Caros.

Sobre ENSINAR conjuntos como abstrações puras ou com analogias ao mundo
real, acho que defender intransigentemente a visão de abstração pura um
idealismo que JAMAIS será obtido.

Apresento, para fundamentar a minha opinião, um experimento realizado por
Leda Cosmides (U. Calif @ Sta Barbara).  Ela apresentou a um grupo de
pessoas o seguinte problema:  Suponha que v tenha um cj de cartas, em que
em uma face há uma letra e na outra um número.  Suponha que temos a regra:
"toda vogal deve ter um número par no outro lado".  Sobre a mesa temos
quatro cartas, mostrando as seguintes informações: A, C, 3 e 6.  Pergunta:
quais cartas devem ser inspecionadas para verificar que a regra está sendo
respeitada?

A maioria das pessoas ERROU, dizendo que precisava verificar só a primeira
carta ou a primeira e a última.  A resposta certa é a primeira e a terceira.

As mesmas pessoas foram apresentadas a outro problema.  Num bar, há pessoas
maiores e menores de 18 bebendo bebidas com ou sem álcool.  Temos quatro
pessoas: um menino de 16 anos, um vovô, um pessoa bebendo cerveja e outra
um suco de laranja.  Pergunta: quais pessoas precisam ser inspecionadas
para garantir que menores de 18 anos não podem beber bebida alcoólica.?
 Neste caso, praticamente TODOS acertaram.

Acontece que os dois problemas são o mesmo.  E a conclusão é a de que o
cérebro humano é talhado especialmente para raciocinar sobre situações de
cumprimento de regras sociais, e tem mais dificuldade (mas não
impossibilidade) para lidar com abstrações.

Se v busca didatismo, o caminho que passa por instanciações com situações
sociais, apesar de violar a "pureza" da abstração intransigente, é um
atalho com forte atrativo para ENSINAR SERES HUMANOS em geral.  As
primeiras vezes que as crianças ouvem falar em conjunto, elas só vão
entender se realizarem analogias.  Alguns anos depois da familiarização do
conceito a analogia pode ser esquecida, o que leva a alteração do próprio
conceito inicialmente "entendido" (o conceito primário de conjunto
dificilmente envolve infinitude, densidade, indução, etc).   Razões
evolutivas para isso não faltam.

Abraços

Marcelo

PS: Eu já vi este experimento mencionados em pelo 3 livros: "The Tipping
Point" de Malcolm Gladwell, "Grooming, Gossiping and the Origin of
Language", de Robin Dunbar, e tb em algum dos livros do Steven Pinker, acho
que "The Language Instinct".



2013/1/27 Décio Krause <[email protected]>

> Touché, JM.
>
>
>
> ------------------------------------------------------
> Décio Krause
> Departamento de Filosofia
> Universidade Federal de Santa Catarina
> 88040-900 Florianópolis - SC - Brasil
> http://www.cfh.ufsc.br/~dkrause
> ------------------------------------------------------
>
> Em 26/01/2013, às 13:28, Joao Marcos <[email protected]> escreveu:
>
> > A inferência se trata de um entimema.  A premissa oculta neste caso
> > poderia ser "elementos de conjuntos são entidades abstratas".
> >
> > Pode ser que Hrbacek e Jech não concordem com esta premissa.  Outros
> > autores concordariam.
> >
> > Esta é uma dificuldade usual de se escrever "textos básicos".  Até
> > sobre o que é "básico" (como a própria definição de "lógica") é
> > possível as opiniões diferirem, sem que nenhuma delas seja
> > necessariamente idiota.
> >
> > JM
> >
> > 2013/1/26 Rodrigo Podiacki <[email protected]>:
> >> "O autor chega a sugerir que um grupo de pessoas é um conjunto. Logo,
> >> pode-se inferir, pessoas são entidades abstratas."
> >>
> >> Que inferência é essa? Se um grupo de determinadas coisas é um conjunto,
> >> isso significa que as coisas que formam esse grupo também são um
> conjunto?
> >> O grupo é abstrato, mas não seus elementos. Isso é demasiado básico, e
> >> lamentável é eu ter que dizer isso para um professor de lógica.
> >>
> >> "A set is any collection, group, or conglomerate. So we have the set of
> all
> >> students registered at the City University of New York in February 1998,
> >> the set of all even natural numbers [...], the set of all pink
> elephants.
> >> [...] the set of all molecules in a drop of water is not the same
> object as
> >> that drop of water."
> >>
> >> -- Karel Hrbacek e Thomas Jech, *Introduction to set theory*. p. 1.
> >
> > --
> > http://sequiturquodlibet.googlepages.com/
> _______________________________________________
> Logica-l mailing list
> [email protected]
> http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
>



-- 
Marcelo Finger
Department of Computer Science, Cornell University

on leave from:
 Departament of Computer Science, IME
 University of Sao Paulo
 http://www.ime.usp.br/~mfinger
_______________________________________________
Logica-l mailing list
[email protected]
http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l

Responder a