Oi, Eduardo, Anderson e colegas,

Entendo perfeitamente a postura do Eduardo. Eu, por exemplo, não usaria de 
modo algum um chatbot no ensino fundamental; e no ensino médio, só em 
pouquíssimas ocasiões especiais, onde o letramento digital fosse parte 
importante da atividade formativa. Para todo o resto, acho que não convém.
Mas na universidade, talvez equivocadamente, tendo a tratar estudantes como 
adultos. E o robô monitor me parece um recurso didático útil para pessoas 
adultas.

Na minha disciplina, os estudantes não têm nenhum incentivo avaliativo para 
interagir com o robô monitor. Nada do que eventualmente o robô faça por 
eles vale nota. Então, não vejo nenhum "pequeno mal" no seu uso. Claro que 
sempre há os "grandes males" da IA e de sua disseminação indiscriminada. E 
bom, aí eu assumo o risco e um centavo de responsabilidade. Se eu tivesse 
mais tempo, prepararia um ambiente com skills para lidar com os livros e 
materiais didáticos e usaria como "motor" algum modelo opensource. Mas, 
enfim... 

Saudações,
Daniel.

Em terça-feira, 25 de agosto de 2026 às 19:56:13 UTC-3, anderaujo escreveu:

> Caras(os) colegas,
>
> Penso que as perspectivas, diferentes, do Eduardo e do Daniel representam 
> uma outra diretiva mais geral:
>
> (d) O uso de modelos de linguagem no ensino universitário depende das 
> características dos estudantes, dos professores, das disciplinas e das 
> instituições.
>
> É por isso que, para mim, faz sentido a postura do Daniel de usar um LLM 
> como uma ferramenta de monitoria suplementar pro seu curso de lógica -- 
> muito bom por sinal! --, assim como faz sentido o Eduardo não usá-lo porque 
> seus alunos têm deficiências de formação básica, o que pode ser agravado 
> com o uso desse tipo de ferramenta. O problema real é a massificação do seu 
> uso, sem avaliação do que é cabível em cada contexto -- isso sem falar dos 
> problemas éticos, cognitivos e econômicos envolvidos...
>
> João Marcos, pensei um pouco mais sobre sua defesa de que existe uma 
> componente interativa e recursiva no uso de LLMs que é diferente de outros 
> sistemas de interação humana. Acho que você tem razão. Talvez uma distinção 
> entre "agente epistêmico" e "agente epistemológico" possa ajudar -- nos 
> moldes da distinção Heideggeriana entre ôntico e ontológico, algo que 
> também aparece em trabalhos de fundamentos da física. Um modelo de 
> linguagem pode ser visto como um agente epistêmico, no sentido de ser uma 
> ferramenta dinâmica que auxilia na construção de conhecimento, mas não o 
> direciona (intencionalidade) nem o estrutura (intensionalidade) -- estou me 
> referindo aqui à diferença entre contextos extensionais e intensionais do 
> Quine -- ou seja, não é um agente epistemológico. Essa diferença permite 
> fundamentar, penso, uma outra sugestão pro uso de modelos de linguagem no 
> ensino:
>
> (e) Apresentar relatório dos prompts usados nas pesquisas com auxílio de 
> modelos de linguagem
>
> O Adolfo já mencionou algo nessa direção, e agora me parece que é algo 
> essencial. O estudante pode usar modelos de linguagem nos seus trabalhos, 
> como ferramentas epistêmicas, mas a construção do conhecimento precisa ser 
> explicitada na forma de um relatório do direcionamento e da estruturação 
> que fez. Daí a importância do relatório dos prompts: é onde se passa do 
> âmbito epistêmico para o epistemológico.
>
> O mesmo tipo de problema surge no uso de assistentes de prova na pesquisa 
> em matemática. Não basta fazer a verificação. É preciso garantir que a 
> formalização está correta. Afora isso, existem questões associadas à 
> compreensão do trabalho realizado, a parte epistemológica. É assim que vejo 
> uma uniciativa recente do Tao, Avigad, e outros pesquisadores, chamada 
> Palomar <
> https://terrytao.wordpress.com/2026/08/18/palomar-a-registry-of-lean-verified-mathematics/>.
