> Me parece que o conceito de "totalidade" não foi definido, e que se formos 
> formalizá-lo, daremos a ele o nome de "conjunto".
[...]
> E esse é o problema com boa parte de discussões filosóficas chatas: a partir 
> do momento em que são formalizadas, elas se trivializam

Ao menos historicamente, parece-me que a maneira usual de apresentar
formalmente o paradoxo de Burali-Forti era justamente em termos da
"totalidade dos ordinais" (assim como o paradoxo de Russell costumava
ser apresentado em termos da "totalidade dos conjuntos", a qual foi
refinada mais tarde em ZFC como a "totalidade de conjuntos puros da
hierarquia cumulativa V").  "Classes próprias" e "pluralidades" são
outros nomes que vieram a ser usados em outros momentos, e os
*conjuntos* passaram a ser frequentemente identificados com as
"totalidades definidas".

[Comentário: o principal critério que Feferman apresentou para
identificar "totalidades definidas" era de que a quantificação sobre
tal totalidade fosse uma operação definida usando ferramentas da
lógica (clássica).  Vale notar que tal noção de definibilidade resulta
bastante distinta caso a teoria dos conjuntos subjacente seja,
digamos, a teoria predicativa de conjuntos de Kripke-Platek.]

Em Filosofia, a tese de que o "universo dos conjuntos" é uma
"totalidade completada" está ligada à doutrina metafísica *atualista*
(na sua versão quantificacional, ao invés da versão modal).  No
extremo, para um finitista, a quantificação sobre "totalidades
incompletadas", tais como aquela dada pela sequência dos números
naturais, é entendida como indefinida.

Cantor, por sua vez, empregava a terminologia um pouco vaga das
"multiplicidades consistentes" e das "multiplicidades inconsistentes",
ao tratar do que ele chamava de "absolute infinite".  Não creio que
tal terminologia ainda esteja em uso.  Parece-me comum, não obstante,
a hipótese de que tudo que é _grande demais_ para ser um conjunto
constituiria uma classe própria.  No entanto, coleções definidas de
classes não formam classes, e sim aquilo que os categoristas às vezes
chamam "conglomerados" --- quer dizer, enquanto não partem para uma
teoria de conjuntos à la Tarski-Groethendieck, onde tudo vira
"conjunto" outra vez. :-)

Resumindo, sem concluir coisa alguma:
o Universo é grande (e quase sempre alheio às nossas preocupações comezinhas).
Fica aberto o espaço para os colegas da lista que de tudo isso sabem
muito mais do que eu.
Joao Marcos

JM

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