Sou mais simpático ao jeito continental. Filosofia analítica, pra mim, é
como se fosse comida sem sal.

2011/12/5 Francisco Antonio Doria <[email protected]>

> Vc podia criticar, p.e., a frase de Heidegger, das Nichts nichtet - que
> faz sentido em alemão, por sinal - ou o comentário dele ao verso de Angelus
> Silesius, die Ros' ist ohne Warumb, assim mesmo, no ensaio der Satz vom
> Grund.
>
> Acho que são estilos muito diferentes de se praticar a filosofia. Estilos.
>
>
> 2011/12/5 Tony Marmo <[email protected]>
>
>> Colocadas as coisas assim, fica mais claro.
>>
>> Mas, voltando à Carla, que eu não conheço pessoalmente, parece ser do
>> estilo dela escrever artigos como o citado. Aqui vai um trecho de outro
>> artigo:
>>
>> A metafísica seria uma forma de pensar o múltiplo a partir do um, o outro
>> a partir do mesmo, o diferente a partir do idêntico, a alteridade como uma
>> alteração do mesmo, o diferente como uma degradação da identidade. É sob
>> essa inspiração que pretendo discutir a diferença sexual e a articulação
>> entre feminino - esse outro pensado na tradição a partir do mesmo -,
>> alteridade e ética.
>>
>> Partindo de proposições formuladas por Elizabeth Grosz, Tina Chanter e
>> Drucilla Cornell e em diálogo com Emmanuel Lévinas e Jacques Derrida, este
>> artigo articula feminilidade, neutralidade e o lugar da diferença sexual a
>> fim de pensar como, se o neutro se confunde ao masculino, e é anterior à
>> diferença sexual, então neutralidade e masculinidade se confundem e se
>> sobrepõem. A partir desse suposto neutro - que carrega nele a marca
>> implícita do masculino - a filosofia formula a pergunta "o que é", tomando
>> o neutro (masculino) como padrão para definir o outro (feminino) numa
>> perspectiva que essencializa o outro pelas suas diferenças. Ou, para ficar
>> nos termos com que Sylviane Agacinski define a metafísica, a pergunta "o
>> que é" se responde pensando o feminino (outro) como uma alteração do
>> masculino (mesmo/neutro).
>>
>> Postular a pergunta "o que é a mulher" já seria uma forma metafísica e
>> essencialista de pensar sobre o feminino, como argumenta Chanter, para quem
>> a origem dos essencialismos sobre o feminino se localiza nesta equação: ao
>> tomar o neutro como masculino, a tradição precisa definir a mulher a partir
>> da pergunta "o que é". Chanter seguirá os passos de Derrida ao dizer que a
>> diferença sexual já nasce como uma forma de secundarizar o feminino e o
>> pretensamente neutro aparece na tradição filosófica como masculino. Meu
>> interesse aqui é pensar a neutralidade como um totalizador que elimina as
>> diferenças, e pensar a diferença sexual como elemento que secundariza a
>> mulher.
>>
>> Lévinas buscou nas reflexões sobre diferença sexual a impossibilidade de
>> afirmação do neutro como sinônimo de humano. Se mesmo assim o fez dentro de
>> uma matriz androcêntrica, como tão bem aponta Derrida, isso não impede que
>> se possa reconhecer a importância de um pensamento que, desde muito cedo,
>> associou feminino, alteridade e ética.
>>
>> O artigo dela segue por aí a fora. Parece que ela escreveu toda uma tese
>> de doutorado assim! Como diria a Simone de Beauvoir, Sacré Coeur!
>>
>> Em 5 de dezembro de 2011 10:07, Francisco Antonio Doria <
>> [email protected]> escreveu:
>>
>> Explico: disse à moça, que, intuitivamente, no princípio da incerteza,
>>> temos duas grandezas - fenômenos, etc - acoplados, e tais que, definindo-se
>>> um deles, o outro se torna indefinido. E ela me deu exemplos, em
>>> psicanálise, de tais entidades acopladas.
>>>
>>>
>>> 2011/12/5 Tony Marmo <[email protected]>
>>>
>>>>
>>>> Não entendo como o princípio da incerteza de Heisenberg possa ser
>>>> interpretado figurativamente de modo a ajudar na psicanálise.
>>>>
>>>> Mas, se ela insiste, quem sou eu para discordar?
>>>>
>>>> Em 5 de dezembro de 2011 07:55, Francisco Antonio Doria <
>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>
>>>> Tony,
>>>>>
>>>>> Não concordo com vc nessa avaliação, mas deixa pra lá. Conheço cabeça
>>>>> de jornalista porque sou filho de jornalista, e pai de jornalista - meu
>>>>> filho Pedro é um dos editores executivos de O Globo. Esse texto é um 
>>>>> artigo
>>>>> de opinião, ensaio, e como ele, escrevi muita coisa assim, em 1968, no
>>>>> finado Correio da Manhã, e em 1974, em Opinião.
>>>>>
>>>>> Gênero esse artigo da Carla; vcs iam se horrorizar... Mas me diverti
>>>>> muito; em 68 era pós adolescente, e era gostoso ser citado na praia de
>>>>> domingo, e na antessala do Paissandu :))  Gloriosos tempos.
