Prezado Marcelo e demais colegas de grupo: 
    Concordo totalmente com suas palvaras e sua preocupação é minha também.
    Entendo Defesa Profissional como algo totalmente intergrado à parte dita "científica" da profissão, mas esse entendimento ainda está longe de ser majoritário entre nós, seja dirigentes médicos ou médicos em geral. A maior parte acha muito desagradável ser lembrado a toda hora (ou mesmo de vez em quando) de que as coisas estão piorando ou podem piorar. Uso a expressão: estamos todos na praia, dá dando o maior sol, às vezes bate um vento forte, mas dá pra ficar por lá, e não queremos (como classe) saber que está vindo um maremoto... Como obter mobilização para reagirmos juntos? Juntos, porque sozinho ninguém poderá escapar. 
    Veja o artigo a seguir, já publicado em Boletim da SBORL há quase dois anos:
 
 
Médicos e o abismo existente entre Ciência Médica e Política Médica 
 
    Historicamente, os verdadeiros médicos deviam ser grandes cientistas, humanística e tecnicamente preparados para diagnosticar doenças e tratar pacientes, tudo isso num ambiente ideal, acima das influências comuns aos demais mortais. Nos sentíamos, afinal, o grupo escolhido, a mais nobre das profissões, destinada a exercer o precioso dom de cuidar da vida dos demais seres humanos. Sabíamos possuir, ao contrário das profissões mercantis e menores, o dever ético e vocacional de praticarmos, ensinarmos e divulgarmos tudo que aprendíamos, de modo a que mais e mais pessoas pudessem viver melhor, se beneficiando de nosso trabalho e conhecimentos.
    Entretanto, nossos mais ingênuos sonhos de faculdade estão sendo transformados em pesadelo, através de um nítido processo de banalização da nossa honra (palavra medieval?), e caminhamos para uma Idade Média da Ética Médica, onde dificilmente encontraremos algo mais falso, utópico e anacrônico quanto a expectativa de exercer a profissão médica com Dignidade
Dirão alguns que esse temor é antigo, e que a Medicina sempre conviveu e sobreviveu ao mercantilismo, ao charlatanismo e à impostura. Pura verdade, mas tais ameaças eram amadoras, periféricas, superficiais, e nunca afetaram a estrutura corporativa da profissão, baseada no prestígio de médicos e serviços (públicos ou privados) junto à população de pacientes. Até então, a regra oficial da concorrência era seguir uma carreira empenhando-se para adquirir o conceito público de saber mais e fazer mais bem feito.
    Agora, após a disseminação dos convênios públicos e privados, e a introdução passiva dos sistemas de repasse de custos (managed care), vamos chegando bem próximos ao ponto sem volta (no return) da questão do contrôle sobre o trabalho médico: cada vez mais se oficializa a visão e versão de mercado, como na nomeação de um economista para dirigir a Saúde, e nas entrelinhas ocultas na lei federal sobre planos de saúde, que determinam que as empresas possam escolher seus médicos (dispensando vínculos trabalhistas), dando-lhes o poder de dizer quem atenderá o paciente filiado, quem terá acesso ao mercado de trabalho e, enfim, que profissional poderá sobreviver.
    Controlando o credenciamento, tais intermediadores passam a controlar a autonomia e independência do ato médico, o fazendo evoluir conforme seu entendimento econômico da questão. E sob esse regime dominante, quais médicos irão predominar e prosperar? Quem terá status e poder nesse emaranhado de público e privado que se define com um denominador comum: a corrupção e o cartel, a reserva de mercado e o apadrinhamento, males ocultos no garrote vil chamado credenciamento?
    Resposta fácil: os submissos e aderentes à intermediação dos planos de saúde e do estado. Os médicos são forçados, para poderem ter acesso a seu direito constitucional ao Trabalho, a buscar contatos, dever favores e ceder vantagens, e então receberem a gentil concessão de atenderem os doentes que deles precisam. Contrastando com o fato dessa necessidade não ser gerada pelas empresas, mas apenas habilmente intermediada, os médicos acabam se adaptando, e pior, os mais novos já são criados nesse ambiente aético. Dessa forma o SUS (tipo código 7) gera uma escandalosa corrupção monetária, por fixar tabelas pré-concebidamente inviáveis, e os planos privados estimulam uma clamorosa corrupção moral, por estabelecerem um critério de qualidade baseado em custos e submissão técnica, que substitui o vínculo médico-paciente por carterinhas, guias e faturas de convênio.
    Para toda essa argumentação, surge uma questão: qual será a solução, técnica ou política?
    Resposta óbvia: Ambas.
    Total ilusão imaginar que a reação da classe médica a esse domínio possa se dar de forma fragmentada. Os bons médicos, ainda hoje a enorme maioria da classe, devem abrir os olhos, e enxergarem o que está claro: atuar tecnicamente, esquecendo de atuar no campo político, é perda de tempo.
    Carecemos, mais do que nunca, de bons médicos entrando na política, não como fazem muitos dos atuais usurpadores desses espaços (vide tantos federais) - para viver dela e se tornarem parte do problema - mas para colaborarem e agirem objetivamente para solucionar a questão vital do trabalho médico, e da assistência daí decorrente, de forma a mais ampla possível.
    Precisamos, e já, estreitar o abismo entre a Ciência Médica e a Política Médica, e viabilizar a Liberdade de Escolha e o Credenciamento Universal, para todos. Caso contrário, a Medicina que a maioria de nós idealizou será apenas um distante lembrança de um sonho do passado, e nosso futuro próximo estará realmente ameaçado.
    Precisamos, enfim, re-agir muito mais, individual e coletivamente! 
    Marcos Sarvat - Diretor do Departamento de Defesa Profissional da SBORL  
 
