Caras(os) colegas,

Penso que as perspectivas, diferentes, do Eduardo e do Daniel representam
uma outra diretiva mais geral:

(d) O uso de modelos de linguagem no ensino universitário depende das
características dos estudantes, dos professores, das disciplinas e das
instituições.

É por isso que, para mim, faz sentido a postura do Daniel de usar um LLM
como uma ferramenta de monitoria suplementar pro seu curso de lógica --
muito bom por sinal! --, assim como faz sentido o Eduardo não usá-lo porque
seus alunos têm deficiências de formação básica, o que pode ser agravado
com o uso desse tipo de ferramenta. O problema real é a massificação do seu
uso, sem avaliação do que é cabível em cada contexto -- isso sem falar dos
problemas éticos, cognitivos e econômicos envolvidos...

João Marcos, pensei um pouco mais sobre sua defesa de que existe uma
componente interativa e recursiva no uso de LLMs que é diferente de outros
sistemas de interação humana. Acho que você tem razão. Talvez uma distinção
entre "agente epistêmico" e "agente epistemológico" possa ajudar -- nos
moldes da distinção Heideggeriana entre ôntico e ontológico, algo que
também aparece em trabalhos de fundamentos da física. Um modelo de
linguagem pode ser visto como um agente epistêmico, no sentido de ser uma
ferramenta dinâmica que auxilia na construção de conhecimento, mas não o
direciona (intencionalidade) nem o estrutura (intensionalidade) -- estou me
referindo aqui à diferença entre contextos extensionais e intensionais do
Quine -- ou seja, não é um agente epistemológico. Essa diferença permite
fundamentar, penso, uma outra sugestão pro uso de modelos de linguagem no
ensino:

(e) Apresentar relatório dos prompts usados nas pesquisas com auxílio de
modelos de linguagem

O Adolfo já mencionou algo nessa direção, e agora me parece que é algo
essencial. O estudante pode usar modelos de linguagem nos seus trabalhos,
como ferramentas epistêmicas, mas a construção do conhecimento precisa ser
explicitada na forma de um relatório do direcionamento e da estruturação
que fez. Daí a importância do relatório dos prompts: é onde se passa do
âmbito epistêmico para o epistemológico.

O mesmo tipo de problema surge no uso de assistentes de prova na pesquisa
em matemática. Não basta fazer a verificação. É preciso garantir que a
formalização está correta. Afora isso, existem questões associadas à
compreensão do trabalho realizado, a parte epistemológica. É assim que vejo
uma uniciativa recente do Tao, Avigad, e outros pesquisadores, chamada
Palomar <
https://terrytao.wordpress.com/2026/08/18/palomar-a-registry-of-lean-verified-mathematics/>.
Se concordamos sobre esse ponto (e) e o estendemos também pro uso de
assistentes de provas, surgem várias questões sobre como usar assistentes
de prova no ensino e pesquisa matemática que vão muito além do seu uso como
ferramenta de verificação. Algo a ser discutido.

Abraços,

*Anderson*


On Mon, Aug 24, 2026 at 6:32 PM Eduardo Ochs <[email protected]> wrote:

