Prezado Álisson,

Se eu lhe causei descontentamento, peço desculpas, não foi minha intenção
ser deliberadamente provocador - estou apenas emitindo meus posicionamentos.

Em relação a qi/prana/energia vital, que julgo que foi o que lhe causou o
maior desconforto em minha mensagem: primeiro, declaro que minha menção não
deriva de desconhecimento do conceito. Há anos eu participava de
listas/grupos de discussão de ceticismo científico onde são debatidos
assuntos "fortianos" e qi/prana/energia vital apareciam sistematicamente em
diversos contextos. Depois, sou praticante de artes marciais e
invariavelmente sempre ouço menção por praticamentes de artes marciais
orientais de qi/prana/energia vital.

(um adendo humoroso; um contra-exemplo à sua sugestão de que treinar Aikido
promove evidência para a existência do *qi* é o fato de James Ladyman,
filósofo da física auto-intitulado cientificista nos termos *mais
extremos*desta discussão, é um mestre de Aikido
http://www.bristol.ac.uk/Depts/Union/Aikido/ :-) )

"Energia" é a capacidade de um sistema físico de realizar *trabalho*. Quando
praticantes de reiki, magnetoterapia, feng shui, artistas marciais e
acupunturistas falam de "energia vital", eles não estão falando de
*nada*correlato com o conceito físico. Conceitualizam metaforicamente
"energia
vital" mais como um "campo de força". Ocorre que não há *nada* em
bioeletricidade ou biomagnetismo que corresponda às tradições orientais de
"energia vital", como as posições de "chakras" no corpo humano.

Na própria "ciência ocidental" que está sendo criticada aqui, existia uma
entidade teorética análoga ao *qi* ou *chi* oriental (muitas vezes chamada
de *élan vital*, isso seria um anacronismo porque o termo não existia nos
Séculos XIX e XVIII).

A doutrina do *vitalismo* - que presumia a existência de um ingrediente
ontologicamente distinto extra para separar a vida da não-vida - já fez
parte dos sistemas conceituais de muitos cientistas mas foi sendo dissolvida
abruptamente em aceitação desde o advento da química orgânica, quando
sintetizamos compostos orgânicos à partir não-orgânicos e posta para a
obsolescência com maiores desenvolvimentos em bioquímica, microbiologia e
genética que tornaram a biologia mais consiliente com a química e física.

A fronteira entre vida e não-vida é *fuzzy* quando pegamos casos como
viróides, vírus, transpósons e príons. Em nenhum instante precisamos
postular "aqui entra o chi/qi/prana/energia vital".

A energia disponível para nós seres humanos realizarmos qualquer ação -
desde pensar até praticar artes marciais - é química; deriva em última
instância de processos bioquímicos muito bem conhecidos como o ciclo de
Krebs e fermentação após a glicólise. "Energia vital" é explanatoriamente
supérfluo, não é registrada uma "fenda" no balanço energético de um sistema
biológico que demande um processo *extra*.

Em suma, "energia vital"/"força vital" foi para o cemitério das entidades
teoréticas obsoletas junto com o flogisto, calórico, ímpeto, homúnculo e o
éter luminífero.

Conceder um *grant* para um biólogo pesquisar "energia vital" seria tão
absurdo quanto financiar uma expedição arqueológica para a Lemúria ou um um
projeto de pesquisa astronômico que vise enviar uma sonda para as "esferas
celestiais".

Nada impede *em princípio* que teorias científicas futuras resgatem algumas
destas entidades, mas há argumentos de filósofos realistas científicos que
tornam tal prognóstico bem improvável. Nada também impede em princípio que
nossa ontologia futura da biologia seja expandida com entidades do tipo que
os emergentistas ingleses do início do Século XX tinham em mente,
propriedades fortemente emergentes. Mas o que interessa é a adequação
empírica *agora*, não futura.

Também não tenha a impressão que eu sou apenas um arauto da ortodoxia - nas
áreas em que trabalho, costumo expor teses muito heteredoxas porque julgo
que a evidência empírica está caminhando para outro lado.

Um forte abraço.

2011/8/24 Álisson Linhares <[email protected]>

> Caro Manuel,
>
> fiquei descontente com parte do seu texto, porque defende a ideia que os
> demais métodos que competem com o científico, para explicar o "mesmo mundo
> natural", até o momento, são falsos e/ou obsoletos. Então conforme seu
> discurso, posso acrescentar mais uma característica para esses métodos
> antigos: *esquecidos por conveniência*.
>    Você mostrou bem que esquece os conceitos antigos por conveniência, ao
> falar sobre a energia 'qi'
>
>
> "A incorporação de parte da Acupuntura à Medicina entretanto não levou
> consigo para o corpus médico entidades teóricas como "qi" ou "energia
> vital"
> que são explanatoriamente *supérfluas* e cuja existência não
> foi verificada."
>
>
> Supérflua significaria inútil, desnecessária. Achei no mínimo, muito forte
> sua declaração, entretanto você disse conforme agiu, preferiu não estudar o
> conceito antigo de 'qi' porque o considera inútil, então preferiu
> esquecê-lo, porque conforme o conhecimento *unanime* de que teve acesso,
> 'qi' não existe (apesar de não saber porque).
>    O caso é muito bom para discussão dessa situação, de pensamento fechado
> da cientificidade européia. Perceba que se você considera algo inútil,
> provavelmente não buscou conhecimento a respeito, visto que não estudamos
> inutilidades. Mas perceba que alguns podem ver utilidade, e podem se sentir
> intimidados de estudar tal assunto, porque pessoas como você *decepam sua
> curiosidade*. "Rapaz, isso é inútil, isso não existe, isso é besteira (e
> riria da cara do moleque com desdém)."
>    Por isso tudo, acho que os doutos não cuidam bem da ciência, porque
> vivem em dogmas, em verdades, e não deixam outros gerarem ciência longe
> desses dogmas. Me pergunto agora, quem deve ter sido o *louco*, a testar a
> Aculputura que você, a pouco tempo, passou a acreditar?  Deve ter sido um
> louco, testar essa coisa supérflua.
>    É inútil, sim, limitar o pensamento de seus vários alunos ao mostrar sem
> provas que coisas como o 'qi' são supérfluas, só para manter os padrões.
>    O exemplo foi mesmo ótimo, porque assim como ocorre com a nossa visão,
> quando só enxergamos algo quando estamos treinados para vê-lo, da mesma
> forma, só sentirá o 'ki', aquele que treina para sentir o 'ki'. Tá
> precisando fazer um pouco de Aikido, para abrir sua visão de mundo, para
> deixar de dizer que algo não existe porque não o sente, porque não o
> detecta
> por meio de aparelhos, ou simplesmente porque ouviu falar que não existe e
> é
> besteira pensar sobre aquilo.
>   Nada que se pensa e se aprende é besteira. Assim, é por simples exemplos
> como o que nos mostrou gratuitamente, de visão limitada por conveniência
> (ao
> seguir a risca algum *dogma)*, ou por não saber sobre sua própria visão
> limitada... é por isso tudo, que os futuros Einsteins não aparecem... todo
> o
> idealismo deles é decepado antes de iniciarem o novo caminho.
>
> --
> Álisson Gomes Linhares
>
> "As coisas são como são por que assim devem ser... ou são como são por nós
> acreditarmos que assim devem ser?"
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