>
> 1) Poderiam passar uma bibliografia introdutória para "semelhança de
> família"?


Eu indico os livros do Andrew Lugg e do David Stern sobre as "investigações
filosóficas" . Os pdfs são fáceis de encontrar na net.

esta entrada na sep também me parece ser uma introdução competente:
https://plato.stanford.edu/entries/wittgenstein/#LangGameFamiRese

2017-08-06 16:49 GMT-03:00 Carlos Gonzalez <gonza...@gmail.com>:

> 1) Poderiam passar uma bibliografia introdutória para "semelhança de
> família"?
>
> 2) O que fala Wittgenstein sobre jogo e criança. São as crianças as que
> jogam. Chamamos também de jogo atividades de filhotes de mamíferos e aves.
>
> 3) Posso estar equivocado, mas eu vejo nesse tipo de discussões muito
> preconceito essencialista, falando no sentido epistêmico (desconsideremos o
> metafísico). Refiro-me a que a pergunta "o que é isto?" tem resposta, tem
> uma única resposta, etc. Falar "natureza dos jogos" é essencialista.
>
> 4) Até os anos 70 (eu acho + ou -), existia o preconceito de uma
> "estrutura natural" em qualquer base de dados. A pesquisa em agrupamentos
> de dados e reconhecimento de padrões mostrou a insustentabilidade desse
> preconceito. Nesta lista foi citado um artigo "clustering é impossível".
> Não existindo "padrões naturais", não faz sentido falar da "natureza dos
> jogos".
>
> 5) Definição por "gênero e diferença" é uma proposta ridícula, que nem
> Aristóteles posso aplicar na sua "História dos Animais". Se quiserem ver
> uma boa crítica à árvore de Porfírio, leiam "O idioma analítico de John
> Wilkins" de Borges.
>
> 6) A ciência que mais lutou com definições, a que mais problemas teve
> desde a antiguidade com a classificação, foi a biologia. Quando um
> agrupamento pode ser definido por um conjunto de propriedades que tem mais
> um grupo de propriedades que não tem (uma generalização do
> gênero+diferença) é muitas vezes chamado de "esférico" (pelo conceito
> topológico de "bola fechada"). Eu acho que na biologia tem pouquíssimas
> espécies com agrupamentos esféricos e eu encontrei um monte que não. Tem de
> ter cuidado entre o desiderato da classificação biológica e o que essa
> classificação consegue de fato. Por exemplo, Hempel enganou-se
> infantilmente pensando que a classificação que os biólogos conseguiam era
> aquela que queriam ---eu nem conseguia acreditar nisso! Para colocar um
> exemplo concreto: "o gênero capsicum é um pesadelo taxonómico" falou uma
> autoridade na área: rapaiz!, nem as pimentas você consegue classificar! Por
> que não tenta com o conceito de jogo :-)
>
> 7) Não tem nada a ver que um conceito seja útil, interessante, aplicável,
> fundamental para uma ciência, barato, lindo, amável, ecológico, etc., com
> ter definição ou com os problemas de ser definido.
>
> 8) Poderia ser interessante analisar porque está se usando uma concepção
> metafísica da linguagem ---a coitada da linguagem, "essa desconhecida" nas
> palavras de Julia Kristeva. E como estão presentes mais de uma forma do
> "paradoxo da análise" (gostei do que fala Tomás Moro Simpson sobre o
> paradoxo da análise no seu livro, ele que se denominava um filósofo
> analítico). Mas é bastante trabalho. Eu acho que deveríamos baixar dessa
> linguagem metafísica para a linguagem como criação humana. Para citar Julia
> Kristeva: "as modificações linguísticas são modificações do estado do
> sujeito — da sua relação com o corpo, com os outros, com os objetos”. Mais
> Kristeva: "Pensees d'archivistes, d'archeologues ou de necrophiles que nos
> philosophies du langage, avatars de l'Idee, qui se fascinent devant les
> restes d'un fonctionnement entre autres discursif, et remplacent, par ce
> fetiche, ce qui l'a produit." (Julia Kristeva. La révolution du langage
> poétique, Vol. 48. Editions du Seuil, 1974.. p. 11). A discussão que faz