>  
> Se concordamos sobre esse ponto (e) e o estendemos também pro uso de 
> assistentes de provas, surgem várias questões sobre como usar assistentes 
> de prova no ensino e pesquisa matemática que vão muito além do seu uso como 
> ferramenta de verificação. Algo a ser discutido.
>
> Abraços,
>
> *Anderson*
>
>
> On Mon, Aug 24, 2026 at 6:32 PM Eduardo Ochs <[email protected]> wrote:
>
>> Oi Lista,
>>
>> Os alunos que eu costumo ter estão num nível muito mais básico do que
>> os do Daniel, e praticamente nenhuma das idéias de como usar IA na
>> eduacação que o Sidorkin menciona nesse draft aqui,
>>
>>
>> https://anggtwu.net/tmp/sidorkin__ai-enhanced_pedagogies_rethinking_learning_curriculum_and_human_potential_in_the_age_of_intelligent_machines.pdf
>>
>> se aplica aos meus alunos.
>>
>> Vou tentar dar um resumo do que eu pretendo explicar pros meus alunos.
>> Por enquanto essas idéias estão em vários textos bagunçados, então
>> acho que vai ser melhor - pra mim e pra vocês - eu tentar resumi-las
>> de um jeito novo. Lá vai - aliás, aqui vão só algumas das historinhas
>> principais...
>>
>> --snip--snip--
>>
>> Os alunos estão chegando nas minhas turmas sem terem uma noção clara
>> de que "entender", "decorar" e "copiar" são processos mentais bem
>> diferentes, e que usam "músculos mentais" diferentes.
>>
>> Pra quem tem bastante prática com esses processos, como a gente, a
>> diferença entre eles é tão gritante como a diferença entre "braço" e
>> "perna" - por exemplo, imagina que duas pessoas estão cada uma do lado
>> de um skate no chão, e uma delas levanta o skate abaixando pra pegar
>> ele com a mão e a outra levanta ele pisando na ponta dele com o pé...
>> MUITA GENTE NÃO CONSEGUE VER ESSA DIFERENÇA.
>>
>> A minha historinha preferida sobre alguém que não consegue ver uma
>> diferença que pra gente é óbvia é essa aqui. O `P'edrinho está na fase
>> `P'ré-silábica, e um dia a professora passa um ditado, uma das
>> palavras é "ÁRVORE", e o Pedrinho escreve "VROOEA". Quando ele vê no
>> teste corrigido que ele errou ele cai no choro - porque ele ainda não
>> tem as estruturas mentais necessárias pra entender que a ordem das
>> letras importa.
>>
>> Agora imagina que o Alex e a Thamy vão fazer prova pra Polícia
>> Federal, e essa prova tem uns testes de aptidão física. Os dois moram
>> perto de uma pista de corrida, e uma das coisas que o Thamy faz pra se
>> preparar pra essa prova é que todo dia ela vai na pista e corre várias
>> voltas. O Alex faz algo parecido mas ao invés de correr a pé ele dá
>> várias voltas em torno de pista de Uber. Aí quando chega o dia da
>> prova de aptidão física a Thamy passa nela e o Alex não.
>>
>> --snip--snip--
>>
>> Acho que eu tou meio obcecado por um problema que é difícil demais, e
>> que imagino que vocês lidem com ele dizendo "ah, só uns 25% dos alunos
>> são assim, então a gente só reprova eles e pronto"...
>>
>> Então: 25% dos meus alunos, ou talvez mais do que isso, não têm as
>> estruturas mentais necessárias pra entenderem o que é uma pessoa, o
>> que é conversar com uma pessoa, o que é explicar coisas pra uma pessoa
>> de um modo que ela entenda, e como eles não têm prática suficiente de
>> se colocarem no lugar dos outros eles não conseguem comparar isso com
>> a versão espelhada disso, em que uma outra pessoa te explica algo, e
>> ela pode te explicar de um jeito que você entenda ou de um jeito que
>> você não entenda, e você pode fazer perguntas pra ela - se você souber
>> perguntar, claro...
