Prezado Álisson,

Não encontrei contradições em meus argumentos, posso não ter compreendido
plenamente o que você quis expor.

Tanto a geologia *mainstream* quanto a geologia hindu propõe explicações
para a a formação das estruturas rochosas unindo a península da Índia à Sri
Lanka. Tanto a antropologia (e genealogia genética) contemporânea quanto a
antropologia mórmon propõe explicações para o povoamento humano do Novo
Mundo e a ancestralidade das populações que migraram a este continente.

Não são casos de magistérios não-interferentes - o *âmbito factual* destas
duplas de "disciplinas" é o mesmo. Há muitas diferenças metodológicas,
entretanto, a começar pelo fato de tanto a geologia hindu quanto a
antropologia mórmon admitirem inspiração divina (ora via a contemplação do
poeta-guru Valmiki, ora via as mensagens do Arcanjo Moroni ao profeta Joseph
Smith) como método legítimo de aquisição de conhecimento empírico.

Se inspiração divina funcionasse, não haveria em princípio nenhum problema
em incorporá-la às nossas ferramentas. Segundo uma referência (
http://www.godchecker.com/), há pelo menos 3700 deuses, deidades ou
espíritos que já foram cultuados por seres humanos, então isso nos garante
pelo menos 3700 métodos distintos de inspiração divina. Até o presente
momento, desconheço qualquer um destes que tenha sido eficaz em avançar
nosso entendimento da estrutura do mundo - excetuando-se na antropologia da
religião e áreas correlatas - e tenho a suspeita que seria perda de tempo
tentar entrar em contato com estes 3700 deuses com uma questão legítima tal
qual "qual a solução da conjectura de Goldbach?" ou "o que causa a anomalia
das sondas Pioneer"?

Da mesma forma, nenhum geólogo sério possivelmente se preocupou em refutar a
teoria de que a Ponte de Adão foi uma obra de engenharia do Lorde Rama e seu
exército de homens-macaco (milhões de pessoas acreditam *literalmente* nisso
e isso possui repercussões econômicas drásticas como impedimentos sociais de
obras que fariam rotas navais mais curtas entre a Índia e a Sri Lanka).

Já mórmons, que possuem recursos para financiar seus empreendimentos
privados como bem entenderem, financiaram geneticistas na tentativa de
corroborar empiricamente o Livro de Mórmon e foram atrás de haplogrupos e
polimorfismos distintivos de populações do Oriente Médio no DNA ameríndio.
Diante da ausência de evidência, foram obrigados a formular várias hipóteses
*ad hoc* por conta da primazia da inspiração divina sobre a adequação à
evidência empírica nas "ciências mórmon".

A quantidade de hipóteses falsas é vastamente maior do que a de verdadeiras.
Através de vários princípios regulatórios das ciências (que podem ser
revisados) e nosso corpus acumulado no momento, podemos de cara descartar
várias hipóteses e não há nenhuma "arrogância" nisso. Não somos obrigados a
testar toda e qualquer hipótese formulada por seres humanos que já viveram,
ainda mais quando temos boas razões para descartar de cara.

Como exemplo, o ufólogo e paranormal brasileiro Urandir Costa inaugurou um
"centro de pesquisa de Ciências Paralelas" (http://www.projetoportal.org.br/).
Atualmente, o grande programa de pesquisa deste centro consiste na
investigação da hipótese de que nosso planeta não possui um formato
esférico, é uma espécie laranja cortada ao meio:

http://www.youtube.com/watch?v=3B8lk6zRDGM

É "arrogância" e "dogmatismo" não só considerar que a hipótese da "Terra
Convexa", além de falsa, faz parte de um engodo intelectual?

O mesmo vale para várias hipóteses oriundas de sistemas desenvolvidos pelos
antigos; podemos de cara considerar que várias são supérfluas e que
possuímos autoridade epistêmica para emitir tal juízo.

A comparação com Einstein é uma falsa analogia e caricatura. A culminação na
teoria da relatividade restrita, longe de ser a "revolução de um louco" é
uma jornada que percorre todo o Século XIX e início do Século XX passando
por muitas mentes realizando muitos experimentos inconclusivos e hipóteses a
respeito da natureza do éter luminífero, conjecturas e especulações a
respeito de referenciais não-inerciais e desenvolvimentos de várias teorias
alternativas de eletrodinâmica para lidar com as anomalias experimentais
(algumas assumindo diferentes versões do éter, outras expressando ceticismo
sobre existência).

O apego às mitificações e estereótipos que fazemos de cientistas como
Copérnico, Galileu, Newton e Einstein municia pseudocientistas que adoram
comparações com estes entes fictícios da cultura popular, desprovidos de
contexto histórico e antecedentes intelectuais.

Um forte abraço.