> Wittgenstein usando a sua concepção metafísica de linguagem tem muito de
> necrófila. O corpo da linguagem é um cadáver e a alma da linguagem é
> formal. "A possibilidade de propor definições úteis e informativas (ou ao 
> menos
> condições suficientes e necessárias para a caracterização) do conceito de
> jogo", também é matar a linguagem e brincar de necrofilia com o cadáver: é
> querer analisar o jogo sem a psicologia nem a antropologia do homem que
> joga. E sem a sua história. Lembro de Tácito falando que os germânicos
> apostavam a sua liberdade jogando aos dados, virando escravos se perderem.
>
> 9) Se eu fui agressivo ou ofensivo, me desculpem. Extra iocum, não entendo
> muito bem a que vocês estão jogando.
>
> Carlos
>
> P.S.: Os números são uma homenagem aos filósofos analíticos. Sim, sim, eu
> já fui associado a SADAF durante alguns anos.
>
>
>
>
>
>
>
>
>
> 2017-08-03 17:11 GMT-03:00 Manuel Doria <manueldo...@gmail.com>:
>
>> Ainda não li o artigo.
>>
>> Eu penso que se de fato existir uma propriedade individualmente
>> necessária e *não-trivial* compartilhada pelo gamão, StarCraft, bilboquê e
>> pôker, isso não irá ferir muito a tese de semelhança de família. No mínimo,
>> foi difícil encontrar um set de propriedades individidualmente necessárias
>> e conjuntamente suficientes para JOGO e isso não foi óbvio. Seu papel
>> cognitivo pode não ser muito influente.
>>
>> Um dos desdobramentos da tese de semelhança de família, em contraponto à
>> visão definicionista ou clássica de conceitos, é que existem exemplos
>> melhores ou piores para determinada categoria. Esses são os chamados 
>> *prototype
>> effects*, que deram origem através de Eleanor Rosch a uma das teorias de
>> conceitos em voga nas ciências cognitivas contemporâneas. Um sabiá para o
>> ornitólogo *folk* é um excelente exemplo do conceito AVE, um
>> *Archaeopteryx* vai ficar na berlinda. Existem várias representações
>> geométricas propostas para protótipos.
>>
>> [ ]'s
>>
>> 2017-08-03 17:00 GMT-03:00 Márcio Palmares <marciopalma...@gmail.com>:
>>
>>> Uma curiosidade: em seu livro "A Escalada do Homem" Jacob Bronowski diz
>>> que von Neumann não considerava o xadrez como um jogo. De acordo com
>>> Bronowski, von Neumann afirmava que o xadrez seria uma espécie de "técnica
>>> de computação": para cada posição no tabuleiro, existe uma única solução
>>> que é a melhor possível, encontrá-la é um problema meramente computacional.
>>> Sendo assim, não é um jogo. Um jogo seria algo como o poker, por exemplo,
>>> onde há blefe, acaso, dúvida, etc.
>>>
>>> (Desisti de tentar jogar xadrez bem depois de saber disso, haha...)
>>>
>>> []'s
>>>
>>> M.
>>>
>>> Em 3 de agosto de 2017 16:26, Joao Marcos <botoc...@gmail.com> escreveu:
>>>
>>>> Oi, Marcos:
>>>>
>>>> Obrigado pela mensagem.  Talvez eu não tenha lido com suficiente
>>>> atenção os artigos de Bernard Suits e de Jim Stone, mas me pareceu que
>>>> eles terão defendido, entre outras coisas, que:
>>>>
>>>> (0) A análise wittgensteiniana da natureza dos jogos serviu antes de
>>>> mais nada para defender a tese de que definições deveriam ser dadas
>>>> através de "semelhanças de família".
>>>>
>>>> (1) Não é completamente óbvio que a tese wittgensteiniana apontada em
>>>> (0) tenha sido inteiramente bem-sucedida sequer em caracterizar
>>>> adequadamente o conceito de *jogo* (nem do ponto de vista filosófico,
>>>> nem muito menos ---acrescento eu--- do ponto de vista matemático).
>>>>
>>>> (2) A aplicação da doutrina das "semelhanças de família" a outros
>>>> conceitos ---e em particular ao conceito de *número*--- resultou
>>>> bastante menos persuasiva do que no caso do conceito de jogo, já
>>>> criticado em (1).  (O Jim Stone admite em particular que a doutrina
>>>> wittgensteiniana faz parte hoje "do arsenal da filosofia analítica"
