Oi Lista,

Os alunos que eu costumo ter estão num nível muito mais básico do que
os do Daniel, e praticamente nenhuma das idéias de como usar IA na
eduacação que o Sidorkin menciona nesse draft aqui,

https://anggtwu.net/tmp/sidorkin__ai-enhanced_pedagogies_rethinking_learning_curriculum_and_human_potential_in_the_age_of_intelligent_machines.pdf

se aplica aos meus alunos.

Vou tentar dar um resumo do que eu pretendo explicar pros meus alunos.
Por enquanto essas idéias estão em vários textos bagunçados, então
acho que vai ser melhor - pra mim e pra vocês - eu tentar resumi-las
de um jeito novo. Lá vai - aliás, aqui vão só algumas das historinhas
principais...

--snip--snip--

Os alunos estão chegando nas minhas turmas sem terem uma noção clara
de que "entender", "decorar" e "copiar" são processos mentais bem
diferentes, e que usam "músculos mentais" diferentes.

Pra quem tem bastante prática com esses processos, como a gente, a
diferença entre eles é tão gritante como a diferença entre "braço" e
"perna" - por exemplo, imagina que duas pessoas estão cada uma do lado
de um skate no chão, e uma delas levanta o skate abaixando pra pegar
ele com a mão e a outra levanta ele pisando na ponta dele com o pé...
MUITA GENTE NÃO CONSEGUE VER ESSA DIFERENÇA.

A minha historinha preferida sobre alguém que não consegue ver uma
diferença que pra gente é óbvia é essa aqui. O `P'edrinho está na fase
`P'ré-silábica, e um dia a professora passa um ditado, uma das
palavras é "ÁRVORE", e o Pedrinho escreve "VROOEA". Quando ele vê no
teste corrigido que ele errou ele cai no choro - porque ele ainda não
tem as estruturas mentais necessárias pra entender que a ordem das
letras importa.

Agora imagina que o Alex e a Thamy vão fazer prova pra Polícia
Federal, e essa prova tem uns testes de aptidão física. Os dois moram
perto de uma pista de corrida, e uma das coisas que o Thamy faz pra se
preparar pra essa prova é que todo dia ela vai na pista e corre várias
voltas. O Alex faz algo parecido mas ao invés de correr a pé ele dá
várias voltas em torno de pista de Uber. Aí quando chega o dia da
prova de aptidão física a Thamy passa nela e o Alex não.

--snip--snip--

Acho que eu tou meio obcecado por um problema que é difícil demais, e
que imagino que vocês lidem com ele dizendo "ah, só uns 25% dos alunos
são assim, então a gente só reprova eles e pronto"...

Então: 25% dos meus alunos, ou talvez mais do que isso, não têm as
estruturas mentais necessárias pra entenderem o que é uma pessoa, o
que é conversar com uma pessoa, o que é explicar coisas pra uma pessoa
de um modo que ela entenda, e como eles não têm prática suficiente de
se colocarem no lugar dos outros eles não conseguem comparar isso com
a versão espelhada disso, em que uma outra pessoa te explica algo, e
ela pode te explicar de um jeito que você entenda ou de um jeito que
você não entenda, e você pode fazer perguntas pra ela - se você souber
perguntar, claro...

Aqui tem uns textinhos bem bons sobre como é difícil aprender a falar
em público na universidade, e como isso geralmente é um processo de
anos:

https://news.ycombinator.com/item?id=49224294
https://anggtwu.net/tmp/hacker_news__danish_high_schoolers_will_have_to_verbally_defend_written_assignments_49224294.pdf

E olha esse texto aqui, que fala bastante sobre "shared knowledge":

"what is publicly shared knowledge defines the granularity of
acceptable mathematical reasoning within a given context"
https://anggtwu.net/tmp/phillips__constructivism_in_education_opinions_and_second_opinions_on_controversial_issues.pdf#page=220

Imagina um aluno que só conversa com IAs. Pra ele o custo psicológico
de falar com outras pessoas da turma, seja por voz ou nos canais de
chat, é tão alto que ele vai ficar quase que totalmente de fora da
construção de "shared knowledge", e ele vai ter muito mais dificuldade
que os outros pra saber se um passo numa conta dele é claro ou não, se
uma justificativa dele é boa ou não, e coisas assim...

Aí eu tou pretendendo dizer pros meus alunos que: gente, esse curso
aqui é principalmente sobre técnicas de descobrir coisas sozinho, e
pra "aprender a descobrir" vocês vão ter que aprender a fazer
perguntas boas, o que é bem difícil, e no processo vocês vão ter
aprender a fazer perguntas ruins, e vão ter que aprender a falar, que
pra muitos de vocês vai ser a coisa mais difícil da vida de vocês,
tipo que vocês vão ficar tão nervosos que vocês vão chegar em casa e
vão vomitar sangue, e não adianta vocês tentarem ajustar a dose dos
remédios pra vocês ficarem "normais", porque não tem como a gente
ficar normal quando a gente tá aprendendo a coisa mais difícil da vida
de gente...

Eita, vou ter que sair, então vou mandar isso como está. Acho que eu
deixei claro porque é que eu não vou fazer chatbots pros meus cursos,
né...

