Olá, Prolo Só quero deixar claro que nunca traduzi “sentence” por oração. O que também nunca fiz, mas se faz muito, é traduzir “sentence” por “sentença”, e “phrase” por “frase”. Quer-me parecer que se faz este tipo de traduções só porque as palavras numa e noutra língua são parecidas. Idem para “proof” e “prova”, em vez de “demonstração”, ou “internalism” por “internalismo” (a palavra portuguesa vem de onde, “internal”?).
Recentemente, vi “anecdote” traduzido por “anedota”, o que realmente é uma anedota. Quando se traduz é preciso ter atenção não apenas aos significados registados num bom dicionário, mas aos significados mais salientes ou primários. Se um termo X, numa língua, tem o significado Y primário, ou mais comum, é um erro traduzi-lo por X' noutra língua, que até também também o significado Y', nessa língua, mas brutalmente arredado do seu significado principal, mais corrente ou primário. Mas é claro que estas coisas são dinâmicas, porque o significado das palavras é dinâmico e depende do uso que as pessoas fazem. O termo “evidências” está a tornar-se sinónimo de “evidence”, à força de as pessoas a usarem assim. Mas há trinta anos não era usada assim e “evidências” queria só dizer o que salta aos olhos, o que é óbvio, e não o que desempenha o papel de prova empírica. Do meu ponto de vista, a língua portuguesa deveria ser abandonada nas escolas e universidades, e dever-se-ia passar a usar só o inglês. Evitar-se-ia talvez assim que um académico se veja na situação trágica de nem saber escrever português corretamente, nem inglês com elegância e abrangência, por oposição ao inglês meramente técnico. On Monday, 31 August 2020 at 03:24:34 UTC-3 prolo wrote: > Olá. > > oração = clause: subordinate clause, relative clause = oração subordinada, > oração relativa. > Uma sentence=frase contém uma ou mais orações de forma estruturada. > Traduzir sentence como oração provoca uma confusão absolutamente > desnecessária [na minha opinião]. > > Abraço, > > Prolo > > > On Sun, Aug 30, 2020 at 9:34 PM Joao Marcos <[email protected]> wrote: > >> >> Outra duplinha divertida em que o inglês inverteu os significados das >> >> coisas é "explanation" vs "explication". :-D >> > >> > Há várias coisas assim, e também entre o português brasileiro e o >> europeu. >> >> Não sei se cheguei a compartilhar contigo este dicionário, feito às >> horas do almoço? >> >> https://docs.google.com/spreadsheets/d/e/2PACX-1vQ4LWSPsHZLxJlU2Hb3tGGJto3BPQ5-9JGsvFuQIPTlJ6hLuJT3OurZzuRK6SvebI9qyX6g62p08mX5/pubhtml >> >> >> Quanto a >> >> soundness (of a formal system) = adequação (de um sistema formal) >> >> isto me parece simplesmente equivocado. "Soundness theorem" >> >> corresponde ao resultado que chamamos "teorema da correção"; na >> >> literatura, "adequação" frequentemente se refere à combinação de >> >> correção com completude. >> > >> > Isto deu a maior confusão na altura, e ainda hoje, mesmo em inglês, há >> variantes entre os autores. “Completude” era usada na Universidade de >> Lisboa para a equivalência entre semântica e sintaxe, e não apenas para uma >> das direções. Não me parece que isto seja hoje comum, em inglês, mas há >> escritos assim. A “soundness”, neste contexto, é atualmente denominada, >> pelo menos no Brasil, “correção”, mas eu preferiria “solidez”, porque já >> usamos isso para “sound argument”. >> >> Sim, _muitos_ textos usam "completude" para as duas direções... >> Outros tantos, talvez menos, usam "adequate" para "sound and >> complete". Vale notar, não obstante, que o "soundness theorem" pouco >> tem a ver com "sound argument". Este último é aquele que além de >> correto (sound, logo "válido") _também_ tem as premissas verdadeiras, >> certo? "Sólido" sounds good, para designar este tipo particular de >> argumento! >> >> > Não sei hoje como são as coisas em Portugal, mas na altura em Lisboa, >> pelo menos entre o pessoal da filosofia, nunca se usava “sentença” para >> traduzir “sentence”. Talvez os matemáticos o fizessem, não sei. Só tenho >> uma