>>>> mas também defende que ela "teve uma influência particularmente nociva
>>>> em disciplinas intimamente relacionadas com a filosofia, por exemplo,
>>>> a teologia filosófica": https://philpapers.org/archive/STOATO-5.pdf)
>>>>
>>>> (3) A possibilidade de propor definições úteis e informativas (ou ao
>>>> menos condições suficientes e necessárias para a caracterização) do
>>>> conceito de jogo: no caso de Stone, por exemplo, estas incluem o fato
>>>> de que jogos estão "destinados à recreação ou ao exercício de
>>>> capacidades físicas ou mentais dos participantes", e no caso de Suits
>>>> a proposta tentativa de que um jogo consiste em participar de
>>>> atividades "nas quais se escolhe intencionalmente (ou racionalmente)
>>>> meios ineficientes", produzindo "um esforço voluntário para superar
>>>> obstáculos desnecessários" --- acrescento como exemplo o jogo de
>>>> voleibol, no qual os participantes se esforçam muito ensejar algo que
>>>> ocorrerá inexoravelmente, de maneira independente de seus esforços,
>>>> que é fazer a bola cair ao chão.
>>>> (Um outro texto provocador do Suits:
>>>> Será a vida um jogo que estamos jogando?
>>>> http://criticanarede.com/avidaeumjogo.html)
>>>>
>>>> Ah, e por falar no Bernard Suits, será que algum dos colegas aqui leu
>>>> "A Cigarra Filosófica"?
>>>>
>>>> Abraços,
>>>> Joao Marcos
>>>>
>>>>
>>>> 2017-08-03 20:15 GMT+02:00 Marcos Silva <marcossilv...@gmail.com>:
>>>> >
>>>> > Olá, JM,
>>>> >
>>>> > obrigado pelo link provocador.
>>>> >
>>>> > eu tenho grande dificuldade para pensar em qualquer base textual que
>>>> poderia justificar ou mesmo sugerir o "ao contrário do que pensava
>>>> Wittgenstein" no último parágrafo do texto.
>>>> >
>>>> >> "Se as definições de Suits e Stone são bem-sucedidas ou não, cabe ao
>>>> leitor decidir. No entanto, ambos os artigos dão ótimos indícios de que, ao
>>>> contrário do que pensava Wittgenstein e os seus seguidores, refletir sobre
>>>> a natureza dos jogos pode ser profícuo, inclusive para áreas não imediata
>>>> ou obviamente ligadas aos jogos, como é o caso das atividades artísticas e
>>>> das atividades realizadas por membros das instituições jurídicas (por
>>>> exemplo, até que ponto poderíamos descrever a atividade de um artista ou a
>>>> de um advogado como o jogar de um jogo? Saber por que sim ou por que não
>>>> pode iluminar aspectos dessas atividades a que não tínhamos anteriormente
>>>> dado muita atenção)."
>>>> >
>>>> >
>>>> > Por que "Wittgenstein e seus seguidores" não acreditariam que é
>>>> profícuo refletir sobre a natureza de jogos inclusive com as consequencias
>>>> interdisciplinares aludidas?
>>>> >
>>>> > É fácil encontrar bons trabalhos sobre a filosofia de Wittgenstein
>>>> que mostram  que a reflexão sobre a natureza de jogos e as consequencias
>>>> relevantes disto para linguagem, logica, matemática, psicologia, estética
>>>> etc. já aparecem no começo da década de 30  em sua carreira filosófica e
>>>> vão até a sua morte em 1951.
>>>> >
>>>> > Os resenhistas parecem ignorar duas décadas de reflexão intensa do
>>>> filósofo sobre a natureza fascinante (e elusiva) de jogos e sua relação com
>>>> práticas humanas diversas.
>>>> >
>>>> >
>>>> >
>>>> > Livre de vírus. www.avast.com.
>>>> >
>>>> > 2017-08-02 10:55 GMT-03:00 Joao Marcos <botoc...@gmail.com>:
>>>> >>
>>>> >> Rescensões (com links) de artigos de Bernard Suits e Jim Stone sobre
>>>> o assunto:
>>>> >> http://criticanarede.com/ascensao.html
>>>> >> -- por Lucas Miotto e Vitor Guerreiro
>>>> >>
>>>> >>
>>>> >> JM
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Marcos Silva
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Philosophie macht Spaß!

new book is out!
"Colours in Wittgenstein's Philosophical Development" (Palgrave, 2017)
http://www.palgrave.com/br/book/9783319569185

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