  [[]],
    Eduardo

On Mon, 24 Aug 2026 at 15:04, Daniel Durante <[email protected]> wrote:
>
> Colegas,
>
> Sobre o uso de IA no ensino, eu tento estimular estudantes a brincar com 
> LLMs; quem sabe isso melhora a motivação para estudar lógica? Configurei um 
> (Gemini) Notebook para ser um robô monitor de uma disciplina minha bem básica 
> de introdução à lógica para estudantes de ciências humanas. Fiz alguns testes 
> com o Notebook e, avaliando suas respostas às minhas perguntas, se ele fosse 
> candidato em uma seleção de monitores humanos, eu o teria aprovado. Então 
> disponibilizei para a turma e estimulo o uso. Quem quiser pode dar uma olhada 
> aqui:
>
> https://notebook.google.com/notebook/1f011f9b-b10c-44ef-b0aa-8d6589c47fb4
>
> No caso da minha disciplina, não há muita pressão sobre possíveis trapaças 
> dos estudantes. Eles têm que fazer 2 provas presenciais sem consulta.
>
> Sobre as questões mais profundas da IA, eu não tenho muito a acrescentar. Não 
> sei se os LLMs são (ou serão) entidades conscientes, ou se são e sempre serão 
> meros papagaios probabilísticos. Seja lá o que forem, o que ninguém pode 
> negar é que eles têm competência linguística: reagem às nossas perguntas como 
> se as compreendessem e nos dão respostas (a nós) compreensíveis. Às vezes 
> erram, alucinam e dizem besteiras? Bem, e nós mesmos não fazemos isso?
>
> Eu acho que meu robô monitor tem plena competência para tirar dúvidas das 
> minhas alunas e alunos, e o risco dele dizer alguma bobagem errada não me 
> parece muito maior do que o risco de eu mesmo dizer alguma bobagem errada 
> para a turma.
>
> Mas eu deixei o link aí em cima. Se alguém estiver com tédio, insônia ou 
> procurando algum motivo para procrastinar algum trabalho importante, pode 
> torturar o robozinho e depois me conta se ele passou no teste ou não. Eu 
> agradeço.🙂
>
> Saudações,
> Daniel.
> ─────────────────────────
> Departamento de Filosofia - (UFRN)
> https://www.danieldurante.net.br
>
>
> Em sexta-feira, 21 de agosto de 2026 às 10:31:32 UTC-3, Joao Marcos escreveu:
>>
>> PessoALL:
>>
>> Também esta lista é um bom fórum público para discutirmos a *educação
>> do futuro*, nem que seja do ponto de vista muito específico de
>> formadores e educadores com interesse em _Ensino de Lógica_.
>>
>> Todo mundo já teve professores que são meros enganadores: não
>> compreendem minimamente o que estão se colocando na função de ensinar.
>> (Em algum momento, confesso, eu me regozijei com a invenção das LLMs,
>> pois ela torna muito mais fácil ---bem, ao menos para os
>> especialistas--- expor tais tipos de farsantes.)
>>
>> Muitos dizem que com as LLMs tudo isto vai mudar: sempre poderemos
>> aprender mais fora da sala de aula, a partir de uma ferramenta capaz
>> de elaborar uma síntese linguística capaz de simular (muito bem) o
>> discurso de um especialista. Mais ainda, poderemos conversar
>> _diretamente_ com um "especialista instantâneo artificial", no nível
>> que desejarmos.
>>
>> Sob esta perspectiva, entendo que um dos objetivos da educação atual,
>> em um "mundo inteligente", seria, em dois passos:
>>
>> (1) Preparar os estudantes para fazer "perguntas inteligentes".
>>
>> (2) Equipar os estudantes com conhecimento técnico, conceitual e
>> metodológico suficiente para estes serem capazes de avaliar (buscando
>> fontes, reconstruindo argumentos e procedimentos, indo atrás de
>> contra-exemplos e explicações alternativas) e compreender uma resposta
>> recebida, de modo a retornar de forma produtiva ao passo (1),
>> recursivamente, caso ainda haja interesse.
>>
>> Resta-nos esclarecer, evidentemente, o que são "perguntas
>> inteligentes" (o que envolve identificar problemas relevantes,
>> formular perguntas cada vez melhores, decompor questões complexas), e
>> descobrir de que formas podemos manter o interesse dos estudantes
>> vivo.
>>
>> Muito importante, em um mundo em que a _aparência de conhecimento_ se
>> tornou muito barata, os estudantes precisam ser capazes de *assumir
>> compromissos epistêmicos próprios*, ao invés de simplesmente
>> copiar-e-colar a resposta de uma LLM ("because the master said so").
>> Quem determina, afinal, o que merece ser perguntado, e o que conta
>> como boa evidência? Como lidar de forma honesta com dúvidas e erros?
>> E quem é o _responsável epistêmico (e moral)_ pelas *conclusões* dos
>> nossos argumentos?
>>
>> O que pensam os colegas sobre estas coisas?
>>
>> Saudações lógicas,
>> João Marcos
>>
>> --
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> Lista acadêmica brasileira dos profissionais e estudantes da área de Lógica 
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