>>
>> Aqui tem uns textinhos bem bons sobre como é difícil aprender a falar
>> em público na universidade, e como isso geralmente é um processo de
>> anos:
>>
>> https://news.ycombinator.com/item?id=49224294
>>
>> https://anggtwu.net/tmp/hacker_news__danish_high_schoolers_will_have_to_verbally_defend_written_assignments_49224294.pdf
>>
>> E olha esse texto aqui, que fala bastante sobre "shared knowledge":
>>
>> "what is publicly shared knowledge defines the granularity of
>> acceptable mathematical reasoning within a given context"
>>
>> https://anggtwu.net/tmp/phillips__constructivism_in_education_opinions_and_second_opinions_on_controversial_issues.pdf#page=220
>>
>> Imagina um aluno que só conversa com IAs. Pra ele o custo psicológico
>> de falar com outras pessoas da turma, seja por voz ou nos canais de
>> chat, é tão alto que ele vai ficar quase que totalmente de fora da
>> construção de "shared knowledge", e ele vai ter muito mais dificuldade
>> que os outros pra saber se um passo numa conta dele é claro ou não, se
>> uma justificativa dele é boa ou não, e coisas assim...
>>
>> Aí eu tou pretendendo dizer pros meus alunos que: gente, esse curso
>> aqui é principalmente sobre técnicas de descobrir coisas sozinho, e
>> pra "aprender a descobrir" vocês vão ter que aprender a fazer
>> perguntas boas, o que é bem difícil, e no processo vocês vão ter
>> aprender a fazer perguntas ruins, e vão ter que aprender a falar, que
>> pra muitos de vocês vai ser a coisa mais difícil da vida de vocês,
>> tipo que vocês vão ficar tão nervosos que vocês vão chegar em casa e
>> vão vomitar sangue, e não adianta vocês tentarem ajustar a dose dos
>> remédios pra vocês ficarem "normais", porque não tem como a gente
>> ficar normal quando a gente tá aprendendo a coisa mais difícil da vida
>> de gente...
>>
>> Eita, vou ter que sair, então vou mandar isso como está. Acho que eu
>> deixei claro porque é que eu não vou fazer chatbots pros meus cursos,
>> né...
>>
>>   [[]],
>>     Eduardo
>>
>> On Mon, 24 Aug 2026 at 15:04, Daniel Durante <[email protected]> wrote:
>> >
>> > Colegas,
>> >
>> > Sobre o uso de IA no ensino, eu tento estimular estudantes a brincar 
>> com LLMs; quem sabe isso melhora a motivação para estudar lógica? 
>> Configurei um (Gemini) Notebook para ser um robô monitor de uma disciplina 
>> minha bem básica de introdução à lógica para estudantes de ciências 
>> humanas. Fiz alguns testes com o Notebook e, avaliando suas respostas às 
>> minhas perguntas, se ele fosse candidato em uma seleção de monitores 
>> humanos, eu o teria aprovado. Então disponibilizei para a turma e estimulo 
>> o uso. Quem quiser pode dar uma olhada aqui:
>> >
>> > 
>> https://notebook.google.com/notebook/1f011f9b-b10c-44ef-b0aa-8d6589c47fb4
>> >
>> > No caso da minha disciplina, não há muita pressão sobre possíveis 
>> trapaças dos estudantes. Eles têm que fazer 2 provas presenciais sem 
>> consulta.
>> >
>> > Sobre as questões mais profundas da IA, eu não tenho muito a 
>> acrescentar. Não sei se os LLMs são (ou serão) entidades conscientes, ou se 
>> são e sempre serão meros papagaios probabilísticos. Seja lá o que forem, o 
>> que ninguém pode negar é que eles têm competência linguística: reagem às 
>> nossas perguntas como se as compreendessem e nos dão respostas (a nós) 
>> compreensíveis. Às vezes erram, alucinam e dizem besteiras? Bem, e nós 
>> mesmos não fazemos isso?
>> >
>> > Eu acho que meu robô monitor tem plena competência para tirar dúvidas 
>> das minhas alunas e alunos, e o risco dele dizer alguma bobagem errada não 
>> me parece muito maior do que o risco de eu mesmo dizer alguma bobagem 
>> errada para a turma.
>> >
>> > Mas eu deixei o link aí em cima. Se alguém estiver com tédio, insônia 
>> ou procurando algum motivo para procrastinar algum trabalho importante, 
>> pode torturar o robozinho e depois me conta se ele passou no teste ou não. 
>> Eu agradeço.🙂
>> >
>> > Saudações,
>> > Daniel.
