Salve, Daniel:

Já que é este o caso, você pode traduzir *entailment* por
*acarretamento* sem susto e sem aspas.  Nosso colega van Ormand Quine
não poderia em absoluto ter tido em mente questões terminológicas
levantadas por "lógicos da relevância" que ainda nem existiam!

Com relação ao "estado miserável" da Teoria do Significado, Quine em
sua época (pré-Belnap) tinha toda a razão no que afirmou (anote esta
frase aí, já que vai ser muito difícil você me ver dizendo outra vez
que "Quine tinha razão").  Felizmente, hoje em dia a situação é BEM
diferente, em particular graças ao desenvolvimento da "Abstract
Algebraic Logic" e ao estudo da "Lógica Universal".  A noção de
*sinonímia*, em particular, já é bem melhor compreendida (e não dá
mais motivo para tanta perturbação), sendo apresentável de fato de
modo a envolver a noção de *acarretamento*.  Confira por exemplo a
definição que Smiley propôs uma década após o artigo ideológico do
Quine: denote por Psi(p) um "contexto sentencial" (isto é, uma
fórmula) no qual ocorre a variável proposicional p, e recorde que
dizemos que duas sentenças S1 e S2 são logicamente equivalentes, do
ponto de vista de uma determinada lógica, quando tanto X acarreta Y
quanto Y acarreta X ; dizemos então que A e B são expressões
*sinônimas* quando Psi(A) e Psi(B) são equivalentes, para todo
contexto sentencial Psi.  Lógicas *congruenciais* (locus classicus da
"intensionalidade"), em particular, são aquelas em que todas as
expressões equivalentes são sinônimas (isto é, nestas lógicas vale a
propriedade de "replacement" / substitutividade).  Por outro lado, as
lógicas *verofuncionais*, caracterizáveis "extensionalmente", só são
congruenciais muito raramente --- o que levou Roman Suszko a afirmar,
equivocadamente, que a congruencialidade sempre falharia caso uma
lógica fosse caracterizável por matrizes com mais de dois
valores-de-verdade.  Estava errado Suszko, e esteve errado tantas
vezes o Quine...

Para mais sobre os fascinantes temas da verofuncionalidade e da
extensionalidade, vale a pena conferir o capítulo 3 da bíblia do
Humberstone, "The Connectives".  Vale ainda acrescentar que o tema da
sinonímia "definicional", no qual não toquei no parágrafo acima, foi
explorado por Lopez-Escobar e Miraglia em uma edição inteira da
Dissertationes Mathematicae, dentro da tradição de Lesniewski-Tarski.
JM


2013/11/20 Daniel Durante <[email protected]>:
> Colegas,
>
> A questão que mais me preocupava na tradução de “entailment” era justamente a 
> apontada por Jean-Yves. Autores diferentes usam entailment com significados 
> diferentes! E eu simplesmente não tenho clareza absoluta do significado no 
> texto original! Usei “acarretamento”, mas vou fazer uma nota de rodapé (quem 
> sabe até um outro artigo :) ). De todo modo, o texto original é um trecho bem 
> conhecido de “Ontology and Ideology”, de Quine, onde ele separa a semântica 
> em teoria do significado e teoria da referência, e coloca “entailment” como 
> uma das noções da teoria do significado (os “bad guys"):
>
> A fundamental cleavage needs to be observed between two parts of so-called 
> semantics: the theory of reference and the theory of meaning. The theory of 
> reference treats of naming, denotation, extension, coextensiveness, values of 
> variables, truth; the theory of meaning treats of synonymy, analyticity, 
> syntheticity, entailment, intension. Now the question of the ontology of a 
> theory is a question purely of the theory of reference. The question of the 
> ideology of a theory, on the other hand, obviously tends to fall within the 
> theory of meaning; and, insofar, it is heir to the miserable conditions, the 
> virtual lack of scientific conceptualization, which characterize the theory 
> of meaning.
>
> Bem, Quine põe “entailment” junto dos “bad guys”, mas eu não sei se ele 
> colocaria “implicação lógica” junto dos “bad guys” também! Na verdade, esta 
> referência dele a “entailment” neste trecho é, para mim, bastante 
> perturbadora!!!
>
> De todo modo, obrigado pelas sugestões.
>
> Abraços,
> Daniel.
>
> PS: Bem, Andrea, fiquei curioso para saber a tradução do Balthazar depois de 
> Steinhaegers com Underberg… :)

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