Oi Aurium,

Eu tb devo discordar de algumas coisas que vc disse.

2006/12/26, Aurélio A. Heckert < [EMAIL PROTECTED]>:
Ok! Concordar seria natural, aceitável e bastante agregador, mas...

Eu quero discordar. :-)

On 12/26/06, Rafael Gomes < [EMAIL PROTECTED] > wrote:
> Radicalismo não nós levará a lugar algum... Já pensou um onda de
> assassinatos contra os políticos?

Desculpe mas acredito que só o radicalismo pode nos levar a
algum lugar. Mesmo que você acredite no fundamento budista
do caminho do meio, não existe caminho do meio sem tenções
equilibradas para os dois lados e acho que todo mundo já notou
que o lado do lucro, da inconsciência ecológica e do desrespeito
já puxou o mundo muito para o seu lado.

O que me faz lembrar também que "fundamentalismo", outro
conceito tão atacado pela mídia, é essencial para uma ação
de transformação consciente em socieade. Sem fundamentos
não existem idéias de aplicação prática.

Sei que existe uma tendência dos extremistas sempre existerem, mas não estou
convencido de que eles sejam realmente necessários.

E creio que você cometeu um engano pq, segundo mais de um dicionário,
fundamentalismo não tem nada a ver com o significado que vc está tentando
usar. Segundo o Wikcionário,  fundamentalismo é "a crença na interpretação
literal dos livros sagrados". E segundo o priberam, é a
"aceitação e defesa de um conjunto de princípios de natureza religiosa
tradicionais e ortodoxos tidos por verdades fundamentais e indispensáveis a
uma consciência religiosa (individual ou colectiva)".

Então, fundamentalismo não tem nada a ver com mudança consciente da
sociedade, muito pelo contrário. Tem a ver com uma visão dogmática e
estreita do mundo.


Agora se você começa a misturar "radicalismo" e "fundamentalismo"
com gerras religiosas do oriente médio... já era. Os radicais do
"fundamentalismo de mercado" venceram, pois te convenceram
de que ter ideologia é errado, afinal, a ideologia te leva ao
"radicalismo" e "fundamentalismo" que podem desestabilizar o
poder tão bem alicerçado de alguns.


Ter ideologia não tem nada ver com ser ou não ser um "fundamentalista de
mercado" (se é que isso existe). Todos, até o ser humano menos instruído tem
uma ideologia. Desde quando ideologia também significa o conjunto básico de
idéias que norteiam um indivíduo ou uma sociedade. O nosso conceito de certo
e errado faz parte da nossa ideologia, por exemplo. Então, todos tem uma,
independente de qual seja (e sei que vc sabe disso).



Porque ser radical significaria assasinar políticos?

Voltaire, o grande iluminista, disse:
"Senhor, sou contra tudo o que vossa senhoria disse,
 mas defenderei até a morte o seu direito de dize-la."
Ele era fundamentalista. se fundamentava nos ideais de
liberdade para guiar suas idéias. E era como se pode notar
radicalmente a favor das liberdades individuais, desde-que
fosse usada com respeito.

Ou seja, Voltaire é um dos nossos. :-)



Radicalismo não quer dizer assassinar ninguém, mas no mundo real nós vemos
todos os dias o quanto o radicalismo anda próximo da violência. Porque
muitos radicais não conseguem aceitar quando a maioria discorda dos seus
pontos de vista e, como último recurso, abraçam a violência como caminho
para serem aceitos ou ouvidos.

Fora que radicalismo gera mais radicalismo. Como vc mesmo deu a entender
mais acima, vc é radical pq outras pessoas já o são (mas em sentido
contrário às suas opiniões). Muitas vezes os radicais vencem e por isso
somos induzidos a crer que não existe outro caminho para mudar o mundo. O
problema é que essas vitórias costumam ser vitórias intransigentes, que não
dão espaço a pensamentos divergentes.

Você citou Voltaire e a citação que vc colocou fala da defesa do direito das
outras pessoas manifestarem suas opiniões. Mas de que adianta deixar os
outros falarem se nós de fato não os escutarmos? E não estou falando para
simplesmente acatarmos o que os outros estão falando, mas para primeiro
considerarmos suas palavras, pensarmos a respeito, e então emitirmos nossa
opinião.  Sendo firmes na defesa de nossas próprias idéias se ainda
julgarmos apropriado, mas também sendo humildes para retroceder e reconhecer
quando outro caminho for melhor.

É importante defendermos nossas idéias, mas a verdade não é absoluta e
muitos são os caminhos que levam a um mesmo lugar. Assumir que a nossa
verdade é a única válida e que é a melhor para todos me parece uma visão
muito totalitária de mundo.

Voltaire não era fundamentalista (pelo menos até onde sei) e talvez ele
fosse radical, no sentido de que pretendia provocar uma revolução na
mentalidade das pessoas com suas idéias. Mas não creio que ele fosse alguém
intransigente, porque acho que isso seria contrário à idéia de liberdade que
ele pregava.

Sou defensor de SL e acho que vc sabe disso, mas prefiro seguir um caminho
menos extremista, que me permite ver os pontos fortes e fracos de ambos os
lados e assim me dar a chance evoluir minha visão e minha argumentação para
que eu possa ser melhor entendido pelas outras pessoas.