2011/8/25 Álisson Linhares <[email protected]>

> Caro Manuel,
>
> não critiquei a questão do ki, na verdade, minha crítica foi sobre *seu
> posicionamento de achar que é supérfluo (inútil, desnecessário) estudar
> alguns conhecimentos antigos*. Se reler o meu texto, agora que esclareci
> esses pontos, poderemos retomar a discussão.
>   Pelo que escreveu no e-mail anterior, fico feliz com sua visão de mundo
> mais aberta, mas sinto muito em dizer que ocorreram algumas contradições
> nesse seu novo discurso. Claro que não fez por mal : ), mas essa
> contradição, se não for desfeita, pode distorcer a visão de mundo dos
> nossos
> futuros Einsteins, assim como expliquei no meu e-mail anterior que
> critiquei
> seu posicionamento.
>   Em seu e-mail anterior, *alguns de seus argumentos para se** opor aos
> "modelos alternativos de se fazer ciência" e endossar de braços abertos a
> "ciência ocidental"* são estes:
>
>
>   - A 'história geológica' hindu diz que as formações rochosas unindo a
>   Índia à Sri Lanka foram construídas pelo Lord Rama e seu exército de
>    homens-macaco"
>   - A 'antropologia' mórmon diz que os índios americanos descendem
>   de israelenses.
>
>      A contradição ocorre quando comparamos as características desses seus
> argumentos com esta ideia que você apoiou, em um e-mail anterior, nesse
> mesmo post:
>
>
> Várias das alegadas "ciências alternativas" não encontram-se no que
> o paleontólogo Stephen J. Gould nomeou de "magistérios
> não-interferentes"; *muitas
> realizam consistentemente alegações sobre *o mesmo mundo natural* estudado
> por cientistas tornando-se portanto teorias e modelos **que estão
> competindo
> nos mesmos âmbitos de explicação.*
>
>
>    Veja como as características dos dois primeiros argumentos se *
> contradizem* com o último, porque os primeiros são "magistérios
> não-interferíveis". Esclarecendo melhor... quando as duas primeiras teorias
> foram estudadas pelos cientistas, passaram a competir com as teorias e com
> os modelos científicos nos mesmos âmbitos de explicação. Nessa benigna
> competição entre teorias, após testes das teorias antigas, a ciência
> comprovou que são "falsas e/ou obsoletas".
>    Convém ressaltar que *essas teorias antigas provém do pensamento do povo
> antigo*, e foram criadas em conformidade com o paradigma local do mesmo
> povo. Para tentar validar essas teorias antigas em nossos tempos atuais, no
> nosso paradigma, claro que *chegou-se a testá-las para verificar o
> falseamento.* Assim, após o falseamento comprovado da teoria, a ciência
> ganhou bastante com a mesma, porque *a ciência ganhava menos uma forma de
> se
> explicar o determinado fenômeno*.
>    Mas o grande problema, meus caros, principalmente ao companheiro Manuel,
> ocorre quando alguns doutos *convenientemente esquecem* o conhecimento
> antigo, fazendo com que *muitas dessas teorias antigas nem cheguem a ser
> testadas.* Esse é mesmo o grande problemas, porque elas entram no
> esquecimento, verdadeiramente, por conveniência, ou por serem considerados
> inúteis (supérfluas) pelos doutos formadores de opinião da época. A partir
> daí, passam a tratar essas teorias (não falseadas nem obsoletas) com
> desdém,
> (assim como fez, sem maldade, nosso amigo Manuel). Sobre esse assunto,
> expliquei completamente no meu artigo anterior.
>     Então, voltando àquelas contradições... Manuel, apresentar
> argumentos "magistérios não-interferíveis", assim como os dois que utilizou
> apresentados lé em acima, significa, assim como o próprio nome já acomete,
> que você *não pode interferir em nada *com eles; logo, também significa que
> cientificamente *não sevem como argumento para convencer sobre nada.*
>    Por isso tudo, na verdade, *você se opôs à forma dos antigos de verem o
> mundo, de entendê-lo e explicá-lo.* E qualquer resultado de tal oposição
> *não
> pode* ser motivo para nada, inclusive se opor aos "modelos alternativos de
> se fazer ciência" e endossar de braços abertos a "ciência ocidental".
>    É importante salientar, que se teorias apresentadas pelo Manuel ainda
> vivem na cientificidade atual desses específicos povos, é porque se
> instauraram lentamente como dogmas dessas localidades. Assim como ilustrei
> no e-mail principal anterior, esses povos precisam de um *louco... assim
> como fez Einstein.*
> *
> *
> Dedico esses esclarecimentos aos nossos futuros Einsteins.
>
> forte abraço,
>
> --
> Álisson Gomes Linhares
>
> "As coisas são como são por que assim devem ser... ou são como são por nós
> acreditarmos que assim devem ser?"
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> "Não sabendo que era impossível, foi lá e fez." - Jean Cocteau
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