou ao
>>>>>>> menos condições suficientes e necessárias para a caracterização) do
>>>>>>> conceito de jogo: no caso de Stone, por exemplo, estas incluem o fato
>>>>>>> de que jogos estão "destinados à recreação ou ao exercício de
>>>>>>> capacidades físicas ou mentais dos participantes", e no caso de Suits
>>>>>>> a proposta tentativa de que um jogo consiste em participar de
>>>>>>> atividades "nas quais se escolhe intencionalmente (ou racionalmente)
>>>>>>> meios ineficientes", produzindo "um esforço voluntário para superar
>>>>>>> obstáculos desnecessários" --- acrescento como exemplo o jogo de
>>>>>>> voleibol, no qual os participantes se esforçam muito ensejar algo que
>>>>>>> ocorrerá inexoravelmente, de maneira independente de seus esforços,
>>>>>>> que é fazer a bola cair ao chão.
>>>>>>> (Um outro texto provocador do Suits:
>>>>>>> Será a vida um jogo que estamos jogando?
>>>>>>> http://criticanarede.com/avidaeumjogo.html)
>>>>>>>
>>>>>>> Ah, e por falar no Bernard Suits, será que algum dos colegas aqui leu
>>>>>>> "A Cigarra Filosófica"?
>>>>>>>
>>>>>>> Abraços,
>>>>>>> Joao Marcos
>>>>>>>
>>>>>>>
>>>>>>> 2017-08-03 20:15 GMT+02:00 Marcos Silva <marcossilv...@gmail.com>:
>>>>>>> >
>>>>>>> > Olá, JM,
>>>>>>> >
>>>>>>> > obrigado pelo link provocador.
>>>>>>> >
>>>>>>> > eu tenho grande dificuldade para pensar em qualquer base textual
>>>>>>> que poderia justificar ou mesmo sugerir o "ao contrário do que pensava
>>>>>>> Wittgenstein" no último parágrafo do texto.
>>>>>>> >
>>>>>>> >> "Se as definições de Suits e Stone são bem-sucedidas ou não, cabe
>>>>>>> ao leitor decidir. No entanto, ambos os artigos dão ótimos indícios de 
>>>>>>> que,
>>>>>>> ao contrário do que pensava Wittgenstein e os seus seguidores, refletir
>>>>>>> sobre a natureza dos jogos pode ser profícuo, inclusive para áreas não
>>>>>>> imediata ou obviamente ligadas aos jogos, como é o caso das atividades
>>>>>>> artísticas e das atividades realizadas por membros das instituições
>>>>>>> jurídicas (por exemplo, até que ponto poderíamos descrever a atividade 
>>>>>>> de
>>>>>>> um artista ou a de um advogado como o jogar de um jogo? Saber por que 
>>>>>>> sim
>>>>>>> ou por que não pode iluminar aspectos dessas atividades a que não 
>>>>>>> tínhamos
>>>>>>> anteriormente dado muita atenção)."
>>>>>>> >
>>>>>>> >
>>>>>>> > Por que "Wittgenstein e seus seguidores" não acreditariam que é
>>>>>>> profícuo refletir sobre a natureza de jogos inclusive com as 
>>>>>>> consequencias
>>>>>>> interdisciplinares aludidas?
>>>>>>> >
>>>>>>> > É fácil encontrar bons trabalhos sobre a filosofia de Wittgenstein
>>>>>>> que mostram  que a reflexão sobre a natureza de jogos e as consequencias
>>>>>>> relevantes disto para linguagem, logica, matemática, psicologia, 
>>>>>>> estética
>>>>>>> etc. já aparecem no começo da década de 30  em sua carreira filosófica e
>>>>>>> vão até a sua morte em 1951.
>>>>>>> >
>>>>>>> > Os resenhistas parecem ignorar duas décadas de reflexão intensa do
>>>>>>> filósofo sobre a natureza fascinante (e elusiva) de jogos e sua relação 
>>>>>>> com
>>>>>>> práticas humanas diversas.
>>>>>>> >
>>>>>>> >
>>>>>>> >
>>>>>>> > Livre de vírus. www.avast.com.
>>>>>>> >
>>>>>>> > 2017-08-02 10:55 GMT-03:00 Joao Marcos <botoc...@gmail.com>:
>>>>>>> >>
>>>>>>> >> Rescensões (com links) de artigos de Bernard Suits e Jim Stone
>>>>>>> sobre o assunto:
>>>>>>> >> http://criticanarede.com/ascensao.html
>>>>>>> >> -- por Lucas Miotto e Vitor Guerreiro
>>>>>>> >>
>>>>>>> >>
>>>>>>> >> JM
>>>>>>>
>>>>>>> --
>>>>>>> http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
>>>>>>>
>>>>>>> --
>>>>>>> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo
>>>>>>> "LOGICA-L" dos Grupos do Google.
>>>>>>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele,
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>>> "Colours in Wittgenstein's Philosophical Development" (Palgrave, 2017)
>>> http://www.palgrave.com/br/book/9783319569185
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