Quanto ao "jeitinho brasileiro", eu não posso denegrir esse lado tão comum
no povo brasileiro. Dizer que o "jeitinho brasileiro" é ruim por
definição é como
dizer que os espinhos do porco-espinho são ruins por definição (o que
seria
fácil, afinal o que fazem de bom para quem vê de fora, pra quem não se
coloca
no lugar do porco-espinho). Eu não vejo com bons olhos o uso de Darwinismo

para definir o humano do ser humano e a sociedade, mas poderia usar isso
bem agora para mostrar indivíduos de um povo sem acesso a bens e serviços
deve buscar meios de suprir suas necessidades. Como o porco espinho
desenvolveu seus espinhos para defesa, nosso povo desenvolveu o "jeitinho
brasileiro". Só que o animal foi selecionado pela naturaza, nós
assimilamos
traços culturais pela cópia consciente ou não. O "jeitinho brasileiro"
garante
a sobrevivencia do nosso povo, mas não foi a melhor estratégia, assim como
os espinhos. No frio os porcos-espinho tem que ficar bem juntos pra não
congelarem, mas os espinhos atrapalham muito. Muito mesmo. O "jeitinho
brasileiro" solucionou muitos problemas sem criar conflitos de classes. O
que aparentemente é bom, mas não vai na raiz do problema. Ao menos
*podemos* perder esse traço cultural quando não for mais necessário, sem
precisar da seleção natural.


Numa primeira leitura, fui terminantemente contra a sua posição sobre o
"jeitinho brasileiro", mas numa releitura, acho que entendi melhor o que
quis dizer. E acho que concordo com você na maior parte, mas gostaria de
acrescentar que considero o "jeitinho" como um mecanismo de controle social,
que tem efeitos semelhantes ao "pão e circo" da Roma antiga.

O "jeitinho" é a válvula de escape social que nos mantém acomodados e
calados. Por que brigar por direitos se podemos dar um "jeitinho" em tudo?
Como expurgar do poder os políticos corruptos se somos tão corruptos quanto
eles nas pequenas coisas do dia-a-dia? Enquanto não nos livrarmos desse
ranço do passado, não vamos progredir como povo.

Então, voltando, concordo com o "ninguém faz nada" se isso for visto
como não somos tão unidos quanto deveriamos e não damos ouvidos
a ativistas, porque aprendemos a ter um preconceito negativo contra
ativistas.


Talvez pelos ativistas serem em geral radicais, e nós termos preconceito
contra os radicais. Ou talvez, por sermos tão radicais que não aceitamos
ceder em nenhum ponto para acomodar os ideais dos nossos vizinhos.


> Acho que somos um povo calado, que vai levando a vida sem se importar
com
> as coisas até que elas batam a sua porta...

É... isso faz parte do pacifismo do povo brasileiro.


Não acho que faça parte do pacifismo do nosso povo, mas sim da sua
passividade. Somos passivos por diversos motivos e isso é o que nos faz ser
ultrajados sem dizer uma única palavra em contrário.

Mas em relação ao tema original desta thread, não praguejo  contra o novo
laboratório da UNEB. Enquanto nós discutimos entre nós mesmos sobre a pureza
dos princípios que deveriam reger o mundo ou sobre quem tem mais ou menos
direito de falar sobre SL, a MS tem sido bastante objetiva nas suas ações.
Que eu saiba (me corrijam se eu estiver errado) é ela quem está bancando o
laboratório, e está focando na catequização de mentes jovens. Se nós podemos
fazer isso e temos recebido apoio do governo para expandir o SL, pq ela não
pode? Ainda mais investindo do próprio bolso?

E a despeito do que muitos aqui possam dizer, a MS sabe inovar sim (tanto
que vivemos reproduzindo no mundo SL coisas vindas dela) e possui grandes
tecnologias (e com isso não estou dizendo que tudo é bom). Segundo a arte da
guerra, um general que não reconhece os pontos fortes do seu adversário ou
suas próprias fraquezas está fadado ao fracasso. Se isso é verdade, a MS
está tentando aprender com seus fracassos anteriores e corrigir seus pontos
fracos (nós faziamos pregações em Universidades, agora ela tb faz). E está
nos encarando como adversários de fato. E nós continuamos perdendo tempo
reclamando sobre o que é justo ou não que ela faça. Ninguém vai nos dar nada
de graça, como sempre teremos que trabalhar muito para cada milímetro que
quisermos avançar.

Então parabéns a MS e a UNEB pela conquista e que essa iniciativa traga
algum progresso pro mercado do estado (que na minha opinião ainda é bem
provinciano). Acho que agora o que deveria estar sendo debatido aqui é: se
achamos que temos algo melhor a oferecer, o que pode ser feito? O que temos
a oferecer às mentes que estão entrando na Universidade e que pode ser
melhor  do que a MS pode fazer. Não acho que o discurso de "Software livre é
melhor e pronto" seja a melhor solução. Querendo ou não, isso é uma
competição e os adversários estão trabalhando pra ganhar.


Um grande abraço.

Helton
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