Artur: > Não gostei da expressão “alucinógeno vagabundo” da mensagem abaixo. Não se > deveria julgar o que não se conhece, baseado apenas em preconceitos oriundos > do mundo acadêmico ou de posturas cientificistas, isto não tem nada a ver > com Ciência.
Também não tem nada a ver com ciência adotar a postura inteiramente *crédula*, sem nenhum pé atrás. O que direi aqui não diz respeito em absoluto àquilo que você escolhe espontaneamente ter como parte da sua vida, e em particular às substâncias psicotrópicas que você escolheu provar ou deixar de provar, e que talvez um dia possamos todos provar juntos, em uma cerimônia religiosa ou festa. Discutíamos ciência (e religião, e até um pouquinho de lógica); voltarei a este assunto brevemente então. [Não voltarei a discutir tais assuntos publicamente após isto, porque realmente me parece que vamos nos afastando perigosamente do objetivo central desta lista.] > Há sete anos, desde agosto de 2002, eu bebo, pelo menos duas vezes por mês, > um chá de mariri (um cipó) com chacrona (um arbusto do qual são aproveitadas > as folhas), chamado por muitos de Ayahuasca > (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ayahuasca), que é uma bebida de duas plantas > sagradas utilizadas há milênios por várias sociedades indígenas das Américas > do Sul e Central. Chamamos tal bebida de “enteógena” > (http://pt.wikipedia.org/wiki/Enteógeno), e não de “alucinógena”. É usada em > um contexto religioso, para aumentar o estado de concentração mental, > importante para tomar consciência de estados íntimos e de assuntos > pertinentes à nossa relação com o Universo e com o Todo. Como os verbetes em português parecem fraquíssimos, parciais e bem pouco "científicos", eu recomendaria fortemente neste caso, ao invés, os verbetes em inglês (que também não são perfeitos): http://en.wikipedia.org/wiki/Entheogen http://en.wikipedia.org/wiki/Ayahuasca Estes verbetes me parecem esclarecer bem melhor a definição de "enteógeno" como uma substância psicoativa, muitas vezes de fundo "natural", usada em um contexto chamânico ou religioso (substâncias sintéticas chamadas de enteógenas também existem, como o LSD). O termo foi escolhido principalmente para estabelecer a distinção entre "usos religiosos" e "usos recreativos" (ou mesmo "usos terapêuticos") das mesmas substâncias. É quase uma distinção que diz mais respeito à "correção política" do que a qualquer outra coisa. > Não deve ser confundindo com drogas de qualquer espécie, pois o uso da > Ayahuasca, especialmente em um ritual religioso, não desenvolve vício ou > tolerância. Não há dependência, pois nenhum usuário fica com dependência > fisiológica ou emocional de qualquer tipo. Eu conheço aliás gente que usou > este chá por anos, mas depois, por razões pessoais, deixou de utilizá-lo, > sem quaisquer problemas. Tampouco desenvolve tolerância, pois não é > requerido um aumento de quantidade para obter o efeito desejado de > concentração mental. No meu caso, por exemplo, bebo hoje cerca de metade da > quantia que eu bebia quando comecei, há sete anos. Estes comentários não parecem ser suportados por qualquer tipo de base *científica*, tal como experiências controladas e reprodutíveis, preferencialmente publicadas amplamente em periódicos com revisão por pares. Trata-se da sua *opinião* e da sua história *pessoal*, que devemos, claro, levar em consideração. Não obstante, simplesmente não parecem haver sido feitos estudos suficientes a respeito, para que qualquer afirmação deste tipo sobre dependência, tolerância ou efeitos colaterais (ah, que bom se existisse um "soma") possa ser feito. Sabe-se que o alcalóide dimetilltriptamina, contido na infusão do ayahuasca, tem propriedades alucinógenas e potencialmente tóxicas (cf. [1]). As doses usadas nas cerimônias do ayahuasca, contudo, parecem ser muito fracas para terem efeito letal (cf. [2]). [1] Marie Balíková. Collective poisoning with hallucinogenous herbal tea. Forensic Science International: 128/1-2, pp.50-52, 2002. [2] Robert S. Gable. Risk assessment of ritual use of oral dimethyltryptamine (DMT) and harmala alkaloids. Addiction: 102/1, pp.24-34, 2006. Abraço, Joao Marcos PS: Visitei há poucos dias o umbigo do mundo no Oráculo de Delfos e fiquei curioso em saber que tipo de vapores eram inalados pela sibila antes de proferir suas profecias (convenientemente "interpretadas" por um padre que estivesse ali ao lado em forma de hexâmetros em "língua de gente")... Não descobri. Também não encontrei traço, em toda a Grécia, de todo aquele panteão de deuses tão poderosos nos quais tanta gente acreditava, queria e temia há alguns séculos. Morreram os deuses, morreram seus crentes. Há outro tipo de crentes na Grécia agora, claro, e uma mitologia foi trocada por outra. -- My homepage: http://sequiturquodlibet.googlepages.com/ _______________________________________________ Logica-l mailing list [email protected] http://www.dimap.ufrn.br/cgi-bin/mailman/listinfo/logica-l
