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Caros amigos do grupo,
Primeiro desculpe pela demora na resposta deste
tema que vinha sendo discutido há alguns dias atras na lista, é
que eu estava descadastrado e minhas mensagens não chegavam.
Esta questão da defesa profissional em todos os
sentidos passa além de tudo aquilo que já foi aqui muito bem
colocado pelos colegas que escreveram por um problema maior que é a falta
que nós médicos temos de verdadeiros representantes no Congresso
Nacional. Apesar da "bancada" médica no Congresso ser a segunda
maior (só perde para a dos advogados) aqueles que estão lá
na maioria das vezes só utilizaram da profissão para serem eleitos
e representam interesses outros que não os de sua classe. Representam
interesses de grupos médicos, de planos de saúde, de Unimeds (que
teoricamente são cooperativas médicas).
As principais ameaças à qualidade de nossa
profissão são atualmente:
1- O aumento de escolas médicas. Pela atual
constituição brasileira as Universidades são
autônomas, podendo portanto criar seus cursos independentemente do MEC. A
atual política de ensino universitário no país é
como na atividade econômica, isto é o atual governo está
tentando se livrar da responsabilidade do ensino e passar para a iniciativa
privada com isso diminuindo o custo alto do ensino gratuito. É o mesmo
que estão fazendo com os setores básicos, privatizando energia
elétrica, telefonia etc... Portanto no governo se fechará os olhos
à criação de novas escolas pois abrirão vagas e
diminuirá a pressão social da falta de vagas.
2- A ameaça da livre atuação profissional
entre os países do Mercosul. Nos países como a Argentina
principalmente, existe um número elevadissimo de médicos e
há pressão social para resolução da baixa renda que
os profissionais de lá estão tendo. Uma das exigências na
mesa de negociações do Mercosul é da livre
atuação profissional para com isso resolver os problemas destes
países na área. Nós médicos não temos o menor
lobby para se opormos a isso como tem por exemplo a industria automobilistica e
a área ruralista.
3- Este terceiro item é na minha opinião o mais
grave e importante para a nossa especialidade especificamente e este sim
é que nossa Sociedade deveria estar atuando imediatamente que é a
atuação de outros profissionais em nossa área. No caso da
ORL isto é gravissimo. As fonoaudiólogas dentro de poucos anos
estarão para os otorrinos como os psicologos estão para os
psiquiatras, onde eles já tem mais de 80% do espaço profissional
do psiquiatra. Cada vez mais as fonoaudiólogas estão exercendo
atividades médicas e nós estamos fechando os olhos para isso. Elas
são muito mais numerosas que nós, estão sem campo de
atuação pelo seu numero elevado, abrem-se novas escolas de fono
todo ano e elas possuem muito mais lobby no governo que nós. Naturalmente
elas procuram mais coisas pois não tem campo de trabalho suficiente para
todas. Sem dúvida eu acredito que para nós ORLS esta ameaça
é maior e mais urgente do que as anteriores. Se medidas urgentes
não forem tomadas nossa especialidade rapidamente sofrerá uma
concorrência muito forte, de baixa qualidade e a preço
vil.
Os itens que dizem respeito à classe
médica como um todo nos temos obviamente que participar como muito bem
participamos por intermédio da SBORL, que inclusive bancou
financeiramente muitas ações brilhantemente realizadas e
coordenadas pelo Marcos Sarvat, mas não depende só da ORL e sim da
AMB, CFM, CRMs, Sindicatos etc....A questão das fonos sim é nossa
e só nossa e esta nós temos que urgentemente encarar.
Não podemos esquecer também das pseudo
"sub-especialidades"que estão sendo desenvolvidas como a
chamada "Otorrinolaringologia Pediátrica" que nada mais nada
menos é uma forma de certos colegas se promoverem no meio
pediátrico para receberem doentes e que deturpa o enfoque de nossa
especialidade uma vez que daqui a pouco aqueles que não se intitularem
ORLs pediátricos não mais atenderão crianças, pense
sobre isso e comentem na lista.
Para todas as 3 ameaças anteriores aqueles que
representam os grupos economicos da saúde estão rindo à toa
pois quanto mais gente menor o custo. É como qualquer mercadoria, a safra
da laranja foi grande, o preço da laranja cai. Com muita oferta
cairá ainda mais o preço da atividade profissional. Fono
então é muito mais barato (vide na área de
prevenção de ruído industrial, que as mesmas já
dominam a preço vil).
Para tal só há uma pequena luz no fundo do
tumel, que é uma atuação constante e séria junto ao
Congresso Nacional e aos Ministerios competentes com levada de alternativas e
soluções e não só reclamações.
Será que nossos dirigentes das entidades médicas estão
mesmo interessados nisso ? A maioria de seus dirigentes são comprometidos
com grupos médicos em especial com as UNIMEDS. É nisso que deveria
ser investido o tempo e dinheiro que nossas entidades arrecadam.
Infelizmente vejo que o nosso futuro será
difícil principalmente para os nossos colegas mais jovens e somente com
muita perspicácia e união lentamente poderemos melhorar o quadro,
sempre lembrando que não se deve somente colocar os problemas ou reclamar
e sim oferecer soluções viáveis.
Ricardo F. Bento
FMUSP
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