>> > ─────────────────────────
>> > Departamento de Filosofia - (UFRN)
>> > https://www.danieldurante.net.br
>> >
>> >
>> > Em sexta-feira, 21 de agosto de 2026 às 10:31:32 UTC-3, Joao Marcos 
>> escreveu:
>> >>
>> >> PessoALL:
>> >>
>> >> Também esta lista é um bom fórum público para discutirmos a *educação
>> >> do futuro*, nem que seja do ponto de vista muito específico de
>> >> formadores e educadores com interesse em _Ensino de Lógica_.
>> >>
>> >> Todo mundo já teve professores que são meros enganadores: não
>> >> compreendem minimamente o que estão se colocando na função de ensinar.
>> >> (Em algum momento, confesso, eu me regozijei com a invenção das LLMs,
>> >> pois ela torna muito mais fácil ---bem, ao menos para os
>> >> especialistas--- expor tais tipos de farsantes.)
>> >>
>> >> Muitos dizem que com as LLMs tudo isto vai mudar: sempre poderemos
>> >> aprender mais fora da sala de aula, a partir de uma ferramenta capaz
>> >> de elaborar uma síntese linguística capaz de simular (muito bem) o
>> >> discurso de um especialista. Mais ainda, poderemos conversar
>> >> _diretamente_ com um "especialista instantâneo artificial", no nível
>> >> que desejarmos.
>> >>
>> >> Sob esta perspectiva, entendo que um dos objetivos da educação atual,
>> >> em um "mundo inteligente", seria, em dois passos:
>> >>
>> >> (1) Preparar os estudantes para fazer "perguntas inteligentes".
>> >>
>> >> (2) Equipar os estudantes com conhecimento técnico, conceitual e
>> >> metodológico suficiente para estes serem capazes de avaliar (buscando
>> >> fontes, reconstruindo argumentos e procedimentos, indo atrás de
>> >> contra-exemplos e explicações alternativas) e compreender uma resposta
>> >> recebida, de modo a retornar de forma produtiva ao passo (1),
>> >> recursivamente, caso ainda haja interesse.
>> >>
>> >> Resta-nos esclarecer, evidentemente, o que são "perguntas
>> >> inteligentes" (o que envolve identificar problemas relevantes,
>> >> formular perguntas cada vez melhores, decompor questões complexas), e
>> >> descobrir de que formas podemos manter o interesse dos estudantes
>> >> vivo.
>> >>
>> >> Muito importante, em um mundo em que a _aparência de conhecimento_ se
>> >> tornou muito barata, os estudantes precisam ser capazes de *assumir
>> >> compromissos epistêmicos próprios*, ao invés de simplesmente
>> >> copiar-e-colar a resposta de uma LLM ("because the master said so").
>> >> Quem determina, afinal, o que merece ser perguntado, e o que conta
>> >> como boa evidência? Como lidar de forma honesta com dúvidas e erros?
>> >> E quem é o _responsável epistêmico (e moral)_ pelas *conclusões* dos
>> >> nossos argumentos?
>> >>
>> >> O que pensam os colegas sobre estas coisas?
>> >>
>> >> Saudações lógicas,
>> >> João Marcos
>> >>
>> >> --
>> >> https://sites.google.com/site/sequiturquodlibet/
>> >
>> > --
>> > LOGICA-L
>> > Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
>> Lógica <[email protected]>
>> > ---
>> > Você recebeu essa mensagem porque está inscrito no grupo "LOGICA-L" dos 
>> Grupos do Google.
>> > Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para [email protected].
>> > Para ver esta conversa, acesse 
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/4b262ce9-42e2-4e1b-a6b4-9f6c0c3b8207n%40dimap.ufrn.br
>> .
>>
>> -- 
>> LOGICA-L
>> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de 
>> Lógica <[email protected]>
>> --- 
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> Você está recebendo esta mensagem porque se inscreveu no grupo "LOGICA-L" 
>> dos Grupos do Google.
>
>
>> Para cancelar inscrição nesse grupo e parar de receber e-mails dele, 
>> envie um e-mail para [email protected].
>>
> Para ver esta conversa, acesse 
>> https://groups.google.com/a/dimap.ufrn.br/d/msgid/logica-l/CADs%2B%2B6hrztoP1hhYvpv0mGvaR9am1AZE%3DKJUP9kkON%2BtxqmRqg%40mail.gmail.com
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