>>>>>
>>>>> Há uns meses o Cesar Benjamin escreveu um artigo citando o teorema de
>>>>> Goedel, a incompletude. Me ligou, expliquei pra ele. Não saiu perfeito, 
>>>>> mas
>>>>> saiu legal. Fui devidamente citado, e responsabilizado, no texto final.
>>>>> (Cesar, editor da Contraponto e ex-candidato a vice da Heloisa Helena, é 
>>>>> um
>>>>> fascinado por filosofia da ciência.)
>>>>>
>>>>> Conto um episódio recente, aliás descrito ao fim do livro com o
>>>>> Chaitin e Newton. Estava saindo com uma psicanalista lacaniana que um dia
>>>>> me diz - no meio de uma palestra minha - que o princípio da incerteza de
>>>>> Heisenberg é relevante para a psicanálise.
>>>>>
>>>>> Pensei um instante e expliquei, devagarinho, o Princípio da Incerteza.
>>>>> Do técnico ao intuitivo - como um teorema de álgebra linear, como o
>>>>> comutador não trivial de x e d/dx - e relacionei-o ~as variáveis canônicas
>>>>> q e p em mecânica clássica, igualmente de comutador não trivial, e enfim
>>>>> como algo intuitivo. E ela me sai com uma interpretação surpreendente e
>>>>> rica de significado.
>>>>>
>>>>> Foi divertido :))
>>>>>
>>>>>
>>>>> 2011/12/5 Tony Marmo <[email protected]>
>>>>>
>>>>>> Só fica uma pergunta: essa moça aceita que lhe expliquem direito as
>>>>>> coisas ou não?
>>>>>>
>>>>>> O que me parece é que a jornalista queria mesmo escrever algo que lhe
>>>>>> pareceria interessante aos seus leitores e não algo que esclarecesse. Não
>>>>>> se sabe de onde ela tirou as informações para fazer o artigo, se as
>>>>>> informações estavam corretas ou não nas fontes que ela consulto, ou,
>>>>>> supondo-se que estivessem corretas, se as entendeu. O que me parece é que
>>>>>> ela colocou no artigo o que queria colocar, nem que para isso tivesse de
>>>>>> mudar o que ouviu ou leu, ou de construir conclusões sem verificar se
>>>>>> procediam mesmo do material que leu.
>>>>>>
>>>>>> É uma pessoa que considera que a objetividade científica seja um mito
>>>>>> e usou de uma figura de autoridade para criar um artigo em defesa de sua
>>>>>> própria ideia. Como Goedel, Einstein e Heisenberg são figuras importantes
>>>>>> do século passado, nada melhor que usar os três para construir a sua 
>>>>>> versão
>>>>>> de como a objetividade científica teria sido demolida.
>>>>>>
>>>>>> Mas, é nesse tipo de artigo que os jornalistas acreditam para vender
>>>>>> jornal ou atrair público. Provavelmente, supõe ela que falar de método
>>>>>> axiomático, do debate entre Hilbert e Browser, e do que realmente os
>>>>>> teoremas de Goedel tratam seja muito assunto pesado para um simples 
>>>>>> artigo
>>>>>> e possivelmente afastaria uma ampla gama de leitores.
>>>>>>
>>>>>> Alguém se lembra de uma controvérsia entre um artigo da professora
>>>>>> Marilena Chauí e uma réplica de um professor do IMECC vários anos atrás? 
>>>>>> O
>>>>>> professor do IMECC corrigiu a apresentação de vários conceitos e 
>>>>>> criticava
>>>>>> o fato de que, ainda que aceites os conceitos do modo que ela os 
>>>>>> formulara,
>>>>>> não se entendia porque ela tirava certas conclusões deles.
>>>>>>
>>>>>> Em 5 de dezembro de 2011 01:04, Francisco Antonio Doria <
>>>>>> [email protected]> escreveu:
>>>>>>
>>>>>> Ela me escreveu e vamos nos encontrar.
>>>>>>>
>>>>>>>
>>>>>>> 2011/12/2 Tony Marmo <[email protected]>
>>>>>>>
>>>>>>>> Li-o e considere-o uma crônica de ficção científica, quase a um
>>>>>>>> estilo
>>>>>>>> borgeano! :D
>>>>>>>>
>>>>>>>> Em 1 de dezembro de 2011 15:11, Décio Krause <[email protected]
>>>>>>>> >escreveu:
>>>>>>>>
>>>>>>>> > Caros lógicos
>>>>>>>> > Vejam o texto em http://carlarodrigues.uol.com.br/index.php/570
>>>>>>>> > sobre os teoremas (de incompletude, claro) de Gödel e tirem suas
>>>>>>>> próprias
>>>>>>>> > conclusões. A autora é de uma capacidade incrível para dizer
>>>>>>>> tolices sobre
>>>>>>>> > o que certamente não conhece.
>>>>>>>> > D.
>>>>>>>> >
>>>>>>>> > ------------------------------------------------------
>>>>>>>> > Décio Krause
>>>>>>>> > Departamento de Filosofia
>>>>>>>> > Universidade Federal de Santa Catarina
>>>>>>>> > 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
>>>>>>>> > http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
>>>>>>>> > ----------------------------------------------------
>>>>>>>> >
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>>>>>>>> > Logica-l mailing list
>>>>>>>> > [email protected]
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