> Oi Lista,
>
> Os alunos que eu costumo ter estão num nível muito mais básico do que
> os do Daniel, e praticamente nenhuma das idéias de como usar IA na
> eduacação que o Sidorkin menciona nesse draft aqui,
>
>
> https://anggtwu.net/tmp/sidorkin__ai-enhanced_pedagogies_rethinking_learning_curriculum_and_human_potential_in_the_age_of_intelligent_machines.pdf
>
> se aplica aos meus alunos.
>
> Vou tentar dar um resumo do que eu pretendo explicar pros meus alunos.
> Por enquanto essas idéias estão em vários textos bagunçados, então
> acho que vai ser melhor - pra mim e pra vocês - eu tentar resumi-las
> de um jeito novo. Lá vai - aliás, aqui vão só algumas das historinhas
> principais...
>
> --snip--snip--
>
> Os alunos estão chegando nas minhas turmas sem terem uma noção clara
> de que "entender", "decorar" e "copiar" são processos mentais bem
> diferentes, e que usam "músculos mentais" diferentes.
>
> Pra quem tem bastante prática com esses processos, como a gente, a
> diferença entre eles é tão gritante como a diferença entre "braço" e
> "perna" - por exemplo, imagina que duas pessoas estão cada uma do lado
> de um skate no chão, e uma delas levanta o skate abaixando pra pegar
> ele com a mão e a outra levanta ele pisando na ponta dele com o pé...
> MUITA GENTE NÃO CONSEGUE VER ESSA DIFERENÇA.
>
> A minha historinha preferida sobre alguém que não consegue ver uma
> diferença que pra gente é óbvia é essa aqui. O `P'edrinho está na fase
> `P'ré-silábica, e um dia a professora passa um ditado, uma das
> palavras é "ÁRVORE", e o Pedrinho escreve "VROOEA". Quando ele vê no
> teste corrigido que ele errou ele cai no choro - porque ele ainda não
> tem as estruturas mentais necessárias pra entender que a ordem das
> letras importa.
>
> Agora imagina que o Alex e a Thamy vão fazer prova pra Polícia
> Federal, e essa prova tem uns testes de aptidão física. Os dois moram
> perto de uma pista de corrida, e uma das coisas que o Thamy faz pra se
> preparar pra essa prova é que todo dia ela vai na pista e corre várias
> voltas. O Alex faz algo parecido mas ao invés de correr a pé ele dá
> várias voltas em torno de pista de Uber. Aí quando chega o dia da
> prova de aptidão física a Thamy passa nela e o Alex não.
>
> --snip--snip--
>
> Acho que eu tou meio obcecado por um problema que é difícil demais, e
> que imagino que vocês lidem com ele dizendo "ah, só uns 25% dos alunos
> são assim, então a gente só reprova eles e pronto"...
>
> Então: 25% dos meus alunos, ou talvez mais do que isso, não têm as
> estruturas mentais necessárias pra entenderem o que é uma pessoa, o
> que é conversar com uma pessoa, o que é explicar coisas pra uma pessoa
> de um modo que ela entenda, e como eles não têm prática suficiente de
> se colocarem no lugar dos outros eles não conseguem comparar isso com
> a versão espelhada disso, em que uma outra pessoa te explica algo, e
> ela pode te explicar de um jeito que você entenda ou de um jeito que
> você não entenda, e você pode fazer perguntas pra ela - se você souber
> perguntar, claro...
>
> Aqui tem uns textinhos bem bons sobre como é difícil aprender a falar
> em público na universidade, e como isso geralmente é um processo de
> anos:
>
> https://news.ycombinator.com/item?id=49224294
>
> https://anggtwu.net/tmp/hacker_news__danish_high_schoolers_will_have_to_verbally_defend_written_assignments_49224294.pdf
>
> E olha esse texto aqui, que fala bastante sobre "shared knowledge":
>
> "what is publicly shared knowledge defines the granularity of
> acceptable mathematical reasoning within a given context"
>
> https://anggtwu.net/tmp/phillips__constructivism_in_education_opinions_and_second_opinions_on_controversial_issues.pdf#page=220
>
> Imagina um aluno que só conversa com IAs. Pra ele o custo psicológico
> de falar com outras pessoas da turma, seja por voz ou nos canais de
> chat, é tão alto que ele vai ficar quase que totalmente de fora da
> construção de "shared knowledge", e ele vai ter muito mais dificuldade
> que os outros pra saber se um passo numa conta dele é claro ou não, se
> uma justificativa dele é boa ou não, e coisas assim...
>
> Aí eu tou pretendendo dizer pros meus alunos que: gente, esse curso
> aqui é principalmente sobre técnicas de descobrir coisas sozinho, e
> pra "aprender a descobrir" vocês vão ter que aprender a fazer
> perguntas boas, o que é bem difícil, e no processo vocês vão ter
> aprender a fazer perguntas ruins, e vão ter que aprender a falar, que
> pra muitos de vocês vai ser a coisa mais difícil da vida de vocês,
> tipo que vocês vão ficar tão nervosos que vocês vão chegar em casa e
> vão vomitar sangue, e não adianta vocês tentarem ajustar a dose dos
> remédios pra vocês ficarem "normais", porque não tem como a gente
> ficar normal quando a gente tá aprendendo a coisa mais difícil da vida
> de gente...
>
> Eita, vou ter que sair, então vou mandar isso como está. Acho que eu
> deixei claro porque é que eu não vou fazer chatbots pros meus cursos,
> né...
>
>   [[]],
>     Eduardo
>
> On Mon, 24 Aug 2026 at 15:04, Daniel Durante <[email protected]> wrote:
> >
> > Colegas,
> >
> > Sobre o uso de IA no ensino, eu tento estimular estudantes a brincar com
> LLMs; quem sabe isso melhora a motivação para estudar lógica? Configurei um
> (Gemini) Notebook para ser um robô monitor de uma disciplina minha bem
> básica de introdução à lógica para estudantes de ciências humanas. Fiz
> alguns testes com o Notebook e, avaliando suas respostas às minhas
