Para ter certeza de que estamos falando a partir das mesmas ideias, reescrevo seu argumento em minhas palavras e depois o comento. Se o compreendi equivocadamente, por favor me corrija.
O uso instrumental do liberalismo é o que você aponta. E como qualquer "ismo" pode ser instrumentalizado, do que adiantaria criticar o "ismo"? Vamos focar nas ferramentas que cada "ismo" oferece. Se foi isso o que você escreveu, minha resposta é a que segue. Mas, antes, obrigado por debater comigo. Amanhã é minha qualificação e estou surtando, precisando falar sobre isso de qualquer maneira. Alexandre, uma das coisas que aponto é precisamente que não há outro "ismo" para liberdade de expressão. Ou seja, não há outra referência intelectual para propor ferramentas de outra natureza senão as da economia política. Seja por influência marxiana, seja pelo liberalismo, ou seja ainda por qualquer outro "ismo" que esteja atuando hoje em dia, a galera da comunicação quer livre concorrência, livre circulação, livre acesso. Uma linguagem que, não por acaso, pode ser usada para descrever um mercado ideal para algumas posições. Acho lindo o pessoal do conhecimento livre substituir concorrência por colaboração, mas ainda a referência intelectual traz traços de uma mesma origem. Então não culpo o liberalismo por ser uma referência que ajudou a moldar a sociedade que estamos construindo. Só estou parando por um momento e dizendo que a sociedade que estamos construindo não é uma democrática. Se quisermos uma democracia, precisamos fazer referência a algum outro "ismo", caso contrário, de onde tiraremos as novas ferramentas? A partir de quais princípios essas ferramentas funcionarão? Proponho-me a esboçar esses princípios ao longo dos próximos meses, com referência a um modelo de democracia que acho adequado. E não me preocupo com a instrumentalização desse saber. Preocupo-me com a inexistência de outro foco para a liberdade de expressão senão a discussão do controle dos meios de comunicação e da relação de perigo entre os meios e o governo. Qual o impacto da liberdade de expressão e informação na distribuição de saberes na forma de medicamentos? Se queremos liberdade de expressão mesmo, faz sentido uma concepção de propriedade intelectual de um bem simbólico, de um conhecimento? Como uma imprensa que só discute interesse conflitante pode tratar de temas de reconhecimento identitário, como casamento gay, o direito de morar no centro da cidade, ou o ambientalismo? (Ela vai apenas se focar como essas pautas conflituam ou harmonizam com interesses, nenhuma discussão mais profunda que essa.) Enfim, fiquei insatisfeito com a forma pela qual o "ismo" em questão ignora vários aspectos da dinâmica democrática e resolvi pensar liberdade de expressão a partir de outro "ismo", que permite fazer perguntas diferentes e dá soluções distintas. Ah, isso vai ser instrumentalizado. Então não devo fazer as perguntas diferentes? Dar de ombros, confiar na corrupção da realidade e ficar indignado com o mau uso das ferramentas disponíveis? Prefiro investigar novas ferramentas, a partir das lições que os "ismos" até agora nos deram. O liberalismo é muito bom para defender coisas: liberdade de expressão, democracia. A maioria das recomendações se refere a como evitar ataques (controlar o governo, controlar monopólios, controlar interesses particulares). Penso a partir de outra perspectiva: como promover, não defender, a liberdade de expressão, a democracia. Pensar instâncias de colaboração, não ameaça, entre imprensa e governo. Pensar maneiras possíveis de jornalismo. Deixar uma referência para alguém não começar do zero, ver que não funciona e melhorar a ideia. Abraços, 2013/4/29 Alexandre Hannud Abdo <[email protected]> > Ni! > > Não querendo transformar essa lista num espaço de discussão da mídia... > > Eu não sugeri que "o liberalismo é mero saber sem impactos nas práticas > sociais". Muito pelo contrário, eu disse justamente que ele é amplamente > usado como justificativa política, isso é um grande impacto. > > Mas que os problemas que enfrentamos hoje não se originam nos detalhes > do liberalismo, mas em seu abuso equivocado ou falso como justificativa. > > Pois ao que o registro indica ele não é mais vulnerável a esse abuso que > as alternativas. Meios de comunicação "falsamente democratizados" põem > um perigo tanto ou maior quanto os "falsamente liberalizados". > > E você está claramente culpando o liberalismo, justamente de inadequação > à democracia. > > Mas como eu dissera e sustento, há ferramentas definitivamente liberais > que na prática são importantes para solucionar os problemas da mídia. > > E enquanto a "dita direita" tem propósito em manipular e promover ismos, > se a "dita esquerda" ainda vê "ismos" como soluções, é um defeito dela e > não de um ismo em particular. > > Ismos são modelos que servem para propôr ferramentas. Cada ferramenta > proposta deve ser avaliada à luz das suas consequências e da democracia > e utilizadas em conjunto independente de suas origens ísmicas. > > Focar no ismo em si é fazer o jogo dos interesses que querem manter a > sociedade na ignorância, pois derrubado um ismo eles simplesmente se > adequam a outro. > > Enfim, só estou dizendo que trabalhos nessa linha precisam reconhecer > esse contexto e serem mais conscientes nas suas afirmações. > > .~´ > > On 29-04-2013 08:13, Arthur Serra Massuda wrote: > > Alexandre, pretendo responder à argumentação de que o liberalismo é mero > > saber sem impactos nas práticas sociais em pontos. Mas antes, não quero > > culpar o liberalismo de nada. Estou apenas mostrando sua inadequação à > > democracia. > > 1. De fato, oligopólios e monopólios latino-americanos mostram que a > > competição perfeita entre órgãos de imprensa é mera proposta liberal, > > mas não é mero verniz ideológico. Percebam que as demandas políticas de > > democratização das comunicações se focam precisamente na dissolução > > desses oligopólios, ou seja, a intenção última da esquerda na > > comunicação é a implementação de um modelo liberal, onde múltiplos e > > diferentes órgãos de imprensa competem na definição do que seria o > > interesse público. > > 2. A presença do modelo liberal no discurso da esquerda obviamente não é > > exclusiva, já que é a partir de tal modelo que os controladores dos > > meios de comunicação hoje articulam sua defesa. Uma defesa que se > > utiliza da confusão básica da liberdade de expressão liberal: se defende > > o interesse público a partir de um ponto de vista privado esperando que > > a competição de pontos de vista promova um "bem": se no mercado é preço, > > no debate público liberal é a definição coletiva do que é esse interesse > > público. Nesse argumento, a preservação do caráter privado é a própria > > defesa da liberdade de expressão, a preservação do interesse privado é o > > próprio interesse público. Desconstruir esse argumento (e faço isso a > > partir de reflexões de Foucault sobre as consequências de se organizar > > uma sociedade em torno da categoria interesse, que veio da economia > > política), portanto, não apenas incide sobre como a esquerda e o > > conservadorismo pensam liberdade de expressão, mas também contribui para > > atacar a ignorância do problema. > > 3. O problema, na minha perspectiva, é precisamente fundamentar a > > liberdade de expressão na economia política. > > > > c.q.d. O liberalismo é um saber com fortes impactos nas práticas sociais > > dos sujeitos. > > > > Abraços, > > > > Arthur > > > _______________________________________________ > okfn-br mailing list > [email protected] > http://lists.okfn.org/mailman/listinfo/okfn-br > Unsubscribe: http://lists.okfn.org/mailman/options/okfn-br > -- -- Arthur Serra Massuda
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