objeção pedagógica ao uso de “sentenças” em filosofia e lógica, que é o >> aluno (pelo menos no ensino de há uns anos, não sei como é hoje) perder a >> conexão com o conceito simples que tem da gramática; subitamente, parece >> que estamos a falar de uma coisa exótica, quando afinal é aquele velho >> conceito que ele aprendeu no ensino primário (= ensino elementar). >> >> A gramática lusitana me surpreendeu (surpreendeu-me?) um dia pela sua >> distância da brasileira --- e não é só por desconhecer os termos >> "oxítona", "paroxítona" e "proparoxítona", ou por conter sugestões >> muito exóticas sobre usos de próclise, ênclise e mesóclise... :-D >> Penso, de todo modo, que no Brasil não se obsta ao uso da palavra >> "sentença" no estudo gramatical. >> >> Em Portugal também não se usa "oração", oh pá? >> https://pt.wikipedia.org/wiki/Ora%C3%A7%C3%A3o_(gram%C3%A1tica) >> Bem, talvez seja melhor assim. Já há demasiadas conexões entre >> Filosofia e Religião. ;-) >> >> >> Compreendo ainda que a palavra "evidência" não se encontre (ainda) >> >> dicionarizada na nossa língua, e que se traduza >> >> evidence = indícios >> >> A origem latina de "evidência" e seu uso cotidiano entre nós >> >> exatamente com o mesmo significado de "evidence", sem risco de >> >> confusão nos contextos certos, talvez bastem para que ela seja >> >> incorporada sem vergonha à nossa língua... Ou talvez isto seja de >> >> fato desnecessário, da mesma forma em que foi desnecessário >> >> incorporarmos o termo "deletar"? >> > >> > Tenho uma vaga memória de já ter visto num dicionário o termo >> “evidence” como tradução do inglês “evidence” -- e isto é cada vez mais >> comum, em jornais, publicações e na academia. Se não entrou já nos >> dicionários com esse significado anglófono, acabará por entrar. >> Pessoalmente, não uso tal coisa, até porque é em muitos contextos demasiado >> restrito. Os ingleses carecem de um termo suficientemente amplo para falar >> de qualquer género de justificação a favor de uma ideia, e usam “evidence” >> em contextos em que não querem dizer apenas o que a palavra em inglês quer >> dizer, que é “provas ou justificações empíricas”. Este é um caso danado >> porque nós temos um termo bom, com essa amplitude: “prova”. Mas claro que >> no Brasil, em que se usa isto muito como sinónimo de “proof”, no sentido >> matemático, isto provoca grandes perplexidades. >> >> Sim, no Brasil persiste este mau hábito... Há que combatê-lo, como >> combatemos o tabagismo! >> >> >> Tanto "many-valued logic" quanto "multi-valued logic" são traduzidas >> >> na lista como "lógica polivalente", numa mistura comum de grego com >> >> latim. Eu ainda prefiro falar em "lógica multivalorada", e na >> >> prática, na minha área de investigação, preciso distinguir entre >> >> "n-valent" e "n-valued", e para tal uso "multivalente" e >> >> "multivalorada". >> > >> > Nunca usas "multivalente"? Parece-me jogar melhor com “lógica >> bivalente”. >> >> Aqui a coincidência trabalha a favor, pois a Lógica Clássica é ao >> mesmo tempo "bivalente" e "bivalorada"... Mas "bivalente" é >> frequentemente usado em Lógica, hoje em dia, também no caso não >> verofuncional! Acho assim avisado ---e não faço disto segredo de >> polichinelo--- reservar "multivalorado" para o caso verofuncional, e >> usar "multivalente" no caso mais geral. >> >> Abração, Joao Marcos >> >> -- >> http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ >> >> -- >> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" >> dos Grupos do Google. >> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, >> envie um e-mail para [email protected]. >> > Para ver esta discussão na web, acesse >> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAO6j_Ljnz6gDu69UkSm5YjPF-Ydi9bmZ9RMwnb%2BzWdsO_dukFg%40mail.gmail.com >> . >> > -- Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos Grupos do Google. Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um e-mail para [email protected]. 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