> perguntas, se ele fosse candidato em uma seleção de monitores humanos, eu o
> teria aprovado. Então disponibilizei para a turma e estimulo o uso. Quem
> quiser pode dar uma olhada aqui:
> >
> >
> https://notebook.google.com/notebook/1f011f9b-b10c-44ef-b0aa-8d6589c47fb4
> >
> > No caso da minha disciplina, não há muita pressão sobre possíveis
> trapaças dos estudantes. Eles têm que fazer 2 provas presenciais sem
> consulta.
> >
> > Sobre as questões mais profundas da IA, eu não tenho muito a
> acrescentar. Não sei se os LLMs são (ou serão) entidades conscientes, ou se
> são e sempre serão meros papagaios probabilísticos. Seja lá o que forem, o
> que ninguém pode negar é que eles têm competência linguística: reagem às
> nossas perguntas como se as compreendessem e nos dão respostas (a nós)
> compreensíveis. Às vezes erram, alucinam e dizem besteiras? Bem, e nós
> mesmos não fazemos isso?
> >
> > Eu acho que meu robô monitor tem plena competência para tirar dúvidas
> das minhas alunas e alunos, e o risco dele dizer alguma bobagem errada não
> me parece muito maior do que o risco de eu mesmo dizer alguma bobagem
> errada para a turma.
> >
> > Mas eu deixei o link aí em cima. Se alguém estiver com tédio, insônia ou
> procurando algum motivo para procrastinar algum trabalho importante, pode
> torturar o robozinho e depois me conta se ele passou no teste ou não. Eu
> agradeço.🙂
> >
> > Saudações,
> > Daniel.
> > ─────────────────────────
> > Departamento de Filosofia - (UFRN)
> > https://www.danieldurante.net.br
> >
> >
> > Em sexta-feira, 21 de agosto de 2026 às 10:31:32 UTC-3, Joao Marcos
> escreveu:
> >>
> >> PessoALL:
> >>
> >> Também esta lista é um bom fórum público para discutirmos a *educação
> >> do futuro*, nem que seja do ponto de vista muito específico de
> >> formadores e educadores com interesse em _Ensino de Lógica_.
> >>
> >> Todo mundo já teve professores que são meros enganadores: não
> >> compreendem minimamente o que estão se colocando na função de ensinar.
> >> (Em algum momento, confesso, eu me regozijei com a invenção das LLMs,
> >> pois ela torna muito mais fácil ---bem, ao menos para os
> >> especialistas--- expor tais tipos de farsantes.)
> >>
> >> Muitos dizem que com as LLMs tudo isto vai mudar: sempre poderemos
> >> aprender mais fora da sala de aula, a partir de uma ferramenta capaz
> >> de elaborar uma síntese linguística capaz de simular (muito bem) o
> >> discurso de um especialista. Mais ainda, poderemos conversar
> >> _diretamente_ com um "especialista instantâneo artificial", no nível
> >> que desejarmos.
> >>
> >> Sob esta perspectiva, entendo que um dos objetivos da educação atual,
> >> em um "mundo inteligente", seria, em dois passos:
> >>
> >> (1) Preparar os estudantes para fazer "perguntas inteligentes".
> >>
> >> (2) Equipar os estudantes com conhecimento técnico, conceitual e
> >> metodológico suficiente para estes serem capazes de avaliar (buscando
> >> fontes, reconstruindo argumentos e procedimentos, indo atrás de
> >> contra-exemplos e explicações alternativas) e compreender uma resposta
> >> recebida, de modo a retornar de forma produtiva ao passo (1),
> >> recursivamente, caso ainda haja interesse.
> >>
> >> Resta-nos esclarecer, evidentemente, o que são "perguntas
> >> inteligentes" (o que envolve identificar problemas relevantes,
> >> formular perguntas cada vez melhores, decompor questões complexas), e
> >> descobrir de que formas podemos manter o interesse dos estudantes
> >> vivo.
> >>
> >> Muito importante, em um mundo em que a _aparência de conhecimento_ se
> >> tornou muito barata, os estudantes precisam ser capazes de *assumir
> >> compromissos epistêmicos próprios*, ao invés de simplesmente
> >> copiar-e-colar a resposta de uma LLM ("because the master said so").
> >> Quem determina, afinal, o que merece ser perguntado, e o que conta
> >> como boa evidência? Como lidar de forma honesta com dúvidas e erros?
> >> E quem é o _responsável epistêmico (e moral)_ pelas *conclusões* dos
> >> nossos argumentos?
> >>
> >> O que pensam os colegas sobre estas coisas?
> >>
> >> Saudações lógicas,
> >> João Marcos
> >>
> >> --
> >> https://sites.google.com/site/sequiturquodlibet/
> >
> > --
> > LOGICA-L
> > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
> Lógica <[email protected]>
> > ---
> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos
> Grupos do Google.
> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele,
> envie um e-mail para [email protected].
> > Para ver esta conversa, acesse
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4b262ce9-42e2-4e1b-a6b4-9f6c0c3b8207n%40dimap.ufrn.br
> .
>
> --
> LOGICA-L
> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de
> Lógica <[email protected]>
> ---
> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L"
> dos Grupos do Google.
> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie
> um e-mail para [email protected].
> Para ver esta conversa, acesse
> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CADs%2B%2B6hrztoP1hhYvpv0mGvaR9am1AZE%3DKJUP9kkON%2BtxqmRqg%40mail.gmail.com
> .
>

-- 
LOGICA-L
Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica 
<[email protected]>
--- 
Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" dos 
Grupos do Google.
Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, envie um 
e-mail para [email protected].
Para ver esta conversa, acesse 
https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CAJrBeCWDOEC1Xm30nnmuXr_9qhfkJ-mFmLrU8%3DFfA4PyO1dVXA%40mail.gmail.com.

Responder a