-----Mensagem original-----
De: teeve <[EMAIL PROTECTED]>
Para: otorrino <[EMAIL PROTECTED]>
Cc: Teeve Rabinovici <[EMAIL PROTECTED]>
Data: Terça-feira, 18 de Janeiro de 2000 20:13
Assunto: [otorri.] Defesa profissional

Marcelo Serra está coberto de razão.Qualquer pais minimamente civilizado faz reserva de mercado para seus profissionais ,já que esses são cidadãos e contribuintes e não ficam fingindo uma integração que na verdade não passa de discurso.Isso não é xenofobia e sim a DEFESA do cidadão,do profissional,daquele que trabalha e paga impostos.
Corporativismo não é necessariamente uma coisa ruim.Pode e deve ser um meio de defender os profissionais decentes,que aliás são maioria nesse pais,contra abutres travestidos de empresários "modernos"
O estado brasileiro deve muito à nós,cidadãos brasileiros,mas as entidades médicas também devem muito aos médicos desse pais.Há,sem duvida,valorosos colegas trabalhando em todas as entidades médicas,mas há também muita gente fazendo discurso e SÓ........
Teeve Rabinovici-SP
 
Prezados Colegas,
Na última edição do jornal ORL (n 57) há um artigo assinado pelo Dr Luiz Lavinsky intitulado "Mercosul: uma das prioridades da SBORL". Neste artigo, o Dr Lavinsky lembra que em 2007 será concluída a liberação de serviços entre os países do Mercosul o que, evidentemente, possibilitará a atuação de médicos estrangeiros nos demais países que compõe este bloco.
Gostaria ainda de citar outros trechos para aqueles que não leram o jornal; "...durante o triológico decidiu-se pela criação de um comitê permanente da SBORL para assuntos do mercossul... (e terá como uma das metas)propiciar um aprofundamento do estudo para o estabelecimento de critérios para concessão de título de especialista a membros do mercossul", e em seguida:     "O mercossul é, sem dúvida, uma fonte importante do nosso crescimento que deve ser estimulado, aperfeiçoando o nosso entrosamento. Por outro lado, também é uma fonte da vulnerabilidade da nossa atividade profissional..."
Considerando que a situação profissional nos demais países do mercossul consegue ser pior que a nossa, dá para imaginar qual vai ser a direção do fluxo imigratório, com consequências nefastas para a saúde no Brasil; mercado saturado de generalistas e especialistas (mais ainda) onde as empresas de medicina de grupo vão deitar e rolar, honorários aviltantes, restrições de exames e procedimentos, descredenciamentos para quem não quer entrar no jogo, etc, etc, etc. De que adianta o CRM fazer campanha contra abertura de novos cursos de medicina se, de um dia para o outro, forem derramados no mercado milhares de novos médicos cuja formação profissional nem sequer pode ser fiscalizada pelas autoridades brasileiras. Claro que daí vai surgir o argumento "mas todos terão que ser submetidos à uma prova, haverá uma comissão que considerará se o indivíduo é habilitado ou não e blá blá blá" e eu digo que isso não vale nada pois o nosso governo não têm compromisso nenhum com qualidade em atendimento médico e para ele (governo) quanto mais barato melhor, mesmo que seja uma droga de atendimento. Com base no descaso que este tipo de assunto costuma ser tratado pelos nossos governantes, acredito que não vai haver controle efetivo algum e a lei do vale tudo vai imperar.
Portanto, acho que já passou da hora de reclamarmos,  e bastante!
 
Saudações
Marcelo Serra

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